kASSI BONISSONI
PUBLICADO EM:
20/08/2026 07h21
Startup criada em Mato Grosso acelera o melhoramento genético da soja
Foto: assessoria
Pressão de nematoides, escassez ou excesso hídrico reforçam a importância de variedades capazes de preservar o potencial produtivo em condições adversas
A busca por produtividade na soja começa a incorporar um novo componente: a capacidade de uma variedade de manter o desempenho quando a lavoura enfrenta seca, excesso de água e pressão de nematoides. Em Mato Grosso, por exemplo, maior produtor nacional, que registrou uma colheita recorde de 51,6 milhões de toneladas na safra 2025/26, essa combinação de fatores pode provocar perdas expressivas. Nesse cenário, o melhoramento genético ganha espaço não apenas para elevar o teto produtivo, mas também para conferir maior estabilidade à cultura.
Foi exatamente com esse foco, que Antonio Ayrton Morceli Junior, engenheiro agrônomo pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mestre e doutor em Melhoramento Genético de Plantas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal, fundou em 2021 a startup BRG Brasil Genética. Pois, segundo ele, o melhoramento genético pode contribuir para preservar o potencial produtivo das variedades tanto em anos favoráveis quanto em condições adversas, dependendo das características selecionadas. “Em ano de estresse de hídrico como em anos influenciados pelo “El niño” variedades resistentes a nematoides tendem a manter seu potencial produtivo e maior estabilidade”, explica.
Com experiência concentrada em soja e nas condições do Cerrado, especialmente em Mato Grosso, Morceli passou por empresas como Syngenta, Monsanto e Bayer, além de ter atuado em projetos de pesquisa e melhoramento genético. Segundo ele, a relação entre nematoides e estresse hídrico ajuda a dimensionar a importância da estabilidade genética.
Os nematoides comprometem o sistema radicular das plantas e, quando a cultura enfrenta também uma condição de seca, os efeitos podem se somar e ampliar as perdas de produtividade. “Variedades com resistência ou tolerância ao problema podem apresentar maior capacidade de manutenção do desempenho em condições adversas”, destaca.
Ainda segundo o especialista, uma planta com sistema radicular mais protegido contra o ataque de nematoides pode apresentar melhores condições para enfrentar períodos de déficit hídrico. “Se você tem o nematoide, que ataca a raiz, e esta consegue se desenvolver melhor em uma planta resistente, quando tem a seca, ela vai potencializar ou pelo menos manter o potencial produtivo dela. Se você não tem essa característica, ela, além de perder para o nematoide, perde para a seca”, afirma Morceli.
A diferença pode ser significativa em um ano de adversidade. Uma cultivar suscetível, por exemplo, poderia sair de um potencial de 80 sacas por hectare para 30 sc em uma situação severa, enquanto uma variedade com resistência a nematoides poderia passar de 80 para 60 sc/ha. “Em ano ruim, ele consegue se sobressair com materiais desse potencial. O produtor não vai quebrar, ele vai se manter”, reforça o engenheiro agrônomo.
Para o melhorista genético, essa característica de estabilidade tende a ganhar espaço nas decisões do agricultor, especialmente em momentos de pressão sobre as margens. “Nisso, o produtor vai ganhar aí 10 a 15 sc de diferença, que vai ser a diferença dele de ter lucro ou não”, destaca.
Nematoides desafiam estabilidade da oleaginosa
Em MT, os nematoides permanecem entre os principais desafios fitossanitários da soja. Morceli aponta o nematoide de cisto como um dos mais disseminados e chama atenção também para Meloidogyne incognita, associado principalmente a áreas que também cultivam algodão.
O especialista destaca ainda o nematoide-das-galhas como um problema que pode passar despercebido visualmente, mas que provoca perdas importantes. Segundo ele, em condições de estresse, a diferença de desempenho entre os materiais pode ficar ainda mais evidente. “Acabamos não vendo o sintoma dela no campo, não sabemos o quanto essa espécie está nos tirando, mas está impactando”, afirma, ao se referir à presença do nematoide-das-galhas.
