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Moradores se unem para reconstruir Itaóca após 'onda' devastar a cidade


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20/01/2014 07h47 - Atualizado em 20/01/2014 10h53

Moradores se unem para reconstruir Itaóca após 'onda' devastar a cidade

G1


 A cidade de Itaóca, no interior de São Paulo, ainda contabiliza os prejuízos da tragédia que deixou pelo menos 23 pessoas mortas. Uma semana após as chuvas que devastaram todo o município, o G1 voltou ao local e constatou que ainda há muito a ser feito para que a cidade volte a ter cara de cidade. Além de terem que dormir e acordar em um cenário que nada lembra a antiga Itaóca, com pilhas gigantescas de destroços espalhados por todos os lados, os moradores acreditam que o número de mortos pode crescer ainda mais. No bairro Guarda Mão, o mais afetado pela tempestade, um terço da população morreu.

 

Os cerca de 3 mil habitantes de Itaóca ainda procuram entender o que realmente ocorreu. Na rua, nos bares, em meio aos destroços. Todos tentam explicar o que aconteceu na noite do dia 12 de janeiro. De oficial, segundo a Prefeitura, uma gigantesca onda, formada por água, barro e troncos, surgiu após a enxurrada ter ficado represada sucessivas vezes em barreiras da cidade. À medida que as barreiras eram destruídas, a onda ganhava mais força. Três rios, que se encontram, foram afetados: Guarda Mão, Martins e Palmital.

 

Passaram-se sete dias e, mesmo com a ajuda da Defesa Civil, dos Bombeiros e de centenas de voluntários, o bairro Guarda Mão permanece isolado. Chegar ao local só é possível andando vários quilômetros a pé, escalando pedras e caminhando por dentro do rio. A paisagem e a geografia do local foram completamente alteradas. Na área que ficava a estrada passa agora o rio. Onde havia milhares de árvores há incontáveis pedras que desmoronaram durante a tempestade.

"O bairro inteiro foi desmatado. Apareceram pedras enormes que nunca foram vistas. Nunca vi nada parecido. Essas pedras simplesmente não existiam. A gente tinha uma estradinha para passar de carro e ela desapareceu", lembra o ajudante de pedreiro Nelson de Pontes, morador do Guarda Mão que perdeu a única filha durante a enxurrada. "Ela estava em uma casa que foi completamente destruída, morreu junto com a minha ex-mulher e outras três pessoas que estavam no local. As pessoas encontraram o corpo e me chamaram para reconhecer. Foi um momento de muita tristeza. Não sei explicar o que estou sentindo. Não sei se vou conseguir voltar a morar no local", completa.

 

Na semana seguinte à tragédia, cada corpo encontrado gerava uma expectativa na população, que se reunia para acompanhar o resgate. Por ser uma cidade pequena, praticamente todas as pessoas conheciam ou já tinham ouvido falar das vítimas, o que gerava uma grande comoção. O filme se repetiu todos os dias, até a Defesa Civil contabilizar 23 corpos encontrados. Para aumentar o drama, muitos corpos foram encontrados pelos próprios moradores. Enquanto alguns foram achados dentro de Itaóca, outros foram levados para outras cidades da região pela correnteza.

"Estava em casa e comecei a sentir um cheiro horrível. Eu e meu tio saímos para ver o que havia acontecido e encontramos o corpo. Foi terrível porque grande parte da minha família morreu no bairro Guarda Mão. Perdi seis pessoas lá. Essa tragédia foi uma coisa inesperada e ninguém poderia imaginar que ela ia ocorrer. Foi tudo muito rápido", lembra o estudante Iran de Oliveira Godoy e Silva. O jovem é um dos que acredita que o número de vítimas ainda pode aumentar. "Tenho certeza que existem muitas outras vítimas. A cidade estava recebendo visitantes no dia da chuva e alguns podem ter sido levados pela correnteza. Agora precisamos contabilizar tudo direito e nos reerguer para a cidade voltar a ser como era antes", acrescenta.

Reflexos da tragédia se espalham pela vizinhança
Até mesmo os moradores de Apiaí, cidade mais próxima de Itaóca, encontram dificuldades para compreender o tamanho da devastação. No fim da estrada que liga as duas cidades, quem chega a Itaóca encontra outro bairro, o Lageado, completamente devastado. Mesmo com o trabalho intenso para desobstruir as vias, ainda é possível observar o estrago ocasionado pela cheia do Rio Palmital, que margeia o local. Além das dezenas de máquinas trabalhando para remover a lama, os visitantes que chegam à cidade encontram montanhas de madeira arrastadas pela correnteza do rio, que normalmente pode ser atravessado a pé mas, no dia da enchente, subiu cinco metros.

