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O dia em que o dólar derrotou a moeda internacional


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22/07/2019 09h42

O dia em que o dólar derrotou a moeda internacional

Mário Sérgio Lorenzetto


 22 de julho de 1944. A Segunda Guerra Mundial não terminara, mas todos sabiam que estava decidida. Os aliados ocidentais se dispunham a aprovar a ordem que regeria o mundo. Representantes de 44 países - o Brasil esteve presente com uma poderosa delegação - se reuniram em Bretton Woods, em New Hampshire, nos EUA. Tinham de fixar as novas regras do jogo comercial, financeiro e monetário da paz e criar as instituições que as tornariam possíveis.

Devedores contra credores.

Eles não partiram do zero. Alguns dos mais reputados negociadores dos EUA e da Inglaterra estavam há meses trocando ideias e papéis. Mas estavam em lados opostos desde o começo. A maior parte dos países que participaram de Bretton Woods era de devedores. Os norte americanos, além de jogar em casa, eram credores. Uma vantagem que seria decisiva e válida até para os dias atuais.O grande Winston Churchill já havia, sarcásticamente, dado a ideia que permearia o encontro: "Sempre se pode contar com que os EUA acabem fazendo o correto, uma vez que se tenham esgotadas as demais possibilidades". O grande vencedor da guerra sabia que os EUA tentariam levar vantagem.

O dia em que o dólar derrotou a moeda internacional

O "deus" Keynes contra o burocrata "vermelho" White.

Para equilibrar o enorme poder dos norte americanos, a Inglaterra escalou uma esquadra comandada por John Maynard Keynes, tido por todo o ocidente, naqueles anos, como o melhor economista do mundo, o mais influente, o mais afamado, o que havia sido determinante para a sustentação intelectual do New Deal, a política econômica com que o presidente norte americano Roosevelt havia derrotado a Grande depressão de 1928. A bancada norte americana era comandada por Harry Dexter White, um burocrata que o FBI vinha sondado por ter ligações com os comunistas da União Soviética. White escrevera que: "Rússia é o primeiro exemplo prático de economia socialista, e funciona!". Keynes abominava a União Soviética e o marxismo. Acentuara suas fobias ao comunismo depois de uma viagem à URSS. Keynes havia escrito sobre a obra mais famosa de Marx: "Meus sentimentos sobre "O Capital" são os mesmos que tenho sobre o Corão... Como puderam esses livros levar o fogo e a espada a meio mundo?" E completava: "Seu valor econômico (do livro " O Capital) é nulo". Além das possíveis diferenças ideológicas entre os dois - White faleceu em seguida sem que nada pudesse ser comprovado sobre sua ligação com os comunistas - Keynes era um "lorde", um homem acostumado a tratar com qualquer autoridade. Já White era um mero burocrata que jamais seria recebido por qualquer presidente ou primeiro ministro, ele só discutia com o presidente do Tesouro dos EUA Henry Morgenthau, que era tido como um grande amigo de Roosevelt, mas de limitada inteligência. A grande piada que os jornais faziam a seu respeito era que ele nada sabia de economia além de ler os livos de Keynes.
Os jogadores e o campo estavam em condições de começar o maior jogo de economia de todos os tempos. O campo e a bola pertenciam aos EUA. Os grande jogadores eram da Inglaterra.

O dia em que o dólar derrotou a moeda internacional

As grandes decisões que são válidas até os dias atuais.

Foi em Bretton Woods que se decidiu a criação do Banco Mundial, do FMI. Também foi nesse balneário que começaram as primeiras tratativas sobre a futura Organização Mundial do Comércio. Mas uma renhida disputa foi levada a cabo até o final do encontro. Keynes propunha que fosse criada uma moeda bancária internacional que seria chamada de Bancor, White queria que o dólar cumprisse a tarefa de ser a moeda do mundo ocidental. Não é preciso ser pitonisa para saber quem venceu a contenda. Com o sistema de Bretton Woods, cada moeda passava a apresentar um valor fixo em relação ao dólar, e consequentemente, em relação ao ouro. O dólar se tornou a moeda de reserva utilizada por todos os bancos centrais ocidentais. Tinha sido dada a largada para o domínio imperial dos EUA.
Esse é um dos maiores paradoxos da história da economia. Como um possível comunista - White - colocou os EUA à frente da economia mundial? Por outro lado, como um arqui-inimigo dos socialistas - Keynes - passou a ter suas ideias utilizadas por todos os países que adotariam a social democracia como sua política primordial.

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A representação brasileira.

Para essa conferência, o Brasil enviou uma delegação de peso que jamais se repetiria. Chefiada pelo líder empresarial Euvaldo Lodi, da Confederação Nacional da Indústria, contava com os melhores economistas de nossa história. Lá estava Eugênio Gudin, criador das faculdades de economia brasileiras, Octávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos, e o Ministro da Fazenda Arthur de Souza Costa. O notável dessa representação, além de seu renome, foi a presença de economistas de políticas públicas, dedicados e estudiosos de operações macro da economia, um tipo de formação intelectual que desapareceu no Brasil. Hoje, só temos burocratas da economia e economistas de mercado....





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