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Ex-zagueiro do São Paulo chegou a vender medalha do Mundial por vício em cocaína: 'Acabou comigo'


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23/05/2020 14h24

Ex-zagueiro do São Paulo chegou a vender medalha do Mundial por vício em cocaína: 'Acabou comigo'

Flávio Donizete refaz a vida em Americana, no interior paulista, com ajuda de Mineiro e Hernanes.

Por Eduardo Rodrigues — São Paulo


Flávio Donizete foi campeão do mundo pelo São Paulo em 2005. Não entrou em campo, mas fez parte do elenco e ganhou a medalha pela conquista no Japão. O futuro daquele jovem de 21 anos, porém, o levou para o caminho das drogas. E o vício em cocaína o fez até vender o símbolo daquele título.

Aos 36 anos, o ex-zagueiro vive em Americana, no interior de São Paulo, e está "limpo", como diz. Ainda sonha poder jogar profissionalmente, mas está feliz trabalhando como jardineiro. A ajuda de Mineiro e Hernanes, ídolos do Tricolor, tem sido fundamental.

De peito aberto, Flávio Donizete faz relatos fortes e tristes do período em que viveu mergulhado no vício nesta entrevista ao GloboEsporte.com. A falta de confiança da família, as amizades erradas, a busca incessante pela droga, dinheiro roubado...

– Eu usava igual louco. Aí quando eu vendi (a medalha), chegou o dinheiro e torrei quase tudo na cocaína. Na primeira pancada foi mil reais de cocaína. E eu usei em dois dias. Deu ataque, coisa no coração... O vício falava mais alto, mais forte. Quanto mais dinheiro eu tinha, mais queria.
Flávio Donizete, em treino do São Paulo — Foto: Sérgio Castro/Estadão
 
 
Flávio Donizete, em treino do São Paulo — Foto: Sérgio Castro/Estadão


A medalha foi recuperada. Está de novo com o ex-zagueiro. Mas sua maior conquista no período de recuperação foi poder cumprir o prometido à filha Flavia: largar as drogas e se manter sóbrio.

– Esse é um dos maiores orgulhos que tenho.

A TV Globo e o GloboEsporte.com vão reprisar o jogo do título mundial do São Paulo. A transmissão na TV Globo será neste domingo, às 15h45, para os estados de SP (capital, interior e litoral), Santa Catarina, Paraná (menos a capital), Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O GloboEsporte.com passa para todo o Brasil no mesmo horário.

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Confira abaixo a entrevista na íntegra:
GloboEsporte.com: como começou a sua trajetória no São Paulo?
Flávio Donizete: – Eu cheguei em 1998. Fiz uma peneira em Itapecerica da Serra (região metropolitana da capital paulista). O São Paulo fazia muita peneira naquela época e foi com um grupo de jogadores e comissão. Como eles não tinham time para jogar, a gente fez uma seleção de Itapecerica. Mas eu entrei por acaso. Faltou alguém, e eu fui treinar contra o São Paulo. O pessoal gostou, mas eu não tinha passado ainda. Joguei e fui para casa. Um tempo depois o São Paulo fez a peneira e passei. Eu e mais dois jogadores da época. Em 1998, eu cheguei e fiquei lá até 2009.

Como você ficou definitivamente no clube?
– Na verdade faltava um mês para acabar o contrato e aí o profissional precisava de um zagueiro para completar o elenco, porque estava faltando. O Silva (diretor da base) falou: “Vai você então, já que está faltando um, vai que é sua chance”. Fui treinar com o profissional, e o Cuca acabou gostando de mim no primeiro dia. Expliquei a ele minha situação, que eu já estava com contrato acabando e não sabia o que ia fazer. Aí no mesmo dia ele falou: “Vai lá e assina o contrato de cinco anos”. Fui, treinei, ele já conversou comigo, fui na diretoria e assinei o contrato.


Em 2005 você foi para o Mundial e conquistou o título. Como foi isso?
– Na verdade eu não iria para o Mundial. Não estava inscrito. Fizemos um último treino para o pessoal poder viajar ao Japão, e eu seria emprestado. Mas, no último dia, o Alex Bruno machucou o tornozelo. Eu já estava indo embora, saindo na portaria do CT, e o pessoal pediu para voltar: "Pediram para você voltar porque o Autuori quer falar com você”. Para mim, ele ia falar que eu ia ser emprestado, eu já sabia. Nessa que eu voltei, ele falou: "Flávio, pega uma mala lá, porque você vai viajar com a gente. Você não vai ser inscrito, mas vai viajar com a gente".

