- mell280
14/10/2026 06h17
Nem uma vitória de Flávio Bolsonaro deve frear expansão de indústrias brasileiras para o Paraguai, avalia especialista
Apesar das diferenças entre as propostas econômicas dos candidatos, vantagens tributárias, trabalhistas e energéticas do país vizinho devem continuar atraindo investimentos. Para fundadora da Frontexa, integração produtiva pode ajudar empresas brasileiras a enfrentar a concorrência chinesa e fortalecer o Mercosul
A combinação de incentivos fiscais, mão de obra e energia mais baratas, além de menos burocracia, tem levado empresas brasileiras a expandir suas operações para o Paraguai. O movimento reflete uma estratégia de busca de maior competitividade, favorecida também pela participação do país vizinho no Mercosul, que oferece vantagens comerciais para empresas que têm o Brasil como principal mercado consumidor. Ao mesmo tempo, a expansão industrial para o Paraguai tem alimentado debates políticos sobre a perda de empregos, a carga tributária e o chamado custo Brasil.
Para Suelen Raizer, fundadora da Frontexa, empresa especializada em competitividade regional e estruturação de operações empresariais em novos territórios, o Paraguai não deve ser visto como um problema e sim como uma oportunidade para enfrentar a concorrência chinesa e competir em outros mercados.
“É menos uma história de substituição de um país pelo outro e mais de reorganização das cadeias produtivas e expansão produtiva”, afirma a especialista, citando como exemplo a Lupo, que inaugurou uma fábrica em Ciudad del Este, no ano passado, mas não fechou nenhuma unidade no Brasil.
Produto fica até 60% mais barato se feito no Paraguai
Raizer explica que a economia no custo operacional ao produzir no Paraguai fica, em média, entre 17% e 27%, mas que em determinados projetos o preço final chega a ser 60% menor. Entre os setores que têm ampliado atividades no país estão o têxtil, o alimentício, o de plásticos e o de autopeças.
Um dos grandes atrativos é a Lei de Maquila, criada para atrair indústrias que exportam e gerem empregos no Paraguai. O regime permite importar insumos e maquinário sem imposto e pagando só 1% de imposto sobre o valor agregado e com isenção de Imposto de Renda, inclusive sobre o pagamento de dividendos.
Segundo a Câmara de Empresas Maquiladoras do Paraguai (Cemap), o país possui 339 maquiladoras e aproximadamente 70% do capital instalado no regime é de origem brasileira. Entre janeiro e agosto deste ano, as exportações pelo regime cresceram 26% na comparação com o mesmo período de 2025.
Com o impulso da indústria, o Paraguai tem vivido um “boom” econômico e registrado um crescimento econômico bem acima do Brasil e dos outros países da região. O Banco Mundial elevou para 4,7% a previsão de avanço do PIB (Produto Interno Bruto) do Paraguai em 2026, enquanto projeta que a economia brasileira deve avançar 2,1% no mesmo período.
Parceria com Paraguai ajuda a enfrentar concorrência da China
Segundo a especialista, as indústrias brasileira e paraguaia podem atuar de forma complementar para fortalecer o Mercosul, aumentar a competitividade e reduzir a dependência da Ásia, sobretudo fornecedores chineses.
“O maior risco para a indústria brasileira não é a produção no Paraguai. É perder competitividade e assistir ao mercado ser ocupado por produtos importados. Em vez de disputar onde uma fábrica deve estar, deveríamos discutir como tornar a indústria sul-americana capaz de competir com as grandes potências industriais”, afirma.
Segundo ela, a melhorar estratégia é combinar as capacidades dos países: manter no Brasil atividades e empregos que dependam de competências e mão de obra mais técnica e realizar no Paraguai as etapas que se beneficiem de custos ou condições locais.
Raizer destaca também os ganhos potenciais da futura Rota Bioceânica, prevista para entrar em operação em 2028, ligando o Brasil aos portos do Pacífico no Chile, passando pelo Paraguai e Argentina. Quando ela estiver plenamente operacional, poderá encurtar em até 17 dias o transporte de insumos vindos da China, reduzindo os custos logísticos da produção e exportação do Mercosul.
“A discussão não é sobre o Brasil perder fábricas. É sobre empresas brasileiras ganharem uma segunda plataforma produtiva, conectada ao seu principal mercado e a uma nova saída logística para o Pacífico”, destaca a especialista.
O que pode mudar com Lula ou Flávio Bolsonaro
Embora o tema Paraguai tenha sido recorrente no debate político e eleitoral, Raizer avalia que a integração regional entre as indústrias e a atratividade da transferência de parte da produção da indústria brasileira para o país vizinho continuará independentemente do resultado das eleições presidenciais.
Segundo ela, a expansão industrial para o Paraguai vem ocorrendo desde o início dos anos 2000 e tende a permanecer na agenda estratégica das empresas brasileiras.
“Uma indústria não decide onde produzir apenas olhando quem ocupa a Presidência. Ela compara custos, produtividade, segurança jurídica, logística e acesso a mercados. A política econômica brasileira pode mudar, mas as decisões de investimento precisam considerar condições estruturais e horizontes de longo prazo”, avalia, acrescentando que a decisão de investir no país não é baseada apenas em impostos, mas envolve também mão de obra, logística, custos operacionais e acesso a mercados.
Importante destacar que, além da parceria comercial, Brasil e Paraguai compartilham outros interesses estratégicos como o tratado da usina hidrelétrica de Itaipu, Mercosul e segurança de fronteira.
“Mesmo que o Brasil reduza sua carga tributária, isso não significa que a equação econômica das indústrias será imediatamente alterada. A competitividade não depende de uma única variável. O empresário analisa quanto custa produzir, financiar, transportar e entregar sua mercadoria. Enquanto houver vantagens econômicas relevantes na integração das duas estruturas produtivas, o Paraguai continuará sendo considerado nas estratégias de expansão”, conclui.
Sobre a Frontexa
A Frontexa é uma empresa brasileira especializada em competitividade regional e estruturação de operações empresariais em novos mercados. A companhia apoia empresas na análise de onde e como operar para ganhar eficiência, combinando leitura de cenário econômico, avaliação regulatória e fiscal e estruturação prática de operações.
Com foco na reconfiguração da base produtiva, fiscal, financeira e estratégica das empresas, a Frontexa conduz projetos que vão do diagnóstico à implementação, incluindo estruturação operacional, suporte na formação de equipes, identificação de ativos e viabilização da operação em novos ambientes de negócios.
O Paraguai se destaca como o principal caso atual dessa transformação, mas a atuação parte de uma lógica mais ampla de competitividade regional. A empresa é liderada por Suelen Raizer, que tem experiência prática em indústria e trajetória marcada pela revisão de modelo de negócio a partir de mudanças de ambiente, o que fundamenta sua atuação na interseção entre cenário econômico e decisão empresarial.