Nesse contexto, o melhoramento genético passa a buscar além do maior teto produtivo, um conjunto de características que permita à planta responder melhor às diferentes condições encontradas no campo.
Startup acelerando a tecnologia
A trajetória de Morceli na área começou ainda na formação acadêmica e foi direcionada para o melhoramento genético de soja e as condições do Cerrado mato-grossense. Esse percurso contribuiu para uma visão de que o desenvolvimento de novas variedades precisa estar conectado às necessidades concretas do produtor.
Foi a partir dessa perspectiva que surgiu a startup, especialmente voltada ao desenvolvimento de variedades de soja. “O conceito da empresa era criar uma startup brasileira, com profissionais de MT, para fazer pesquisa para o Estado”, resume. Por meio de financiamento de uma associação e com a estrutura e modelo de negócio desenvolvido pela startup, que permite reduzir custos e tornar o processo de pesquisa mais ágil, sem necessariamente reproduzir a estrutura de grandes multinacionais, diz o melhorista.
A proposta também busca encurtar o tempo necessário para o desenvolvimento de novas variedades. Segundo o melhorista, o processo convencional pode levar aproximadamente dez anos, enquanto o projeto da BRG trabalha com uma meta de sete anos.
Após quatro anos e meio de desenvolvimento, a empresa já conta com variedades aptas a avançar para o processo de registro, reunindo características de interesse do produtor rural. As cultivares desenvolvidas pertencerão aos próprios produtores associados, por meio da associação, que deterá a titularidade dos materiais gerados pelo programa. “Eu tenho certeza de que a gente vai ter potencial para brigar com grandes empresas que têm uma estrutura muito maior. A vantagem é que você consegue focar, com menos pessoas, e tira um pouco da burocracia de grandes empresas para conseguir fazer melhoramento”, afirma.
Entre as características trabalhadas pela startup estão a resistência a nematoides, incluindo cisto e galha, além do potencial produtivo. A estratégia é concentrar os recursos disponíveis em problemas considerados prioritários para a realidade regional.
O projeto também utiliza ferramentas de biologia molecular e outras tecnologias para acelerar as etapas do melhoramento. Para o profissional, porém, a tecnologia precisa estar associada à aplicação prática e à capacidade técnica das equipes.
Hoje se fala muito em edição genética e em GWS (Seleção Genômica Ampla, do inglês Genome-Wide Selection), tecnologias que apresentam grande potencial para o melhoramento de plantas, mas cuja aplicação no desenvolvimento de cultivares de soja ainda está em processo de consolidação e geração de resultados em escala comercial. Por isso, a empresa prioriza, neste momento, métodos tradicionais de melhoramento genético, amplamente validados e com resultados comprovados, sem deixar de acompanhar e avaliar a incorporação de novas tecnologias à medida que elas demonstrem ganhos consistentes para o programa”, afirma Morceli.
O modelo de negócio desenvolvido foi validado e pode ser escalável, com a ampliação das operações para novas regiões e potencial de replicação em diferentes mercados no Brasil e no exterior”, afirma Morceli.
Quantidade não é qualidade
O mercado de sementes também vive um momento de aumento no número de variedades registradas. O especialista pondera, no entanto, que o crescimento dos registros não significa necessariamente que todos os materiais apresentem diferenças expressivas de desempenho. Parte deles pode ter características semelhantes e ser direcionada a diferentes marcas ou estratégias comerciais.
Para ele, o desafio do melhoramento continua sendo encontrar o equilíbrio entre produtividade, adaptação e resistência. Em um cenário de maior variabilidade climática e pressão sobre os custos, esse equilíbrio pode ganhar ainda mais relevância. “A tendência é que o produtor passe a olhar não apenas para quanto uma variedade produz em condições ideais, mas também para quanto ela consegue preservar quando as condições deixam de ser favoráveis”, finaliza o engenheiro agrônomo.
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