– Fiquei muito feliz, peguei a mala, fui para casa e no dia seguinte fui viajar. Tinha a classe executiva, a classe A e a única passagem que tinha era a classe executiva. Eu fui de classe executiva! Era um avião de dois andares, negócio fora do normal. E eu fui. Cheguei lá sem estar inscrito, comecei a treinar com o pessoal no Japão e o Alex Bruno se recuperou. Mas para mim só de estar ali já estava bom. Eu estava treinando normal e na véspera da nossa estreia o Leandro Bonfim abriu a virilha e como só tinha um a mais, que era eu, fui inscrito. O Leandro Bonfim ficou assistindo ao jogo da arquibancada, e eu fiquei no lugar dele e pude participar do banco de reservas.
Flávio Donizete, o primeiro agachado da direita para esquerda, no Japão — Foto: Arquivo pessoal
Flávio Donizete, o primeiro agachado da direita para esquerda, no Japão — Foto: Arquivo pessoal

E como o Leandro Bonfim ficou? Você falou com ele?
– Na época eu conversei com ele e queria dar a medalha para ele, porque não achei justo. Eu queria dar a medalha, mas ele falou: “Não, é sua. Você tem todo o direito, participou, foi para o banco e não tem como eu pegar sua medalha”. E fiquei com a medalha...

Como foi para você conquistar um Mundial tão novo?
– Eu nunca tinha viajado para um lugar tão longe como o Japão. Eu cheguei lá em outro nível, outro mundo. O hotel era extraordinário, nunca tinha entrado em um hotel daquele lá, muita coisa. Cheguei lá e tinham algumas pessoas que já me conheciam, me trataram bem também. Uma coisa fora do normal. Eu fiquei no quarto com o Bosco. Ele me ensinou muito naquele momento. Até então eu estava um pouco desviado... Depois da conquista, voltei ao Brasil e aquela passeata, um monte de gente esperando a gente, aquilo é uma coisa que eu vou levar para o resto da vida.

E como acabou sua trajetória no São Paulo?
– Fiquei até o começo de 2006, mas aí chegou o Muricy, ele tentou me usar como volante, como lateral-direito... Só que aí chegou o André Dias, o Pirulito (Alex Silva) também, começou a chegar muito zagueiro. Ele tentou conversar comigo, me utilizar de todas as formas, mas como tinha muito lateral bom, ele falou: "Flávio, vou ter que te emprestar". Aí eu saí do São Paulo, fui lá para a Bahia, no Atlético de Goianinha, para disputar o Campeonato Baiano.

– Aí, nessa trajetória, comecei a rodar bastante também. Fui para o Nacional de Manaus, antes do Japão eu tinha ido para o Los Angeles Galaxy e comecei a rodar um pouco. No São Paulo, eles queriam me deixar no time B. Eu poderia conseguir algo melhor, mas como estava com muita vontade de sair, de querer jogar, dei um passo maior do que a perna e me compliquei um pouco. Em 2009, acabou meu contrato com o São Paulo e foi aí que as coisas começaram a acontecer na minha vida.

As "coisas" que você diz é o envolvimento com as drogas?
– Sim, porque ali eu já estava com dinheiro, tinha meu carro, até reformei a casa da minha mãe toda, então eu falei: "Vou dar um tempo, porque eu preciso descansar". Em alguns momentos, eu estava treinando muito, não parava. Eu não tinha férias para nada, era treinar, treinar, treinar... E queria curtir um pouco o momento. E foi nessa fase que comecei a frequentar a balada, comecei a conhecer a cachaça, e foi aí que entrei no vício da cocaína.

Quando esse vício pela cocaína começou?
– Em 2010 comecei a usar.

O que mudou na sua vida a partir desse momento?
– Depois que conheci a cocaína, eu perdi demais. Porque até então eu usava ela moderadamente. Até que ela ficou mais forte na minha vida, comecei a perder tudo o que eu tinha. O dinheiro guardado usei para comprar droga todo dia. Eu não ficava sem droga por nada. Manhã, tarde e noite tinha que usar cocaína. E nessa o dinheiro que tinha na conta, as coisas que tinha, comecei a perder.

