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Corumbá, 240 anos: avanços e recuos da cidade que foi 'Capital Econômica'


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21/09/2018 09h27

Corumbá, 240 anos: avanços e recuos da cidade que foi 'Capital Econômica'

Silvio de Andrade


 Uma das cidades mais belas do interior brasileiro, com um conjunto arquitetônico que difere das demais antigas cidades do País ao predominar a arquitetura neoclássica italiana – semelhante ao centro de Assunção (Paraguai), subúrbios de Buenos Aires (Argentina) e interior do Uruguai, Corumbá completa 240 anos nesta sexta-feira, 21. Cidade de contrastes, lendas, apogeu e decadência econômica – cujos moradores são 60% afrodescendente.

Fundada no mesmo ano (1778) que Miranda e Ladário, a Capital do Pantanal ou Cidade Branca vivenciou desde o final do século XIX aos dias atuais momentos de euforia com a passagem do gasoduto Bolívia-Brasil e grandes projetos industriais e de logística. No entanto, Corumbá tem um ramal do gás inoperante; a termelétrica do empresário Eike Batista emperrou; o polo petroquímico foi ilusão e a rota bioceânica continua alimentando sonhos.

 

A divisão territorial de Mato Grosso, em 1977, foi um duro golpe a uma região isolada no extremo Oeste e com laços históricos e afetivos com Cuiabá e Cáceres, cidades mato-grossenses, pelo Rio Paraguai. Os altos e baixos da cidade se acentuam nesses 240 anos, tornando-se recorrente, predominando, como cita o historiador e ex-vereador da cidade, Valmir Batista Corrêa, “as interrupções em detrimento da continuidade histórica”.

Feitiço do tempo

Quem passeia pelas suas ruas de paralelepípedos bem traçadas, encantando-se com os casarões, tempos religiosos, praças e monumentos, não pressupõe a importância econômica e política que foi no passado essa cidade pacata, encantadora e única. No auge do comércio fluvial, até os anos de 1930, Corumbá era o centro financeiro do velho Mato Grosso. A ausência do governo de Cuiabá insurgiu movimentos para mudar a capital do Estado.

tempo e a história, como bem definiu Valmir Corrêa, no entanto, foram e continuam implacáveis com essa joia influenciada pelas águas platinas. O historiador escreveu um artigo – “O feitiço do tempo em Corumbá” – para abordar uma sequência de acontecimentos que ditam “o ritmo de um tempo feiticeiro, devagar, quase parando... sem sair do lugar. Só um combalido sentimento de frustrada esperança é que a move.”

Idas e vindas que também inspiraram o poeta maior e pantaneiro Manoel de Barros, que melhor definiu esses lampejos. Diz o poeta: “As coisas que acontecem aqui, acontecem paradas. Acontecem porque não foram movidas. Ou então, melhor dizendo: desacontecem”. De fato, ocorre historicamente um processo de interrupção dos fatos mais relevantes, os quais, ou não ocorrem, ou acontecem lentamente, ou ainda implicam em perdas para a cidade.

Portal de entrada: a cidade discute há 20 anos um monumento só de saída (Foto: Divulgação)Portal de entrada: a cidade discute há 20 anos um monumento só de saída (Foto: Divulgação)

Eixo econômico

Corumbá era uma fortificação abandonada pela província e acabou sendo a única vila ocupada pelas tropas paraguaias na Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870). Retomada em 13 de junho de 1870, expandiu-se com a abertura dos portos tornando-se o terceiro maior entreposto fluvial da América Latina. Foi o embrião do Mercosul, a primeira cidade da região a manter relações comerciais com Argentina e Uruguai, herdando características de uma cidade platina.

Porto de Corumbá em 1930: moeda esterlina, comércio de peles, tecidos franceses (Foto: Divulgação)Porto de Corumbá em 1930: moeda esterlina, comércio de peles, tecidos franceses (Foto: Divulgação)

Pelo seu porto passavam navios transatlânticos, a moeda predominante era a esterlina e operavam 20 bancos, dentre os quais o City Bank. A agência local do Banco do Brasil é a 14ª do País, quando algumas cidades, hoje metrópoles, não contavam com a instituição financeira. Corumbá prosperava no início do século XX, instalava-se uma das primeiras indústrias de cerveja do Brasil, os vinhos das melhores adegas e os tecidos refinados vinham da Europa.

Com a chegada dos trilhos da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil ao hoje distrito de Porto Esperança, distante 80 km de Corumbá, porém, ocorria um dos primeiros revezes para quebrar o monopólio do comércio fluvial. A ferrovia chegou a Corumbá somente em 1952, quando o eixo econômico já havia se transferido para Campo Grande, que se desenvolvia de forma extraordinária com a aproximação com os grandes centros pelo trilho e estrada.

A cheia de 70

A cidade entrou em decadência e chegou a reduzir sua população em 1980, segundo o IBGE, depois de somar com o triplo de habitantes de Campo Grande, em 1912. A hoje capital de Mato Grosso do Sul, ao contrário, passou de 5.115 moradores naquele ano para 21.360 em 1920. A inesperada cheia do Pantanal, em 1970, matando milhares de cabeças de gado, foi mais um tropeço, arruinando a economia local, instalando-se uma crise profunda.

Primeiro edifício de Mato Grosso com apartamentos, construído na década de 1950 (Foto: DIvulgação)Primeiro edifício de Mato Grosso com apartamentos, construído na década de 1950 (Foto: DIvulgação)

Ainda com força política, Corumbá recebe energia elétrica de Urubupungá, em 1970, contudo, não se efetivaria, por causa da cheia na planície, a ligação rodoviária com Porto Jofre, em Poconé (MT), considerada a redenção da região. Não havia ligação rodoviária com Campo Grande, que, ao contrário, era beneficiada com a implantação da BR-163, de São Paulo a Cuiabá. O trecho da BR-262 entre Miranda-Corumbá foi o último a ser implantado, nos anos de 1980.

Como contraponto desse período de enfraquecimento econômico, é instalada na cidade a primeira indústria de Mato Grosso, a Cimento Itau, hoje controlada pela Votorantim. Na década de 1950, é construído o primeiro arranha-céu do Estado – o Edifício Salim Kassar -, com 11 andares de apartamentos, na rua 13 de Junho, em frente à Praça da Independência. Mas o Anel Viário de 11,9 km em direção à Bolívia, projetado em 1973, foi construído somente em 2010.

 

A refundação

Hoje, Corumbá é a quarta população do Estado, mas não tem representação política em Brasília e na Assembleia Legislativa. Passou por um processo de “refundação” – expressão usada pelo ex-prefeito Ruiter Cunha, que morreu em 2017 – nos anos 2.000, retomando o desenvolvimento com um volume de investimentos públicos nunca visto. O turismo, a mineração, o comércio exterior e a pecuária são os esteios de sua economia.

Os revezes históricos, no entanto, não tiraram da cidade seu encanto, a alegria do povo bairrista - que canta o samba no pé, imita o sotaque carioca e se orgulha de ser corumbaense. Por isso Corumbá é única, tudo ali acontece diferente – ou desacontece. Mesmo depois de ficar isolada por uma tromba d’água, que inundou a cidade e matou várias pessoas, em 1992, o povo realizou o seu carnaval de rua, o melhor do interior brasileiro. Isso é Corumbá!

 Jornal anuncia a utopia: existiria petróleo no Pantanal, segundo Monteiro Lobato (Foto:Divulgação)Jornal anuncia a utopia: existiria petróleo no Pantanal, segundo Monteiro Lobato (Foto:Divulgação)
 
 
 




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