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Apaixonada por Libras, missa sem Adriana nunca mais será a mesma para surdos


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15/04/2021 09h17

Apaixonada por Libras, missa sem Adriana nunca mais será a mesma para surdos

Aos 46 anos, Adriana morreu de covid-19, 2h depois de rezar com a irmã por vídeo antes de ser intubada

Por Paula Maciulevicius Brasil


 Adriana Aparecida Neren falava com as mãos, ouvia pelos olhos e era apaixonada por bebês. Nascida em Ribas do Rio Pardo, caçula das mulheres, escolheu aprender e se aperfeiçoar na Libras (Língua Brasileira de Sinais) depois que o irmão, quatro anos mais novo, foi diagnosticado surdo.

Solange, irmã dois anos mais velha e com quem Adriana rezou pela última vez em uma vídeo-chamada antes de ser intubada. (Foto: Arquivo Pessoal)
 
Traduzir na língua de sinais nunca foi para Adriana um trabalho remunerado, babá profissional, ela fazia questão de sinalizar para a comunidade surda como ação voluntária, empenhada com muito amor.
 
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Levada pela covid, no último dia 6 de abril, aos 46 anos, a intérprete teve homenagens à altura na missa de sétimo dia realizada ontem na Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, onde dedicou tempo em traduzir missas e catequeses.
 
 
Muito além do apoio, Adriana evangelizava, e era ativa na pastoral do surdo da Igreja Católica. (Foto: Arquivo Pessoal)
Campista, não tinha quem não gostasse de Adriana e também quem, dentro da comunidade católica surda, não a conhecesse. Quem conta uma parte de sua história é a irmã Solange Aparecida Neren, de 48 anos, que dividiu a vida e também a casa com Adriana.
 
"Desde muito novinha ela se interessou, a gente morava no interior, e quando viemos para Campo Grande, ela quis aprender para conversar com o meu irmão", recorda a assistente social.
 
A mudança da família para a Capital aconteceu 34 anos atrás. No total, eles eram em oito filhos, dos quais quatro hoje estão vivos. "Com 18 anos ela já sabia, mas nunca quis ser profissional remunerada, ela dizia que não queria mexer com Libras financeiramente e sim voluntariamente, que ela tinha escolhido ser voluntária dos surdos", conta a irmã.
 
 
Pertencente à pastoral do surdo de Campo Grande, Adriana atuava como intérprete na Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora e estava à frente no grupo de apoio ao surdo da igreja. A paixão pela Língua Brasileira de Sinais era dividida com os bebês. Adriana amava e desde os 16 anos era babá. Colecionando ao longo de três décadas de trabalho, muitas crianças cuidadas.
 
E foi no trabalho que a babá sentiu os primeiros sintomas, como tosse. Diabética e hipertensa, Adriana soube num sábado de folga que o bebezinho que ela cuidava testou positivo, ele havia sido levado ao médico devido a uma infecção de garganta.
 
"Quando ela ficou sabendo que o bebê estava positivo, no dia 20 de março, ela automaticamente também estava, tinha passado a semana toda com ele e estava com tosse. Ela ficou apavorada, tinha muito medo", recorda Solange.
 
A família para quem Adriana trabalhava prestou toda assistência médica. Por volta do 12º dia de sintoma, a intérprete ficou pior, teve tontura, fraqueza e vista embaçada. "Ela pediu para ir ao médico, porque não estava passando bem e de lá foi para o Hospital Regional, de onde não saiu mais, quer dizer, saiu para o cemitério", desabafa a irmã.
 
 
Solange, irmã dois anos mais velha e com quem Adriana rezou pela última vez em uma vídeo-chamada antes de ser intubada. (Foto: Arquivo Pessoal)
Também contaminada, a assistente social não precisou de hospital, porque teve os sintomas mais leves. A covid-19 também atingiu o filho de Solange, a outra irmã das meninas e um sobrinho.
 
 
Ler o boletim médico da irmã era tão sufocante quando a covid. "Cada vez que a gente lia paciente grave, saturação e oxigênio muito baixo, era sufocante, sufocante", descreve.
 
A última conversa de Adriana com Solange foi no dia da morte. Antes de ser intubada, a babá fez uma chamada de vídeo para a irmã. "Ela estava muito ofegante e nervosa. Dizia que estava com muito medo, chorava muito no vídeo. E tossia, conforme ela falava comigo, tossia, chorava e a voz ficava mais ofegante", narra.
 