 

"No Lageado não choveu tanto. Começou com uma chuvinha fraca e, por volta das 21h, acabou a luz. Uma hora depois começamos a ouvir um barulho muito alto. Parecia que estava tendo uma explosão. Corremos para ver e nos demos conta de que a situação era ainda pior. Já estava tudo alagado. Vimos duas pessoas sendo arrastadas pela correnteza", recorda Sebastião Lúcio, presidente da Câmara Municipal de Itaóca e morador do bairro. "A Câmara tem o compromisso de ajudar a prefeitura a acudir os mais necessitados. Já estamos com alguns trabalhos e organizamos uma grande mobilização. Eu nunca vi nada parecido com o que ocorreu. Não tenho ideia de quanto tempo vamos precisar para recuperar a cidade. Mas sou otimista e acredito que vamos ressurgir das cinzas", garante.

Com a cidade vivendo momentos caóticos, quem não foi afetado pela enchente também precisa encontrar uma forma de sobreviver. Apesar da recomendação da Prefeitura e da Sabesp para que a população evite entrar em contato com a água dos rios, muita gente não tem opção e arrisca a própria saúde. A dona de casa Leila Gonçalves dos Santos, por exemplo, foi flagrada pelo G1 consumindo água barrenta para matar a sede.

"Não tenho outra opção. Uso essa água para não deixar a roupa suja. Para beber é a mesma coisa. Utilizamos essa mesma água. Somos obrigados a beber para não morrer. Não existe outro jeito. Peço que os governantes limpem os rios com urgência e tragam água para nós. Até pra cozinhar estou usando essa água suja", lamenta ela.

 

A falta de água é apenas um dos problemas de Itaóca, que continua sem fornecimento de energia elétrica em alguns bairros. Além disso, a infraestrutura da cidade está bastante comprometida. Muitas pontes caíram e deixaram várias áreas inacessíveis. Em Gurutuba dos Martins, por exemplo, a população improvisou e colocou um tronco de uma ponta a outra do rio para evitar que alguns moradores ficassem isolados. O problema é que a precária estrutura corre o risco de cair a qualquer momento. Um idoso de muletas foi flagrado pelo G1 se desequilibrando ao tentar atravessar a estrutura para chegar em casa.

"A coisa foi muito feia em Gurutuba. O bairro simplesmente acabou. Os deslizamentos nos morros contribuíram para a formação da onda que devastou tudo. Mesmo nós, que moramos há décadas no local, não reconhecemos o nosso bairro. Mudou tudo. Tenho medo de continuar aqui. Se aconteceu agora, claro que pode acontecer mais uma vez", afirma o agricultor João Pereira de Paulo.

Perdas e histórias de solidariedade que comovem
Foi no bairro do Gurutuba que ocorreu uma das histórias mais marcantes da tragédia. Uma família tentou guardar o carro e foi surpreendida pela onda. Um casal de São José dos Pinhais, no Paraná, estava na casa no momento da enchente. Enquanto todos se seguraram no teto do que restou da casa, que também foi arrastada, uma mulher acabou se soltando e foi levada pela enxurrada. Antes de sumir, ela teve forças para mandar um recado para o marido: "Se cuida, meu amor". O corpo de Ziza Maria Dantas Martins, de 44 anos, foi encontrado apenas no fim da tarde de sábado (18).

"Eu presenciei os últimos momentos da Ziza. Ficamos com água até o pescoço durante uma hora. Foi um momento de desespero, de muito sofrimento. Deus nos deu forças para superar a tristeza, a dor e a perda. Eu só pensava em ajudar a minha filha pequena para dar uma chance para ela continuar vivendo. Implorei a Deus pela nossa vida e fizemos uma corrente de oração. Infelizmente a gente viu ela ser levada. Ainda existia uma esperança de encontrar ela viva presa em algum galho. Mas, infelizmente, quando a água acalmou, vimos que ela já tinha ido embora. Ela foi levada pela onda que atingiu o bairro", conta o cobrador Santino Aparecido Duarte Martins, primo da vítima.

 

Santino faz parte de um grupo de dezenas de moradores que não teve a casa completamente destruída, mas que, por outro lado, perdeu tudo o que estava dentro do imóvel. A casa dele, localizada a poucos metros do local onde Ziza foi levada, acabou invadida pela enxurrada e ficou com quase dois metros de lama em todos os cômodos. Para ajudar essas pessoas, dezenas de voluntários estão há mais de uma semana limpando as residências.

"A casa está em um estado deplorável. Com a ajuda dos amigos estou com esperança de reconstruir e fazer ela voltar ao que era. Além da casa, meu carro foi arrastado para longe e quase acertou uma pessoa. Foi tudo muito rápido. Temos que agradecer a Deus pela nossa vida", diz o cobrador.

Mesmo após uma semana, as marcas da tragédia permanecem visíveis também na cor das casas. Praticamente todos os imóveis do município estão marcados pela linha marrom que define a altura que a água atingiu no local. Em alguns bairros é possível encontrar casas que, apesar de não terem sido totalmente destruídas, ficaram praticamente submersas.

 

"A água veio batendo e houve uma onda muito forte e muito grande. No meu caso, a água e as madeiras chegaram a atingir o telhado. Se fosse uma casa de madeira não aguentava. Perdi tudo o que tinha, mas, o mais valioso, que é a minha mãe, consegui resgatar. Fui obrigado a pegá-la no colo e correr. Ela já tem 98 anos e não conseguiria sair a tempo sozinha. Agora precisamos reconstruir Itaóca. Tudo isso que aconteceu é passageiro. Eu nunca vi uma coisa parecida na minha vida", contou ao G1 o lavador Analino Gonçalves.