– Perdi tudo, tudo, tudo. Só não perdi a minha esposa, minhas filhas e minha família, que está comigo até hoje. Em termos de amigo e pessoas que eu ajudei, ninguém mais conversava comigo, ninguém me ajudava mais, porque não confiavam mais, porque sabiam que se me ajudassem a primeira coisa que eu ia fazer era parar em uma biqueira (ponto para comprar drogas).

Ou seja, você nem os considera como amigos...
– É isso que eu falo quando dou palestras, quando falo até para dar exemplo para as minhas filhas. Não que elas irão para esse caminho, mas eu tento mostrar o caminho certo, o que é amigo e não é. E hoje são poucos os amigos que me ligam, que me mandam uma mensagem. A maioria dos amigos que eu tenho hoje são jogadores, que ainda falam comigo. Em Itapecerica, eu tenho dois amigos que eu posso confiar. Mas tirando isso é minha esposa, minhas filhas, minha mãe, meus irmãos, meu pai...

E por que eles nunca abandonaram você?
– Era para ter abandonado, porque o jeito que eu estava, se fosse uma família que fosse fraca mentalmente, que não fosse guiada por Deus, eles com certeza tinham me abandonado. Mas minha mãe e minha esposa sempre acreditaram em mim e sabiam que Deus tinha um chamado na minha vida. E assim, foram 13 anos de vício de cocaína. Essa doença é lenta, progressiva, incurável e fatal. Eu cheguei a quase morrer. Corria muito risco de pessoas me jurando de morte.

– Coisas que são complicadas. Mas eu creio em um Deus que liberta hoje. Já faz um ano e pouquinho que eu estou limpo. Depois que fui para a clínica Alexandre Castanheiras, pude abrir minha visão e saber que realmente não quero mais isso na minha vida. Graças a Deus, hoje eu posso dizer que estou curado, mas curado e vigiando sempre, porque não pode vacilar com essa droga, não. Ela não é brinquedo, não.

Onde está sua medalha de campeão mundial pelo São Paulo?
– Vendi para poder usar droga. Vendi por 7 mil reais. Na verdade foi assim: eu estava em casa, lembro até hoje, e bateu a abstinência, só que não procurei mais nada. Eu sabia que tinha a medalha, mas nunca tinha passado pela cabeça vender, porque senão já teria vendido antes. Se eu soubesse que valia, tinha vendido antes. Não adianta mentir, eu já teria vendido.

– Nisso, o meu primo me mandou uma mensagem perguntando da medalha, comentou comigo e eu falei que queria vender. Depois de uma semana, ele mandou mensagem dizendo que tinha um cara que queria comprar. O cara pagava 3 mil reais. Eu falei: "Mas na bucha? Eu dou a medalha e ele dá o dinheiro?". Quando ele falou que sim, eu disse: “Então vem buscar”. Meu primo veio, trouxe o dinheiro, e eu dei a medalha para ele, mas depois fiquei sabendo que ele tinha vendido por R$ 7 mil. Ele me pegou, mas eu não questiono, porque não sei se ele agiu de má fé. Até hoje ele pede perdão para mim, porque não sabia a situação que eu estava passando.

– Eu usava a droga e não ficava causando na rua, não ficava doido andando descalço. Eu ia, buscava minha droga e pronto. No começo, eu saía para beber, para ficar em posto de gasolina e usar a droga. Mas depois de um tempo comecei a buscar e ficar em casa. Aí eu arrumava a casa, desarrumava a casa... Em um dia, arrumava e desarrumava a casa umas 20 vezes (risos). Tudo por causa da droga. Eu usava igual louco. Aí quando vendi (a medalha), chegou o dinheiro e torrei quase tudo na cocaína. Na primeira pancada foi mil reais de cocaína. E eu usei em dois dias. Deu ataque, coisa no coração... O vício falava mais alto, mais forte. Quanto mais dinheiro eu tinha, mais queria (droga). Eu não queria que aquilo ali acabasse. Satisfazia no momento, né?

Nota da redação: Flávio Donizete recuperou a medalha com a participação em um programa da TV Record.

O que mais você vendeu de bens materiais para satisfazer seu vício?
– Cheguei a vender uma camiseta minha do São Paulo e a medalha. O carro eu não cheguei a vender, o carro perdi porque eu não conseguia pagar. Estava financiado e o dinheiro que eu tinha pra pagar o financiamento do carro ia pegando em cocaína.

