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Ano eleitoral exige cautela no M&A, não retração


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05/01/2026 09h52

Ano eleitoral exige cautela no M&A, não retração

Roberto Magalhães


Por David Denton, especialista em M&A e sócio da OKTO FINANCE*

À medida que o Brasil se aproxima de mais um ciclo presidencial, em 2026, o mercado de fusões e aquisições (M&A) tende a agir com cautela. Em anos eleitorais, os negócios não param por falta de liquidez ou oportunidades, mas por necessidade de recalibrar risco e retorno. A incerteza política reduz a previsibilidade, fazendo com que investidores adiem decisões até que o cenário econômico e regulatório fique mais claro. Essa prudência, porém, não significa retração. Ao contrário, períodos eleitorais podem abrir oportunidades de consolidação e entrada em ativos com preços mais atraentes.

Historicamente, o segundo semestre de anos de eleição é o mais sensível. A disputa política intensifica a volatilidade dos mercados e concentra a atenção dos investidores nas propostas econômicas dos principais candidatos. Política fiscal, sustentabilidade da dívida, ambiente regulatório e compromisso com reformas estruturais passam a guiar decisões estratégicas. Investidores estrangeiros, em especial, aguardam clareza sobre as regras do jogo antes de comprometer capital de longo prazo. Ainda assim, o capital não abandona o país; apenas ajusta ritmo, prazos, prêmios de risco e critérios de valuation.

A análise dos últimos ciclos eleitorais confirma essa dinâmica, segundo levantamento da KPMG sobre fusões e aquisições no Brasil. Em 2010, o país registrou 707 operações, um crescimento de 56% sobre 2009, impulsionado pela retomada global após a crise de 2008. Já em 2014, a combinação de desaceleração econômica, inflação alta e desconfiança sobre política fiscal reduziu o volume de transações para 658, frente a 912 no ano anterior. Em 2018, o mercado atingiu novo patamar histórico, com 967 operações, beneficiado por juros em queda e expectativa de reformas. Em 2022, o padrão de cautela voltou, com 685 transações, refletindo incerteza política e aumento de juros, mas ainda acima dos níveis pré-pandemia, mostrando resiliência.

Esses movimentos mostram que eleições impactam mais a precificação do que a atividade em si. Investidores ajustam sua régua de risco, buscando maior margem de segurança. Ativos de qualidade podem ficar temporariamente descontados, gerando oportunidades para fundos de private equity, empresas consolidadoras e investidores estratégicos de longo prazo. O ponto central não é se as eleições afetam o M&A, mas como o mercado interpreta sinais de política econômica pós-eleitoral. Governos que transmitem estabilidade macroeconômica, responsabilidade fiscal e ambiente regulatório previsível aceleram a retomada, como em 2010 e 2018, enquanto cenários de incerteza institucional atrasam a recuperação, como em 2014.

O ciclo de 2026 traz um componente adicional: o mercado global passa por reprecificação estrutural de ativos, com juros mais altos e exigência de retornos maiores, reduzindo espaço para operações especulativas e valorizando negócios com fundamentos sólidos. O Brasil segue atraente para capital internacional, especialmente em energia, infraestrutura, tecnologia e agronegócio, setores que combinam escala, previsibilidade e potencial de inovação. Ao mesmo tempo, o cenário reforça a importância de governança robusta, avaliação de riscos e execução bem planejada para se destacar nesse período de maior seletividade.

Portanto, o comportamento do mercado de M&A dependerá menos do resultado eleitoral e mais da continuidade da agenda econômica. O capital não teme eleições; teme descontinuidade nas políticas e no ambiente regulatório. Quando há previsibilidade e coerência, o apetite por investimentos retorna rapidamente, estimulando negociações e estratégias de crescimento. Para quem compreende essa dinâmica, períodos eleitorais não representam retração, mas momentos estratégicos de preparação e posicionamento. A incerteza, longe de ser um obstáculo, pode se transformar no terreno mais fértil para identificar oportunidades de longo prazo e capturar valor em ativos de qualidade.

*David Denton é formado em Administração de Empresas e possui MBA pela Universidade de Bath. Com mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro, já atuou em empresas como Banco Real de Investimento, Grupo Habitasul, Deloitte & Touche e Royal Bank of Scotland, estas tanto no Brasil quanto no exterior. Também foi Membro Executivo do Comitê Internacional da Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil e membro do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Relações (IBREI) e do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). É autor do livro "Navigating Cross-Border Mergers and Acquisitions: a Global Perspective" e sócio da boutique de M&A OKTO FINANCE.

 






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