30/03/2026 16h17
Farmacêutica Gilead se recusa a vender para MSF medicamento revolucionário para prevenção do HIV
Em carta, organização apela para que empresa amplie acesso ao lenacapavir às pessoas que mais necessitam
Médicos Sem Fronteiras (MSF) enviou nesta segunda-feira, 30 de março, uma carta aberta à farmacêutica norte-americana Gilead Sciences, instando a empresa a vender imediatamente à organização o lenacapavir, um medicamento que representa um dos avanços mais importantes na prevenção do HIV em décadas.
Cerca de 1,3 milhão de pessoas em todo o mundo são infectadas com o HIV todos os anos, o que evidencia a necessidade urgente de ampliar o acesso a ferramentas de prevenção altamente eficazes, como os medicamentos de profilaxia pré-exposição (PrEP) de longa duração.
MSF concentra suas atividades de prevenção ao HIV em populações-chave vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens, pessoas transgênero e profissionais do sexo, e atua em contextos de conflito e outros ambientes frágeis. O acesso a medicamentos de prevenção ao HIV, bem como a adesão de pacientes ao uso diário, podem ser extremamente difíceis. Ferramentas de prevenção de longa duração, como o lenacapavir — que precisa ser administrado apenas duas vezes por ano por meio de injeção — podem, portanto, salvar vidas de pessoas com alto risco de infecção pelo HIV.
Apesar das declarações públicas da Gilead de que é capaz de expandir a produção do lenacapavir para atender à demanda, a empresa se recusou a atender aos pedidos de MSF para a compra de uma quantidade limitada do medicamento para uso em seus programas.
Até o momento, apenas um pequeno número de países recebeu doses de lenacapavir, enquanto milhões de pessoas em todo o mundo continuam sob alto risco de adquirir o HIV. A Gilead assinou um acordo no âmbito do Fundo Global que até o momento limita a 18 os países elegíveis a receberem o medicamento com preços mais baixos.
A Gilead orientou MSF a obter as doses por meio do Fundo Global, apesar de o fornecimento ser limitado e insuficiente — para até 2 milhões de pessoas ao longo de três anos, número muito inferior à necessidade global. Além disso, muitos dos países onde MSF atua não são elegíveis para receber doses por meio do Fundo Global, devido a restrições impostas pela própria Gilead.
“Impedir que organizações humanitárias tenham acesso a um avanço médico coloca pessoas vulneráveis em perigo”, afirmou o Dr. Tom Ellman, diretor da Unidade Médica da África Austral (SAMU) de MSF. “A Gilead precisa decidir se prioriza a proteção das pessoas ou a manutenção de controle e lucro. Isso é uma repetição assustadora das políticas que vimos na década de 1990, quando os antirretrovirais eram disponibilizados para quem vivia no Norte global, enquanto o restante do mundo tinha o acesso negado e muitas vidas foram perdidas para o HIV/AIDS.”
No Brasil, MSF não possui projetos relacionados ao HIV, mas considera importante que o medicamento esteja disponível e acessível às populações que mais necessitam dele. O produto foi aprovado pela Anvisa em janeiro deste ano, mas até o momento não há perspectiva de que esteja disponível.
O Brasil, assim como a grande maioria dos países latino-americanos e de renda média, foi excluído do acordo que permite aquisição por meio do Fundo Global. A adoção do lenacapavir pelo SUS (Sistema Único de Saúde) esbarra no preço cobrado pela Gilead. Os valores envolvidos nas negociações não são divulgados pela empresa, mas sabe-se que o preço do medicamento nos EUA é de exorbitantes US$ 28 mil anuais (cerca de R$ 150 mil). Em contraste, fabricantes indianos já disseram ser possível comercializar versões genéricas por US$ 40 (cerca de R$ 200).
Assim, no momento o cenário no Brasil é de indisponibilidade do medicamento, pelas barreiras de preço e controle da oferta impostas pela Gilead. Nesse contexto, é importante que o governo brasileiro avalie o uso de todas as medidas previstas na legislação para viabilizar o acesso ao lenacapavir no país.
MSF solicitou uma reunião urgente com a Gilead, até 13 de abril, para que a empresa reconsidere a decisão de não vender o lenacapavir diretamente, bem como negociar a que preço o medicamento será comercializado e quando o fornecimento poderá começar.
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