Na tentativa de acalmar a irmã e a si mesma, Solange dizia que tudo ia dar certo e que ela logo logo sairia dali. "Eu prometo que você vai sair daí, e quando sair, a gente vai agradecer a Deus. A gente já está agradecendo, porque Deus já está agindo em você. Eu disse isso e rezamos juntas", lembra.
 
A conversa durou cerca de 20 minutos e 1h30 depois, os médicos ligaram para a irmã com a notícia. "Ela tinha intubado, tinha dado certo, mas depois teve quatro paradas cardíacas. Eles tentaram reanimá-la, fizeram de tudo, mas infelizmente não tinha tido jeito".
 
Adriana à esquerda, interpretando a encenação da Via Sacra em 2019. (Foto: Cris Stoppa)
Adriana à esquerda, interpretando a encenação da Via Sacra em 2019. (Foto: Cris Stoppa)
Homenagens - No velório, restrito a 2h, mas permitido porque Adriana morreu por complicações da covid, mas não estava mais na fase contagiosa da doença, o que não faltou foi homenagem.
 
"O padre foi, o pessoal fez música, cantaram para ela, teve Libras e a missa de sétimo dia foi encantadora, maravilhosa, à altura dela", diz a irmã. Com muitos surdos presentes, Solange conta ter se emocionado muito, em especial com o carinho da pastoral do surdo. "Todos os intérpretes passaram por ela na igreja, Adriana deu muitas oportunidades para quem estava começando e ficava nervosa, achando que não ia conseguir", enfatiza a irmã.
 
 
Libras para Adriana era tudo, mais do que falar, os sinais serviam para levar o evangelho.
 
"Para ela era uma coisa inexplicável que só ela para falar, se estivesse aqui. Ela era apaixonada pelos surdos, vivia para isso, para interpretar missas, catequeses, era o amor dela. Assim que sintetizo a Língua Brasileira de Sinais para ela era amor".
 
Myriam e Adriana no Natal de 2020, amigas que a Libras aproximou. (Foto: Arquivo Pessoal)
Myriam e Adriana no Natal de 2020, amigas que a Libras aproximou. (Foto: Arquivo Pessoal)
Terapeuta sistêmica, Myriam Adriana Padoa Sakaguti, de 43 anos, conheceu a Adriana em 2008, quando iniciou como intérprete de Libras. Foi a amiga que a encorajou e a incentivou a seguir sinalizando em cada missa. "Para mim, a falta da Adriana é física, é o som da sua voz e sorriso marcante. De maneira simples e discreta ela marcou profundamente quem conviveu com ela", descreve.
 
Na missa de sétimo dia, Myriam diz ter se encantado com tantos testemunhos que mostravam o quanto a babá era querida por todos. "Houve uma amiga que falou dela no final e disse o que era Libras para Adriana, falando que diante da realidade do irmão surdo, ela ainda jovem foi atrás para aprender a língua. Como se esse ato de amor para incluir o irmão não bastasse, ela ainda foi além, se empenhou em aprender as coisas da igreja, e se engajou na catequese, acampamentos e tudo o que foi possível para fazer chegar a palavra de Deus a eles", reproduz a terapeuta.
 
 
A amiga surda Isabel, Adriana e o esposo de Isabel, Marcos. (Foto: Arquivo Pessoal)
A amiga surda Isabel, Adriana e o esposo de Isabel, Marcos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Surda, o relato de Isabel Cristina Rodrigues Santareno, de 44 anos, que trabalha como assistente de Educação Infantil é ainda mais emocionante. As duas se conheceram pelo irmão de Adriana, Renato, à época em que estudavam na escola especial do Ceada. Depois, os caminhos das duas seguiram entrelaçados quando Isabel participava da missa ainda no Dom Bosco, onde Adriana começou como intérprete, 26 anos atrás.
 
Com o passar do tempo, as duas montaram um grupo na Nossa Senhora Auxiliadora, onde Adriana seguiu como intérprete de catequistas e também campistas, além de organizarem juntas vários retiros com missas eram celebradas por um padre surdo.
 
"Algo que sempre encantava a comunidade foi que a sua vida foi dedicada aos surdos, o que era a sua grande paixão. Sua missão não se restringia somente a Campo Grande,  viajava sempre que necessário pra ajudar na evangelização dos surdos de outras cidades", se orgulha Isabel.
 
Os planos de levar o grupo de surdos para um acampamento foi adiado, ainda em 2020, quando chegou a pandemia, até que tudo "voltasse ao normal". Adriana foi levada pela covid e o sonho ficou nas lembranças de quem conviveu com seu sorriso em sinalizar.
 
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