06/01/2026 10h35
Em 48 anos de estrada, grupo já viu até gente voltar a andar em "folia"
Companhia 3 estrelas de Santo Reis, de Cassilândia, resiste e se nega a deixar tradição morrer
Por Natália Olliver
Quem vê o grupo de amigos festejando a Folia de Santo Reis não imagina o que eles já viram na vida. Há 48 anos de estrada, milagres não faltaram e até pessoas voltando a andar depois de rezas eles já presenciaram. Juntos, todos dedicam quase 12 dias para não deixar a tradição morrer.
O mestre da Companhia 3 Estrelas de Santo Reis de Cassilândia, Jerônimo José de Paula, conta que tudo começou com uma promessa. A filha estava doente, com problemas na medula. Na época, ele disse que faria uma festa de Reis para que ela se recuperasse. O pedido foi atendido.
Mas a história com a festa de Santo Reis não começou aí. Desde os 12 anos, Jerônimo tocava em grupos e ia às casas levar alegria. Hoje, aos 74 anos, ele não perde a memória e relembra que já viu muitos milagres, mas que nem todo mundo está preparado para receber, porque não acredita o suficiente.

Há 48 anos os amigos fazem a folia de Santo Reis em Cassilândia e região (Foto: Arquivo pessoal)
“O milagre não é para todo mundo, é aquela pessoa que crê muito que vai receber. A folia, para nós, é uma coisa muito boa, porque a devoção, para quem crê, é um alívio. Temos muitos exemplos de milagres. Um ano chegamos em Alcinópolis, tinha uma menina doente. A mãe pediu para ir lá na casa dela cantar".
Ele lembra que a criança estava deitada porque não andava. O grupo chegou com a bandeira; começou a cantar e a menina pediu para sentá-la na cama. “Colocamos a bandeira no colo dela. Depois de três dias ela estava melhorando e começando a andar sozinha. A devoção era muita. Isso faz uns 13 anos.”
Ele liga para os amigos e eles saem em peregrinação.

Jerônimo começou a cantar nas folias desde os 12 anos, tocando pandero depois violão (Foto: Arquivo pessoal)
“Significa algo muito bom, porque se todo mundo pensasse igual a gente a nossa tradição não acabaria. Por isso montamos o grupo para manter a tradição e não deixar isso fracassar. Se sai uma pessoa, a gente coloca outra no lugar”.
Jerônimo explica que sempre se sentiu bem fazendo isso e que, tocando e cantando, às vezes chega a chorar. Na infância, ele tocava pandeiro, depois começou a tocar violão e cantar, e nunca mais parou. Ele conta que, para cantar, é preciso estar com a mente tranquila e que faz isso no improviso.
“Eu sou o mestre da companhia. A gente tem que ter a ideia muito limpa pra poder cantar e falar os versos que vêm na hora. A esmola de uma criança é uma coisa, a de um adulto é outra. A gente tem que ter a cabeça boa pra cantar no improviso. Eu canto e toco. Todos tocamos. Só quem não toca são os dois palhaços”.

Jerônimo e o amigo Elivom Santos se recusam a deixar tradição morrer (Foto: Arquivo pessoal)
A recepção das pessoas é uma alegria e a única recompensa do grupo. “Dá incentivo pra gente, que faz até chorar, essa é a verdade. Se chegar na casa de uma pessoa e ela der uma moeda de 10 centavos, a gente vai agradecer igual agradece R$ 50 ou R$ 10. Uma prenda que a gente ganha, uma poesia só, ela é agradecida igual. O dinheiro vai pra festa, ajudar os membros. Às vezes doamos para a igreja, doamos para a APAE”.
O grupo já foi contratado para fazer a festa em várias cidades do Estado e até fora dele. Entre os lugares estão São Paulo, Goiás e Mato Grosso.
O dom de ser palhaço
No meio dessa engrenagem de fé e música, surge a figura de Elivom Santos Tico. Há 40 anos, ele assume a função que muitos subestimam: a de palhaço da folia. Para ele, a máscara e as cores não são um disfarce, mas uma escolha divina. “Muitos falam que palhaço qualquer um faz, e não é verdade. Fomos escolhidos por Deus”.
Carpinteiro de profissão, Elivom também deixa o trabalho no sítio e paga um substituto para poder cumprir sua missão. Ele é a prova da renovação da companhia, que já viu membros morrerem e outros partirem.
“Meu sobrinho também era palhaço e morreu. Tô treinando o filho dele, de 15 anos. O que mantém a gente há tanto tempo é a fé, porque a gente faz isso por gostar. A gente passa fome, passa frio, passa da hora de comer. Moro no sítio perto de Cassilândia. Esse é um hobby nosso. A companhia só se encontra na época de festa”.
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