Faltou comida em casa por conta disso?
– Faltou... Chegou um tempo que eu comecei a trabalhar com meu cunhado de pedreiro. Eu ganhava R$ 80 por dia e tinha vezes que não tinha nada dentro de casa. Tinha um pacotinho de arroz, um negocinho de feijão e às vezes buscava uma mistura no final de semana, quando pegava o dinheiro da semana, uns R$ 380, R$ 400... Sexta eu recebia às cinco da tarde e só chegava no sábado no meio-dia em casa, sem dinheiro, sem nada. Bêbado, mijado, com nariz cheio de farinha.

E como era chegar desse jeito em casa e olhar para a esposa e as filhas?
– Eu não enxergava nada. O cara não enxerga, ele acha que está no controle, fala que depois consegue de novo. E como tinha a minha mãe perto da minha casa, se estourasse tudo, eu ia para a casa dela pegar mistura para fazer as coisas. É complicado. A droga é complicada. Hoje é por isso que eu não tenho tudo.

– A gente mora de aluguel, mas o pouco que eu tenho hoje dou valor, porque as minhas filhas já estão grandes, já entendem, mas a melhor coisa é ter um dinheiro digno, é chegar em casa, chamar sua mulher para ir lá fazer uma compra, a sua filha querer comer um chocolate e você poder comprar. Naquela época eu não via isso. Eu falava: "Amanhã eu consigo, amanhã eu consigo". Mas tinha vezes que não conseguia, às vezes me humilhava para os outros para poder emprestar R$ 50, R$ 30 e eles não emprestavam por saber que eu ia usar droga.
Flávio Donizete, ex-São Paulo, e a esposa Cibele — Foto: Arquivo pessoal
Flávio Donizete, ex-São Paulo, e a esposa Cibele — Foto: Arquivo pessoal

Você chegou a pedir dinheiro. Como você sustentava esse vício quando chegou nesse ponto?
– Em Itapecerica eu sou conhecido por todo mundo (risos), e quando estava no São Paulo e tinha dinheiro, pagava para todo mundo as bebidas, pagava para geral, e a gente acaba pegando amizade. Eu não tinha e ia na casa de um, pedia R$ 20, ia na casa do outro pedia R$ 30, até juntar R$ 100, R$ 150, até conseguir. Ia na casa das minhas tias dizendo que estava passando necessidade dentro de casa. Minhas tias me davam o dinheiro e eu já ia para a biqueira buscar droga.

Você chegou ao ponto de roubar coisas da família?
– Meu irmão tinha um cofrinho de porquinho grandão e começou a juntar dinheiro porque ele queria trocar de carro, começou a juntar só nota de R$ 100. Quando todo mundo ia dormir, eu ia lá e todo dia pegava R$ 100. Eu pegava com a pinça e de manhã já acordava e ia para a biqueira. Eu chegava em casa umas seis, sete horas da noite porque o dinheiro já tinha acabado e às vezes nem dormia, porque tava na abstinência da droga. E roubava de novo. Quando meu irmão abriu, o cofrinho já não tinha mais nada de dinheiro.

Qual foi seu momento mais difícil com relação à cocaína?
– Quando as pessoas não acreditavam mais em mim. Quando a minha esposa já queria separar. Na verdade eu separei duas vezes. Separei naquelas... Fiquei uma semana separado (risos). Mas a coisa mais difícil é quando as pessoas não acreditam mais em você. Por mais que você esteja falando a verdade... Tinha momentos que eu estava falando a verdade e as pessoas não acreditavam, porque o tanto que você mente para conseguir algo, quando você fala uma verdade já não acreditam mais.

– Ninguém deixava uma carteira, uma bolsa perto de mim. Era complicado, porque desconfiavam de tudo. Tinham situações que aconteciam e as pessoas apontavam e diziam que era eu que tinha feito. Essa era a coisa mais difícil. Mas eu sabia que isso ia mudar. O caráter também diz tudo. Não adianta falar que vai mudar assim. Mas eu tinha certeza que Deus ia mudar minha história como ele tem mudado.

Você continua em Itapecerica da Serra?
– Mudei de cidade, porque a pior coisa para um drogado... A pessoa tem de querer também, mas quando ela volta para o mesmo lugar de onde saiu é pior. Porque tudo fica mais fácil. O cara sabe todas as biqueiras que tem na cidade, o cara sabe onde vai buscar a droga, o cara sabe o que fazer para pegar a droga... E quando eu mudei para Ribeirão Preto não conhecia ninguém. Eu mudei e fiquei treinando, porque recebi uma proposta de trabalho, iria para o Botafogo-SP ou Comercial, um desses times. Só que infelizmente não deu certo.

