25/02/2026 07h17
Leilão de consignado: inovação, mas com lacunas reais
*Por Túlio Matos, CEO da iCred
A proposta de modernizar o crédito consignado para aposentados e pensionistas do INSS é, sem dúvida, necessária. No entanto, quando inovação é implementada sem considerar a diversidade de perfis do público atendido, ela corre o risco de ampliar desigualdades em vez de reduzi-las.
Recentemente, o INSS anunciou a possibilidade de contratação de empréstimos consignados por meio de um modelo de leilão. A lógica é simples, em vez de o beneficiário ser abordado diretamente por instituições financeiras, os bancos competem entre si para oferecer a melhor taxa. A oferta vencedora é apresentada ao consumidor, reduzindo o assédio comercial e estimulando a concorrência.
O debate não é pequeno. O crédito consignado do INSS movimenta mais de R$ 278 bilhões em contratos ativos e representa cerca de 40% do saldo total dessa modalidade no país, segundo dados levantados pelo Banco Central. Ou seja, esse é um mercado de grande escala, em que pequenas mudanças podem afetar milhões de beneficiários em um país continental, com desigualdade de infraestrutura e acesso digital.
Em teoria, o leilão oferece condições mais vantajosas para quem contrata, promovendo competição entre as instituições financeiras e potencial redução de taxas.
Na prática, o processo exige que o aposentado acesse um aplicativo, manifeste interesse e aguarde ser contatado para receber um link de contratação. Essa experiência não atende a todos os perfis de clientes. Muitos consumidores valorizam a conveniência, buscam atendimento humanizado e, em alguns casos, preferem presença física para se sentirem seguros ao contratar crédito. Além disso, limitações de conectividade e familiaridade com tecnologias digitais podem tornar o processo pouco acessível para parte do público-alvo.
O leilão atende a um público específico, mas tratá-lo como única opção revela uma visão limitada das necessidades reais dos aposentados. Reduzir canais de atendimento ignora as particularidades de cada beneficiário e desconsidera a diversidade de perfis e expectativas. Para garantir que todos possam contratar crédito de forma segura e adequada, é fundamental que alternativas presenciais, consultoria especializada e canais digitais simplificados coexistam.
A regulação precisa equilibrar inovação e acessibilidade. O leilão pode reduzir taxas e promover concorrência, mas não substitui produtos adaptados às diferentes necessidades dos beneficiários. A experiência do consumidor deve ser prioridade, e não apenas o formato da contratação ou o valor da taxa.
O leilão é uma alternativa válida, mas não pode ser a única via de contratação. Um mercado saudável oferece múltiplas possibilidades, respeitando a diversidade de perfis, necessidades e expectativas. Ignorar essas questões é desconsiderar o direito de milhões de aposentados e pensionistas a um crédito seguro e acessível.
Sobre o Túlio Matos
Túlio Matos é CEO e cofundador da iCred, fintech que simplifica o crédito consignado e pessoal no Brasil por meio de uma originação multicanal que integra rede de correspondentes bancários, canais digitais e parcerias B2B2C. Graduado em Marketing pela FANESE (Faculdade de Administração e Negócios de Sergipe) e com formação executiva em Negociação pela University of Michigan, atua há mais de 20 anos no setor financeiro com foco em ampliar o acesso ao crédito em cidades pequenas e médias. Sob sua liderança, a iCred tornou-se uma das principais plataformas de crédito do país, com operação presente em milhares de municípios, milhões de clientes atendidos, funding institucional proprietário e participação ativa em agendas regulatórias por meio da ANEPS, ABCD e ABBC.
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