Durante os mutirões de limpeza, milhares de objetos são encontrados, resgatados e catalogados. Muita coisa ainda continua espalhada pela cidade, como brinquedos, remédios, roupas e móveis. Durante um dos trabalhos, a estudante Ana Luiza Sare, de 17 anos, encontrou um bolo de dinheiro jogado no meio da lama. Ao se dar conta do que tinha achado, foi atrás do dono e, ao encontrá-lo, teve uma surpresa.

 

"Há uma semana andamos todos os bairros da cidade, diariamente, e fazemos os levantamentos das vítimas, das casas, dos objetos. Além disso, os voluntários distribuem alimentos e água e ajudam a limpar as ruas. Encontrei R$ 600 quando removi parte da lama de uma casa e identifiquei o dono. Quando cheguei para devolver, ele disse que não poderia aceitar porque, como estava na rua, o dinheiro passou a ser nosso. Fiquei muito surpresa com a atitude dele", conta.

‘Vamos levantar quantas vezes for preciso’, garante prefeito
Eleito prefeito de Itaóca em 2010 com 1.215 votos, apenas 47 a mais que o segundo colocado, Rafael Camargo, o 'Rafael da Agricultura', trabalha sem pausa desde o dia da tragédia. Assim como os moradores da cidade, Rafael também perdeu vários amigos levados pelo rio. Após várias reuniões com especialistas, o prefeito concluiu que a cidade foi destruída por causa de uma grande concentração de chuva nos morros, a cerca de 12 quilômetros da cidade. Ele conta que os deslizamentos foram se acumulando e o rio acabava ficando travado nas pontes.

 

"São córregos muito pequenos que, com a descida das enxurradas, cresceram de uma forma inimaginável. Quando eu soube, na segunda-feira, o tamanho da destruição, a primeira coisa que disse foi 'Meu Deus, como isso foi acontecer com a gente'? Não dava para acreditar. Toda a cidade caiu no choro. Todo mundo se conhece e isso deixa a situação ainda mais triste", diz.

O chefe do executivo sabe que terá muito trabalho pela frente. Segundo os últimos números da Defesa Civil, 180 pessoas ainda estão desalojadas. Rafael acredita que as visitas do governador Geraldo Alckmin, que viu de perto os estragos em Itaóca na segunda (13) e terça-feira (14), deve agilizar a reconstrução do município. Além de se preocupar com a entrega das novas moradias, que pode demorar até seis meses, o prefeito quer ter certeza de que não existam mais vítimas desaparecidas que não foram contabilizadas.

"Infelizmente, pelo tamanho da tragédia, acredito que existam mais vítimas. Neste fim de semana, uma família de Laranjal Paulista esteve na cidade procurando informações sobre parentes que estavam em Itaóca e não voltaram para casa. Eles ainda não foram contabilizados. Torço muito para que eles estivessem bem longe da cidade quando tudo isso aconteceu. Espero que não existam mais vítimas, mas, por causa desse relato, volto a me preocupar bastante com isso", conta.

 

O prefeito também lamenta o fato de o orçamento de um ano inteiro estar comprometido por causa da tragédia. Anualmente, Itaóca arrecada pouco mais de R$ 13 milhões. Por enquanto, os gastos previstos por causa dos estragos estão na mesma cifra do valor orçamentário. Rafael, porém, garante que não mexerá nas verbas destinadas a setores como Educação e Saúde. Ele pretende convencer o Governo Estadual e o Governo Federal a bancarem esse valor.

 

"Eu fiquei mais de 72 horas sem dormir pensando no que fazer. Acho que vamos ter ajuda externa. Pelo que senti, o governador vai cumprir as promessas de construir casas e ajudar Itaóca a se reerguer. Enquanto trabalhamos, peço para que o povo não se desanime. Estamos saindo do trabalho emergencial e focando na reconstrução. Somos guerreiros e vamos levantar quantas vezes for preciso. As pessoas precisam entender que tudo isso aconteceu por algum motivo. Não temos como recuperar vidas, mas bens materiais a gente dá um jeito. O momento agora é de um dar força para o outro e pedir a Deus para dar forças para todo mundo. Vamos seguir em frente. Não podemos nos abater jamais", finaliza.

A prefeitura de Itaóca está aceitando doações que servirão para auxiliar na reconstrução da cidade. Uma comissão formada por 10 pessoas de várias áreas da sociedade foi montada para fiscalizar o uso do dinheiro. Quem quiser ajudar o município pode depositar qualquer quantia nas contas bancárias do Fundo Social de Solidariedade de Itaóca (Banco Bradesco, agência 2027-3 e conta 100.3321-7) e SOS Itaóca (Banco do Brasil, agência 3637-4 e conta 100.000-4).

 

 

 

 

 

 

 

 

 





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