– O Mineiro foi me visitar, conversar comigo, eu expliquei a situação e ele disse que queria ajudar. Passou um tempo, ele trouxe a gente para Americana, onde estamos até hoje. O irmão dele tem um projeto aqui, estou ajudando e treinando para ver se consigo jogar um ano, dois anos.

Por que você expõe o vício? Acha que pode ajudar as pessoas que passam por isso?
– Eu falo porque sei que vou ajudar de alguma forma. Não adianta colocar uma máscara e falar que é isso ou aquilo. Eu poderia estar mentindo para você agora e falar: “Não uso”. Mas hoje eu falo de coração porque eu estou limpo, estou bem e com essas palavras, se alguém puder ler, puder ouvir, eu vou estar ajudando. É difícil? Claro que é difícil, mas Deus não falou que seria fácil.

– Mas hoje vale muito a pena eu chegar em casa de cabeça erguida e olhar para as minhas filhas... Minhas filhas hoje fazem uma coisa que não faziam antes. Hoje elas olham para mim e dizem: “Pai, a gente é simples, a gente não tem muita coisa...”, e hoje a Flávia, a mais velha (12 anos), fala, todo dia quando vai dormir: “Pai, eu tenho orgulho de você”. Isso já é uma coisa que eu ganho o dia, ganho a semana.

Qual a importância da esposa nessa reconstrução?
– Ela acreditava muito em mim. A gente brigava muito, mas não por causa dela, por causa de mim. Ela falava que eu era mentiroso demais (risos). Mas em nenhum momento ela deixou de acreditar em mim. Ela falava: "Não, você vai mudar. Nem que seja para você mudar e ficar com outra pessoa, mas você vai mudar". E ela automaticamente foi plantando essa sementinha no meu coração. "Só vou separar de você depois que você se curar, porque essa é a minha missão". Estamos juntos até hoje. Se ela separar de mim, ela morre, não aguenta não. O pai aqui é fera (risos).

Qual a idade da suas filhas e como elas conviveram com tudo isso?
– A Flavia tem 12, a Sofia tem dez e a Valentina tem cinco anos. A Valentina é a terrorista da casa (risos). Mas a Flávia é a que entende mais, porque já tem uma cabeça meio boa. Ela conversava comigo: “Pai, quando você vai mudar? Quando você vai fazer isso, pai, por favor? Você não está vendo que você está acabando com a sua vida e com a nossa também?”. E querendo ou não ela deu uma ajuda, porque quando olhava para ela eu chorava muito e sempre falava: “O pai vai mudar, o pai vai mudar”. E hoje eu tenho orgulho de olhar e elas falarem: “Nossa, pai, você falou que ia mudar e conseguiu”. Esse é um dos maiores orgulhos que tenho.
Flávio Donizete, ex-São Paulo, ao lado das filhas e esposa — Foto: Arquivo pessoal
Flávio Donizete, ex-São Paulo, ao lado das filhas e esposa — Foto: Arquivo pessoal

Você falou que os jogadores ainda ajudam você, citou o Mineiro...
– O Mineiro, o Borges me ajudou bastante, o Richarlyson me ajudou. Mas assim, nesse tempo que estou aqui quem que me deu mais força foram o Hernanes, o Profeta, e o Mineiro. O Hernanes ajudou tanto com conselhos e financeiramente. Uns três, cinco meses atrás o Hernanes depositava R$ 2 mil para eu conseguir me manter lá em Ribeirão e para me manter aqui em Americana. Como a situação estava um pouco difícil, eu não estava trabalhando, fazia um bico... Mas eles me ajudaram para caramba. E o Mineiro tem me ajudado até hoje.

– O Hernanes é um cara que Deus colocou na minha vida para me abençoar, e eu tenho muito orgulho de dizer isso. As pessoas têm vergonha de falar: “Nossa, o cara te ajudou”. Não, eu falo porque é um cara que merece todo o respeito, tem um coração puro, o Mineiro também, um cara abençoado que tem me ajudado, não mede esforços para me ajudar. Claro que eu não quero depender deles a vida inteira, depois quero retribuir tudo o que fizeram por mim. Eu quero ter um salário digno, quero manter minha família sem depender dos outros. É vergonha? Não. Mas eu quero ter essas coisas.

