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Assessoria
PUBLICADO EM: 20/08/2026 05h43


A reforma tributária muda o jogo e MS prepara nova estratégia para atrair investimentos

Plano de Eduardo Riedel aposta em infraestrutura, produtividade, segurança jurídica, digitalização e novos instrumentos de competitividade para substituir gradualmente a vantagem dos incentivos fiscais



Com a redução dos incentivos fiscais prevista a partir de 2029, o plano de Eduardo Riedel propõe preparar Mato Grosso do Sul para competir com infraestrutura, produtividade, segurança jurídica, simplificação e serviços digitais. O Estado atribui à estratégia atual parte dos mais de R$ 81 bilhões em investimentos atraídos desde 2023. A próxima etapa prevê adaptar programas de incentivo, fortalecer empresas locais e criar novos instrumentos compatíveis com a reforma tributária.
 
 
 
Para quem abre uma empresa, procura trabalho ou depende da chegada de novos investimentos à sua cidade, a reforma tributária parece, à primeira vista, uma discussão distante, feita de alíquotas, regras e transições. Mas o efeito concreto pode aparecer na decisão de uma indústria sobre onde instalar uma fábrica, na expansão de um pequeno negócio, na abertura de uma vaga de emprego ou no custo de produzir em Mato Grosso do Sul.
 
É nesse ponto que o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, situa um dos principais desafios econômicos do próximo mandato. O Plano de Governo 2027–2030 parte de uma mudança estrutural: a vantagem construída durante anos com incentivos fiscais começará a perder força a partir de 2029, quando esses mecanismos deverão ser reduzidos progressivamente até a extinção prevista para 2032.
 
A pergunta que atravessa essa transição é simples, embora a resposta seja complexa: quando os incentivos deixarem de funcionar como hoje, o que fará uma empresa escolher Mato Grosso do Sul?
 
O modelo que ajudou a atrair investimentos
Parte da transformação econômica recente do Estado está associada à política de incentivos, à desburocratização e à simplificação tributária. Desde 2023 Mato Grosso do Sul atraiu mais de R$ 81 bilhões em investimentos privados, impulsionados por setores como celulose, bioetanol, proteína animal e logística. O Estado lidera o crescimento da indústria de transformação e milhares de empregos foram gerados.
 
A política tributária aparece como uma das peças desse ambiente competitivo. O Estado mantém alíquota modal de ICMS de 17%, enquanto setores e produtos específicos recebem tratamento reduzido. A carne bovina é citada com carga de 4%, e itens da cesta básica, com 7%. No entanto, menos imposto não produz automaticamente menor preço ao consumidor: concorrência, safra, frete, câmbio, energia, estoque, margem do varejo e custos de reposição também participam da formação do valor final.
 
Para a estratégia de desenvolvimento, a importância dos incentivos vai além do preço de produtos. Eles funcionaram como instrumento para reduzir custos e ampliar a atratividade do Estado diante de novos investimentos. Ao lado deles, o governo atribui peso à infraestrutura, à logística e à qualificação profissional. Em três anos, mais de 500 mil qualificações alinhadas às cadeias produtivas estratégicas.
 
Esse arranjo, no entanto, tem prazo para mudar. Os anos anteriores a 2029 formam a última janela de utilização dos incentivos como instrumento de atração de investimentos e industrialização. “A partir daí, a disputa econômica terá de se apoiar cada vez menos nessa vantagem isolada e mais na capacidade de oferecer produtividade, previsibilidade, serviços eficientes e condições concretas para produzir”, explica o governador.
 
Competir sem depender apenas do imposto
A proposta de Riedel é transformar essa transição em uma mudança no próprio conceito de competitividade. Para o próximo mandato, o plano prevê uma estratégia estadual de adaptação à reforma tributária e a reestruturação de todos os programas de incentivo das cadeias agropecuárias, convertendo o modelo atual em instrumentos possíveis dentro do novo sistema nacional.
 
A estratégia organiza um conjunto de frentes que deverão sustentar a atratividade econômica: novos instrumentos de competitividade, ampliação do Programa de Parcerias do Estado, simplificação regulatória, digitalização dos serviços destinados às empresas, redução do tempo de abertura, licenciamento e regularização e maior segurança jurídica para quem investe.
 
