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A santa que cabe no Brasil — e o Brasil que não cabe numa só fé


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09/10/2026 15h21

A santa que cabe no Brasil — e o Brasil que não cabe numa só fé

Marcela Lima


(*) Bàbá Sidnei Nogueira

O 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, convida a olhar para a diversidade religiosa do Brasil. Neste ano, a presença da santa no debate eleitoral acrescenta uma pergunta à celebração: quem tem o direito de dizer em nome de quem é o Brasil?

 

 

Nossa Senhora Aparecida é venerada na Igreja Católica. Também está presente em casas de Umbanda e em comunidades do Candomblé, onde a relação com Maria assume sentidos próprios, diversos e profundos. Em muitas tradições, sua imagem se aproxima de Oxum; mas a experiência religiosa brasileira não cabe inteira na palavra “sincretismo”. Há histórias familiares, escolhas pessoais, memórias de terreiro e devoções que atravessam fronteiras sem pedir licença às classificações.

Mãe Menininha do Gantois é uma lembrança eloquente dessa convivência. Iyalorixá de uma das casas mais importantes do Candomblé, ela também mantinha vínculo com o catolicismo e frequentava missas. Sua vida nos recorda que uma mulher podia ser autoridade religiosa no Candomblé e, ao mesmo tempo, cultivar relações devocionais católicas. Isso não torna as tradições iguais. Mostra que a experiência de fé de muita gente é mais ampla do que as fronteiras que outros tentam desenhar para ela.

Por isso, a entrada de Nossa Senhora Aparecida na campanha eleitoral não pode ser lida apenas como uma disputa sobre o título de Padroeira do Brasil. A controvérsia começou a circular associando Flávio Bolsonaro à possibilidade de retirar esse título da santa. Mas, como esclarece o Coletivo Bereia, não há registro de que ele tenha apresentado ou apoiado um projeto com esse objetivo. O projeto de lei de 2007 que propunha restringir o título foi rejeitado e arquivado em 2008. A associação direta entre esse projeto e o candidato não está comprovada.

O que está documentado é outra coisa — e já é politicamente significativo. Em vídeo de campanha, Flávio Bolsonaro disse que um de seus primeiros atos, se eleito, seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

É nessa frase que está o centro do debate. Semioticamente, ela não apenas expressa uma fé pessoal. Ao falar em decretar a quem pertence o Brasil, o candidato transforma uma convicção religiosa em promessa de poder público. Não se trata, portanto, de discutir a legitimidade da fé cristã ou o direito de um candidato professá-la publicamente. Trata-se de observar o que acontece quando a linguagem da fé se converte em linguagem de Estado. O país passa a ser enunciado como território de uma única identidade religiosa, definida por quem fala em nome dela. Não é preciso que haja uma proposta contra Nossa Senhora Aparecida para perceber o problema: a ideia de um Brasil pertencente a uma só fé já empurra para a margem quem crê de outra maneira — ou não crê.

Não se trata de dizer que todo evangélico pensa assim. A diversidade também atravessa as comunidades evangélicas, e muitos fiéis defendem a liberdade religiosa e a democracia. O problema está no projeto político que usa uma linguagem de domínio para apresentar uma religião como fundamento exclusivo da nação. Quando uma fé deixa de ser apresentada como uma possibilidade de existência e passa a ser enunciada como identidade oficial de um país, a questão deixa de ser apenas religiosa. Torna-se uma questão democrática.

Religião pode ser compreendida como uma forma de religar: pessoas a seus ancestrais, a uma comunidade, ao mistério, a uma promessa de cuidado. Mas, quando a política a transforma em senha de pertencimento, aquilo que poderia criar laços passa a servir para demarcar quem é de dentro e quem deve ser tratado como estrangeiro no próprio país. A crueldade está nessa inversão: falar em Deus para autorizar a exclusão de pessoas concretas.

A devoção brasileira a Maria revela justamente o contrário. Nossa Senhora Aparecida não cabe numa posse partidária. Sua imagem circula entre católicos, umbandistas e candomblecistas, com sentidos que não são idênticos, mas coexistem na vida de muitas pessoas. Essa pluralidade não é uma confusão a ser corrigida. É parte da história religiosa do país — feita também sob perseguição, resistência e reinvenção.