O que você faz para se reerguer atualmente?
– Eu vim para poder jogar no Rio Branco (de Americana), mas como deu a pandemia... Eu estava treinando, tudo, e aqui no Rio Branco tem só até o sub-23, mas parece que ano que vem vai ter o profissional. É o que estou sabendo por cima, mas não sei. Eu vim para trabalhar. Estou em uma ONG e querendo ou não dá para fazer uma palestra, algumas coisas para poder falar um pouco sobre as drogas, o que ela faz, o que ela não faz. Estou conseguindo me manter. Como eu estava desempregado aqui, o sogro do Mineiro me chamou para trabalhar com jardinagem.

– Quando ele me chama, eu vou. Ele me paga R$ 80, R$ 90 o dia. Comigo não tem tempo ruim, não. O negócio é trazer o sustento para dentro de casa (risos). Sabe por que eu não reclamo? Porque antigamente eu carregava dois metros de areia para ganhar R$ 30 para comprar droga. Imagina você carregar dois metros de areia na lata para pegar tudo e usar três pinos de pó? Hoje eu trabalho e não é pouco. Trabalho com alegria, hoje o que me chamar pra fazer eu faço, desde que não seja para usar droga. O resto eu faço tudo.

Você ainda tem sonhos?
– Eu quero voltar a jogar, nem que seja a A3, a A2, eu quero jogar ainda um ano, dois anos, só para mim... Deus fez uma promessa na minha vida e eu quero que ela se cumpra. Eu falei que só ia parar quando Ele falasse: "Não, você não vai jogar mais". Como Deus tem falado comigo que dá para jogar mais dois anos, um ano que seja, seja a A2, A3, eu ainda quero jogar. Depois não sei o que vou fazer.

Qual o seu maior arrependimento?
– Ter experimentado a cocaína. Ela acabou comigo. Era para hoje eu estar bem demais. A gente fala assim: "Era para acontecer". Tá, aconteceu, mas esse arrependimento eu acho que vou levar para a vida inteira. A primeira vez que usei a cocaína, se eu pudesse voltar atrás eu não teria feito, porque ela trouxe consequências graves para a minha vida.

O que você falaria para jovens jogadores que se envolvem com a cocaína nos dias de hoje. No São Paulo teve o Régis, o último caso com Gonzalo Carneiro...
– Possibilidade todo mundo tem, mas cuidado com as amizades. Cuidado com quem você anda. A amizade diz quem você é, o caráter que a gente tem. Tem muitos amigos que se aproveitam. No meu caso eu só andava com pessoas que faziam o uso da cocaína, e isso foi mais fácil para mim. Eu tinha muitos amigos que queriam me levar para a igreja, para comer um lanche e para sair com minha esposa em casal, e tinham os amigos que me levavam para a gandaia, para a noite, para beber...

– Eu levava os amigos para ir buscar droga, amigos que não tinham usado. Mas a partir do momento que o "amigo", fez uma carreira de cocaína e eu perguntei o que era, e ele falou que era cocaína e me deixou experimentar.... Se fosse amigo mesmo ia falar que eu não poderia usar. Se fosse amigo mesmo nem tinha feito uma carreira de cocaína perto de mim. Você tem que se policiar, se vigiar e saber com quem você anda, saber o que você faz.

O São Paulo procurou você alguma vez?
– Não. O São Paulo nunca. Eles devem saber de tudo, mas nunca me procuraram. Mas um dia eu ainda vou lá dar uma palestra no São Paulo. Tenho fé. Vou na base, chegar na "caruda": “Vim falar da minha vida (risos)”. Quero falar da minha vida e história para poder ajudar. As pessoas acham que a gente só quer dinheiro, que você vai por dinheiro. Não. Quero ir para falar da minha vida, ajudar as pessoas de alguma forma.

A droga deixou sequelas?
– Nenhuma, nenhuma. Meu porte físico é estranho. Eu fiquei na clínica treinando em um campinho que não tinha nem dez metros e consegui emagrecer quase 18 quilos. E eu engordo fácil, mas para queimar eu emagreço rápido também. Minha genética é inexplicável. Não tenho sequelas e nenhum problema de memória. Acho que não tenho (risos).

Você é feliz hoje?
– Completamente feliz. Hoje eu deito na cama, durmo bem, como bem, namoro bem. Não é, amor? (risos). Hoje o pai está voando. Quero poder voltar a jogar, mas de resto estou completamente feliz. Minha mulher disse que estou com tudo em cima (risos).

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SÃO PAULO
 

 





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