A mudança desloca parte da competição para fatores que pesam diretamente na rotina empresarial. Para um pequeno empreendedor, menos tempo consumido por processos pode significar começar a operar mais cedo. Para uma indústria, logística, disponibilidade de trabalhadores qualificados, previsibilidade das regras e agilidade administrativa entram na decisão de investir junto com os tributos. Para quem procura emprego, o resultado pretendido dessa engrenagem é que o Estado continue capaz de receber novos negócios mesmo quando o diferencial fiscal encolher.
 
O Plano de Governo também prevê fortalecer micro, pequenas e médias empresas, estimular a transformação digital e elevar a produtividade das empresas sul-mato-grossenses. A intenção é evitar que competitividade seja entendida apenas como capacidade de trazer grandes empreendimentos de fora. “Vamos acompanhar os impactos econômicos, sociais e territoriais dos investimentos e ampliar a inteligência de mercado para prospectar novos projetos, exportações e mercados.”, avisa Riedel.
 
Produtividade vira vantagem
Nesse novo desenho, conhecimento, tecnologia e inovação ganham papel mais central. O plano sustenta que o desenvolvimento dependerá cada vez menos da disponibilidade isolada de recursos naturais e cada vez mais da capacidade de transformar conhecimento, tecnologia e inovação em ganhos de produtividade e competitividade.
 
A diretriz conecta agropecuária, agroindústria, indústria, comércio, serviços, turismo, bioeconomia e transformação digital. A lógica proposta é fazer com que o crescimento amplie oportunidades, articulando a agenda econômica às políticas de educação, qualificação profissional e inclusão produtiva. Emprego, aumento da renda e qualidade de vida aparecem, assim, como a dimensão social pretendida para essa nova etapa da competitividade.
 
A sustentabilidade também surge como possível diferencial. O plano pretende ampliar cadeias ligadas à bioeconomia, à economia circular, às tecnologias de baixo carbono e aos serviços ambientais, buscando transformar biodiversidade, serviços ecossistêmicos e inovação verde em oportunidades de investimento, geração de renda e inserção em mercados nacionais e internacionais.
 
Nesse sentido, a resposta à reforma tributária não está em encontrar apenas um substituto para o incentivo fiscal. O desenho apresentado distribui a competitividade entre diferentes vantagens: infraestrutura, conhecimento, produtividade, ambiente regulatório, capacidade de inovação, logística, qualificação e segurança para investir.
 
A transição exigirá também atenção às contas públicas. O governo propõe monitorar continuamente os impactos econômicos e fiscais da mudança tributária sobre os setores produtivos. Na gestão do Estado, o caminho é aprimorar previsão orçamentária, controle de custos, avaliação do gasto e decisões de investimento com foco em eficiência e sustentabilidade financeira.
 
Uma corrida que começa antes de 2029
O calendário dá ao próximo mandato um caráter de preparação. Entre 2027 e 2030, Mato Grosso do Sul deverá atravessar justamente o início da redução dos incentivos. Isso significa que parte das decisões tomadas nesse período terá efeito sobre a capacidade do Estado de competir quando a ferramenta tributária utilizada hoje começar a perder espaço.
 
Riedel propõe usar esse intervalo para construir uma transição planejada: adaptar programas, simplificar processos, integrar serviços digitais, melhorar o ambiente regulatório, elevar a produtividade e desenvolver instrumentos compatíveis com o novo sistema. “Não há uma fórmula única. Há, em vez disso, uma estratégia para distribuir a competitividade entre vários fatores”, pontua.
 
Para trabalhadores, empreendedores e famílias, essa disputa econômica ganha sentido quando deixa de ser uma abstração tributária. A chegada de investimentos pode representar novas vagas; uma empresa local mais produtiva pode ampliar sua atividade; processos mais simples podem consumir menos tempo; infraestrutura e qualificação podem melhorar as condições de uma região para receber novos projetos.
 
A reforma tributária, portanto, coloca Mato Grosso do Sul diante de uma mudança de método. O modelo apoiado também em incentivos fiscais ajudou a sustentar uma fase de atração de investimentos. A próxima etapa pretende demonstrar que o Estado pode continuar competitivo quando essa vantagem começar a desaparecer. É nessa passagem, entre o benefício tributário que perde espaço e a construção de novas razões para investir, produzir e trabalhar em Mato Grosso do Sul, que parte do futuro econômico do Estado será decidida.
 
#Foto: Saul Schramm
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