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Mariana Seman
PUBLICADO EM: 20/08/2026 13h27


DNA não é sinônimo de culpa: por que encontrar material genético na cena do crime não encerra uma investigação?





Avanços tornam análises forenses cada vez mais sensíveis, mas especialista explica por que identificar um perfil genético é apenas uma parte da reconstrução de um crime


Encontrar o DNA de uma pessoa em uma cena de crime parece, à primeira vista, uma evidência definitiva, um caso já solucionado. A realidade da ciência forense, porém, é mais complexa. À medida que as técnicas laboratoriais se tornam capazes de detectar quantidades cada vez menores de material genético, cresce também a importância de compreender como, quando e em quais circunstâncias aquele DNA pode ter chegado ao local.

A discussão ganhou novo impulso com pesquisas recentes nos Estados Unidos sobre transferência e persistência de material biológico. Estudos divulgados pelo National Institute of Justice (NIJ) em 2025 investigaram justamente por quanto tempo determinados vestígios podem permanecer detectáveis e como informações adicionais podem ajudar a estabelecer o contexto em que houve a deposição do material.

Para Karine Vieira de Castro Quadros, especialista em Ciências Forenses com concentração em Biologia Molecular Forense e atuação como Perita Criminal nos EUA, a identificação de um perfil genético responde a uma pergunta extremamente importante para uma investigação, mas não necessariamente a todas as outras. Ou seja, o DNA encontrado em determinado objeto ou superfície pode estabelecer uma associação entre aquele material e uma pessoa, mas a interpretação do que essa associação representa para o caso, entretanto, depende do contexto e das demais evidências.

O DNA diz quem esteve ali?

Nem sempre. Um dos pontos que tornam a interpretação forense mais complexa é a chamada transferência de DNA. Células e material biológico podem ser depositados em objetos e superfícies por diferentes formas de contato. Além da transferência direta, existe a possibilidade de transferência secundária, ou seja, uma pessoa pode, por exemplo, deixar material genético em outra pessoa ou objeto que posteriormente entra em contato com uma terceira superfície. Isso significa que encontrar determinado DNA não permite concluir automaticamente que aquela pessoa esteve naquele local no momento de um crime ou que realizou determinada ação.

Quanto menos DNA, maior a necessidade de contexto

A evolução das técnicas de análise permitiu que laboratórios trabalhassem com quantidades muito pequenas de material genético. Essa sensibilidade representa um avanço importante para a investigação criminal, mas também aumenta a necessidade de interpretar cuidadosamente os resultados. Vestígios encontrados em maçanetas, roupas, objetos compartilhados, superfícies e outros locais de contato podem ter diferentes explicações para sua presença. Por isso, uma das questões relevantes passa a ser não apenas “de quem é este DNA?”, mas também “como esse material pode ter chegado até aqui?”.

Misturas tornam a análise ainda mais complexa

Outra situação frequente é a presença de material genético de mais de uma pessoa em uma mesma amostra. Nesses casos, o trabalho laboratorial envolve interpretar uma mistura de perfis genéticos e avaliar os possíveis contribuidores. Ferramentas estatísticas e softwares especializados podem auxiliar nessa interpretação, mas o resultado continua precisando ser analisado dentro das circunstâncias do caso. A própria formação técnica de Karine inclui o uso do STRmix, ferramenta utilizada na interpretação de perfis genéticos complexos, além de técnicas de extração, quantificação, amplificação e eletroforese capilar.

Coleta e cadeia de custódia também importam

“Antes de chegar ao laboratório, uma evidência percorre uma série de etapas. Documentar a cena, escolher adequadamente os itens que serão coletados, utilizar procedimentos capazes de minimizar contaminações, acondicionar o material e manter sua cadeia de custódia são partes fundamentais do processo”, explica Quadros. Afinal, a análise genética não começa apenas quando uma amostra entra em um equipamento. A confiabilidade do resultado também depende de como aquela evidência foi identificada, coletada, armazenada e processada.

DNA é evidência, não narrativa completa

A genética forense pode produzir evidências extremamente relevantes e, em determinadas circunstâncias, estabelecer associações muito fortes entre uma pessoa e determinado vestígio. Mas o resultado laboratorial não deve ser transformado automaticamente em uma reconstrução completa dos acontecimentos. Tempo, local onde a amostra foi encontrada, tipo de superfície, possibilidade de contatos anteriores, transferência direta ou indireta, presença de misturas e demais elementos da investigação ajudam a estabelecer o significado daquele resultado. É justamente por isso que uma investigação não termina quando aparece uma correspondência genética. A ciência pode estabelecer associações poderosas, mas determinar o que elas significam exige contexto.

 


 
 






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