07/10/2026 05h23
Brasil polarizado leva tensão eleitoral para dentro das empresas e desafia produtividade
Com segundo turno pela frente, divergências políticas chegam às relações de trabalho; especialista alerta que problema começa quando opinião interfere na confiança e na colaboração entre colegas
A polarização política que marca o período eleitoral brasileiro não termina quando o funcionário entra no escritório ou abre o computador para trabalhar. Conversas sobre candidatos, memes compartilhados em grupos de WhatsApp e divergências entre colegas podem atravessar as relações profissionais e criar um novo desafio para as empresas: evitar que diferenças políticas comprometam confiança, colaboração e produtividade das equipes.
O assunto ganhou ainda mais relevância com a chegada do segundo turno das eleições. Um sinal mais extremo de como a disputa eleitoral alcançou as relações de trabalho aparece nas denúncias de assédio eleitoral. Dados do Ministério Público do Trabalho mostram que foram registradas 809 denúncias entre janeiro e setembro de 2026, ante 85 no mesmo período de 2022. Apenas em setembro foram 545 registros. Assédio eleitoral, porém, é diferente de uma discussão política entre colegas: envolve pressão, ameaça, constrangimento ou promessa de benefício com a intenção de influenciar voto ou posicionamento político.
Para Soraia Pena, especialista em gestão de pessoas e liderança, o desafio das empresas vai além das situações que configuram assédio. Equipes são formadas por pessoas com visões de mundo diferentes, e tentar eliminar qualquer conversa política do ambiente profissional pode ser pouco realista. O ponto de atenção surge quando a discordância muda a forma como os colegas se relacionam.
“Duas pessoas podem votar de maneiras completamente diferentes e continuar trabalhando muito bem juntas. O problema começa quando deixamos de discordar de uma opinião e passamos a desqualificar quem pensa diferente. Se eu começo a confiar menos em um colega, evito pedir sua ajuda ou deixo de compartilhar uma informação porque descobri em quem ele vota, uma questão política já se transformou em um problema de gestão”, afirma Soraia.
Uma pesquisa publicada em 2026 no Journal of Management Inquiry ajuda a explicar esse mecanismo. O estudo identifica quatro caminhos pelos quais discussões políticas no trabalho podem produzir consequências negativas: ameaça à identidade, desgaste de recursos emocionais, autocensura e criação de expectativas negativas sobre as relações com outras pessoas. Os autores também observam que trabalhadores tendem a discutir política com colegas que percebem como semelhantes, enquanto pessoas em minoria política podem optar por silenciar suas opiniões.
Outro conjunto de estudos apresentado pela Academy of Management em 2026 aponta que a divisão partidária pode alterar a maneira como os colegas interpretam o comportamento uns dos outros, as informações que compartilham ou evitam e a disposição para confiar e cooperar.
“Produtividade não é apenas quantas tarefas alguém consegue executar em uma hora. Ela depende da qualidade das relações que permitem que o trabalho aconteça. Uma equipe na qual as pessoas começam a medir palavras, evitar determinados colegas ou interpretar qualquer comentário pela lente política pode gastar uma quantidade enorme de energia administrando tensão em vez de resolver problemas”, diz Soraia.
Isso não significa que toda conversa sobre política prejudique o ambiente profissional. Estudo publicado em janeiro deste ano na Academy of Management Discoveries chegou a uma conclusão mais complexa: em determinadas condições, conversar com colegas sobre notícias politizadas esteve associado a menor exaustão emocional, melhora de humor, maior vínculo e apoio interpessoal. Os pesquisadores observaram, entretanto, que as pessoas tendem a escolher para essas conversas colegas que acreditam compartilhar sua identidade política.
Para Soraia, o resultado reforça que o problema não está necessariamente no assunto, mas na maneira como as relações são conduzidas. “Uma empresa não precisa transformar o ambiente de trabalho em um espaço onde ninguém possa falar sobre o que está acontecendo no país. O que ela precisa deixar claro é que liberdade para ter uma opinião não significa liberdade para constranger, ridicularizar ou hostilizar um colega. Divergência faz parte da convivência; desrespeito não”, afirma.
O período também exige atenção especial de quem ocupa posições de liderança. A diferença hierárquica faz com que uma manifestação política de um gestor tenha peso diferente daquela feita entre colegas, principalmente quando envolve cobrança de posicionamento, intimidação ou associação entre preferência eleitoral e consequências profissionais.
O próprio conceito de assédio eleitoral contempla situações de pressão, ameaça ou constrangimento destinadas a influenciar o voto ou a participação política do trabalhador, podendo envolver empregadores, superiores e também colegas. “Quanto maior a posição de poder, maior precisa ser o cuidado. O líder pode ter suas convicções como qualquer outra pessoa, mas não pode criar um ambiente no qual o funcionário sinta que precisa concordar para preservar sua relação com a chefia, suas oportunidades ou até o emprego. Existe uma assimetria de poder que não pode ser ignorada”, explica Soraia.
Na prática, ela recomenda que gestores estabeleçam limites claros para comportamentos, e não para opiniões. Ataques pessoais, constrangimentos, pressão sobre subordinados e conflitos que interfiram no trabalho precisam ser tratados como questões de gestão independentemente de qual posição política esteja envolvida.
“O teste para uma empresa não é conseguir fazer todo mundo pensar igual. É conseguir manter pessoas que pensam diferente trabalhando juntas, com respeito, confiança e objetivos comuns. Em um país polarizado, essa capacidade deixa de ser apenas uma questão de clima organizacional e passa a fazer parte da qualidade da liderança”, conclui Soraia.
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