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Morte de fisioterapeuta em Campo Grande: versão do suicídio, fraude processual e uma investigação em curso.


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24/05/2026 08h22

Morte de fisioterapeuta em Campo Grande: versão do suicídio, fraude processual e uma investigação em curso.

Fernanda Costa


Caso Fabíola Marcotti levanta questionamentos sobre investigação de possível feminicídio

 

 

 

Na manhã de 18 de maio, a fisioterapeuta Fabíola Marcotti, 51 anos, foi encontrada morta com um disparo na região da cabeça dentro do quarto do casal, na chácara onde vivia com o marido, na região da Chácara dos Poderes, em Campo Grande. Antes que a Polícia Militar chegasse ao local, o marido – o cardiologista e cirurgião vascular João Jazbik Neto, 78 anos – já havia acionado o Samu e comunicado aos primeiros socorristas que a esposa havia "tirado a própria vida". A versão do suicídio circulou por horas. Então a polícia entrou no quarto.

O que se seguiu ao trabalho pericial colocou em xeque a narrativa inicial com uma velocidade incomum. Ainda nas primeiras horas de investigação, o delegado Leandro Santiago, da 1ª DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), declarou publicamente que a hipótese de feminicídio não estava descartada e que as versões apresentadas pelo médico e por testemunhas eram conflitantes entre si. A Polícia Civil instaurou um inquérito específico para investigar a morte sob perspectiva de gênero.

O que precipitou a prisão em flagrante do médico, porém, foi descoberto durante as buscas: antes da chegada das autoridades, João Jazbik Neto teria chamado um ex-funcionário e o caseiro da propriedade e solicitado que ambos movimentassem um armário contendo diversas armas da casa principal para um barracão na chácara. Os três foram autuados por fraude processual. O médico foi ainda indiciado por posse irregular de armamentos de uso permitido e restrito (seis armas longas e munições foram apreendidas). Segundo a investigação, ele possui registro ativo como CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador).

Em audiência de custódia realizada em 20 de maio, o juiz converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva, declarando suspeitar de feminicídio. Na mesma semana, a defesa emitiu nota pública afirmando que "não foi feminicídio" e pedindo "benefício da dúvida" ao investigado. Na sexta-feira, 22 de maio, a Justiça concedeu liberdade provisória ao médico, substituindo a prisão por medidas cautelares, prisão domiciliar e uso de tornozeleira eletrônica. A soltura ocorreu após pedido de habeas corpus apresentado pela defesa. Em cinco dias, o investigado passou da prisão preventiva decretada por um juiz que declarou suspeita de feminicídio à liberdade domiciliar. As investigações seguem em curso.

O que a investigação ainda precisa responder

A perícia técnica segue em andamento, com laudos sob sigilo de justiça. Mas o conjunto de elementos já registrados pela Polícia Civil – as inconsistências no depoimento, a incompatibilidade entre o ferimento e o relato do investigado, e a tentativa de alteração da cena antes da chegada dos peritos – configurou, para os investigadores, indícios suficientes para manter o inquérito sob a perspectiva de violência de gênero.

A morte de Fabíola Marcotti acontece num contexto em que o Brasil registra, em média, uma mulher morta a cada seis horas em decorrência de violência doméstica ou feminicídio, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Mas o caso tem uma dimensão que a estatística não captura, que é a distância entre o que é visível socialmente e o que se passa dentro de uma relação de controle.

Fontes próximas à vítima descrevem um cotidiano marcado por forte controle e ciúme por parte do, até então, companheiro. Segundo esses relatos, Fabíola havia progressivamente encerrado suas atividades profissionais e sociais, passando a viver na chácara quase integralmente, adaptando sua rotina às preferências do marido. Laços de amizade próximos teriam se rompido ao longo do relacionamento. Um vizinho que compareceu ao local no dia da morte declarou à imprensa que o médico “tinha um ciúme danado” da esposa: “ele ficava em cima". A mesma fonte relatou que os funcionários da chácara não podiam circular livremente pela propriedade em determinados momentos. 

Controle de mobilidade, isolamento relacional, supressão de vínculos afetivos externos são comportamentos que a literatura especializada em violência doméstica classifica como controle coercitivo, uma forma de dominação que raramente deixa marcas físicas e que, por isso, frequentemente permanece invisível até o momento em que se torna irreversível.

A construção da narrativa

Nas primeiras horas após a morte de Fabíola, parte da cobertura jornalística local reproduziu, sem questionamento, a versão do suicídio e o enquadramento do médico como figura respeitada da medicina sul-mato-grossense. O advogado da defesa foi ouvido pela imprensa ainda na noite do dia 18, solicitando "benefício da dúvida". A palavra "suicídio" apareceu em manchetes antes que qualquer resultado pericial fosse divulgado.

Esse movimento, em que a narrativa pública se adiantou à investigação, é um padrão documentado por pesquisadoras de violência de gênero e comunicação, e não implica necessariamente má-fé jornalística. Revela algo mais difuso e, por isso, mais difícil de combater: o prestígio social masculino operando como amortecedor narrativo. Quando um homem de posição consolidada é investigado por violência contra uma mulher, colegas de profissão, advogados e parte da imprensa acionam, quase que reflexivamente, um conjunto de gestos protetores – o pedido de cautela, o registro do currículo, a escolha de palavras que suavizam o contorno dos fatos. Não é conluio, mas funciona como tal.

O histórico do investigado, aliás, não era inteiramente intocado. Em 2013, o nome de João Jazbik Neto teria aparecido em sindicância por suposto esquema de cobrança irregular para realização de cirurgias cardíacas pelo SUS na Santa Casa de Campo Grande, conforme apurado pelo Campo Grande News. A investigação não resultou em condenação registrada, mas o episódio indica que a reputação pública de um profissional de saúde pode coexistir com históricos investigativos que raramente chegam ao conhecimento do grande público.

Por que esse caso importa além de Campo Grande

Casos como o de Fabíola Marcotti iluminam uma zona de opacidade no enfrentamento à violência no Brasil. A morte que acontece longe dos olhos, dentro de propriedade privadas, envolvendo vítimas que foram, com o tempo, afastadas das redes de apoio que poderiam ter testemunhado o que acontecia. 

A investigação conduzida pela 1ª DEAM, sob responsabilidade da delegada Analu Lacerda Ferraz, ainda está em curso. Os laudos periciais não foram divulgados. O inquérito tramita em segredo de justiça. Mas, o conjunto de elementos já tornado público – a versão inicial do suicídio, as inconsistências apontadas por testemunhas e o habeas corpus que devolveru o investigado à liberdade – configura um cenário que merece investigação jornalística aprofundada e desprovida de molduras protetoras. 

Fabíola Marcotti tinha 51 anos, era fisioterapeuta e vivia em Campo Grande. Ela merece, no mínimo, que as perguntas sejam feitas. 

 

 

 
 




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