É justamente aí que a discussão sobre Aparecida encontra uma questão maior. O risco não está na existência pública da religião, nem na manifestação da fé por quem participa da política. Uma democracia plural não exige que as pessoas escondam suas crenças. O problema surge quando uma experiência religiosa reivindica para si o direito de definir simbolicamente a nação e, a partir disso, estabelecer quem pertence plenamente a ela.

O Brasil tem uma história religiosa atravessada por encontros, conflitos, perseguições, resistências e reinvenções. As religiões de matriz africana sabem, talvez de maneira particularmente dolorosa, o que significa viver em uma sociedade na qual uma tradição religiosa ocupa uma posição de poder e as demais precisam lutar até mesmo pelo direito de existir. Por isso, liberdade religiosa não pode significar apenas liberdade para a fé majoritária se expressar. Ela precisa significar liberdade para todas as formas de crença — e também para a ausência dela.

A pergunta, então, não é se Nossa Senhora Aparecida pode ser “trocada” por Jesus, nem se uma tradição religiosa deve ceder lugar à outra. O próprio Bereia não encontrou evidência de que Flávio Bolsonaro tenha proposto retirar o título da santa. A pergunta é mais funda: que Brasil se anuncia quando um candidato promete decretar que o país pertence a uma única expressão do sagrado?

Aparecida não precisa ser protegida de Oxum, nem Oxum de Maria. As duas podem habitar, de modos distintos, a memória devocional de um povo. O que precisa ser protegido é o direito de cada pessoa e comunidade construir sua relação com o sagrado sem que o Estado, um partido ou um candidato fale por todas elas.

O Brasil não pertence a uma igreja, a um terreiro, a um partido ou a uma única expressão de fé. Pertence também às pessoas que rezam diante de Aparecida, às que saúdam Oxum, às que acendem uma vela sem nomear sua crença e às que não rezam. Uma democracia capaz de acolher essa pluralidade não diminui a fé. Impede que alguém a use como decreto sobre a vida de todos.

(*) Bàbá Sidnei Nogueira é escritor, pesquisador e doutor em Semiótica pela Universidade de São Paulo (USP). Iniciado há 40 anos para Ṣàngó, é filho de Ìyálórìṣà Joesia Teles de Oyá e Ọ̀gá Plácido de Ògún. É membro consultivo da Cátedra de Sustentabilidade da UNESCO (SOST) e autor de Intolerância Religiosa, em edição revista e ampliada, além de outras obras. Sua trajetória reúne pesquisa, produção intelectual e atuação pública em torno das religiões de matriz africana, do racismo religioso, da ancestralidade e da liberdade religiosa.

Sobre Bàbá Sidnei

Bàbálórìṣà Sidnei Nogueira
é escritor e pesquisador, cuja trajetória se constrói a partir do terreiro como lugar de produção de conhecimento, ética e ação política. Filho da Ìyálórìṣà Joesia Teles de Oyá e do Ọ̀gá Plácido de Ògún, é iniciado há 40 anos para o Òrìṣà Ṣàngó, referência que atravessa sua leitura de mundo e sua atuação pública.

Doutor em Semiótica pela Universidade de São Paulo, Bàbá Sidnei de Ṣàngó articula pensamento acadêmico e saberes ancestrais para refletir criticamente sobre as relações étnico-raciais, o racismo religioso e as formas de violência que atingem as religiosidades afro-brasileiras. É também membro consultivo da UNESCO – SOST. Sua escrita e sua fala partem da experiência negra para tensionar estruturas de poder, disputar narrativas e afirmar outras epistemologias possíveis.

Autor de diversos livros, entre eles Intolerância Religiosa, finalista do Prêmio Jabuti 2021, tornou-se referência nacional no debate sobre racismo religioso, colonialidade e liberdade de crença no Brasil. Em 2026, lança a edição revisada e ampliada da obra, reafirmando a atualidade de uma reflexão que permanece fundamental para compreender as relações entre religião, racismo e violência no Brasil contemporâneo. 

Sua atuação pública reafirma o terreiro como espaço de produção de conhecimento, pertencimento e resistência, aproximando ancestralidade, pensamento crítico e transformação social.



 




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