27/04/2026 10h22
Beleza sem espera? O que o "efeito Ozempic" revela sobre autoestima e ansiedade feminina
A busca por resultados rápidos está transformando não só o corpo — mas também a forma como as mulheres lidam com emoções, autoestima e autoconhecimento
SÃO PAULO – Em um mundo onde tudo acontece em segundos, esperar se tornou quase insuportável. Dietas longas, treinos consistentes, processos internos… tudo isso parece “lento demais” diante de soluções rápidas que prometem transformar o corpo em pouco tempo.
O crescimento do uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro reflete muito mais do que uma tendência estética. Para a psicóloga Juliana Coria, esse movimento escancara uma questão profunda: a dificuldade crescente de sustentar processos — inclusive emocionais.
“Hoje, não queremos só resultados. Queremos resultados imediatos. E isso diz muito sobre como estamos lidando com nossas inseguranças, frustrações e expectativas”, explica.
O novo padrão de beleza: rápido, eficiente — e silenciosamente emocional
Se antes a jornada da beleza envolvia tempo, descoberta e construção de autoestima, hoje ela vem sendo encurtada por soluções que prometem acelerar o processo.
Mas o que fica quando o corpo muda antes da mente acompanhar?
“Existe um risco de desconexão. A mulher alcança o resultado estético, mas emocionalmente ainda carrega as mesmas inseguranças. A transformação externa não substitui o processo interno”, afirma Juliana.
Ansiedade, comparação e a pressa para ‘se sentir suficiente’
Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que o Brasil está entre os países com maiores índices de ansiedade do mundo — um cenário que ajuda a explicar por que tantas mulheres buscam soluções rápidas.
Para reforçar , medicamentos baseados em GLP-1 registram aumento expressivo de demanda no Brasil, segundo dados de mercado da IQVIA.
Além disso, cresce a preferência por soluções imediatas em diversas áreas — da saúde à estética — refletindo uma menor tolerância ao desconforto.
A lógica é quase invisível, mas poderosa: mudar rápido = sentir-se melhor mais rápido
Só que nem sempre funciona assim.
“A pressa em mudar o corpo muitas vezes é uma tentativa de aliviar um desconforto emocional. Mas sem olhar para isso, o alívio pode ser temporário”, pontua a psicóloga.
Beleza também é processo
No universo da beleza, onde tendências surgem e desaparecem rapidamente, existe uma conversa que precisa ganhar mais espaço: a de que nem tudo pode ou deve ser acelerado.
Cuidar da pele, do corpo e da imagem também envolve tempo, consistência e, principalmente, autoconhecimento.
“A verdadeira autoestima não nasce de um resultado imediato. Ela é construída na forma como a mulher se relaciona consigo mesma ao longo do caminho”, diz Juliana.
Entre o espelho e a mente: um novo olhar sobre beleza
Talvez a pergunta mais importante não seja “como mudar mais rápido”, mas sim:
Por que estamos com tanta pressa?
Em uma era que valoriza a performance e a perfeição, desacelerar pode parecer um ato de resistência , mas também pode ser o caminho para uma beleza mais real, mais consciente e mais sustentável.
Sobre a especialista
Juliana Coria é psicóloga e estuda os impactos do comportamento contemporâneo na saúde emocional feminina, com foco em autoestima, ansiedade e padrões de beleza.



