19/04/2026 11h38
Espiritualidade ancestral perde espaço e só 3% dos indígenas seguem tradição
Presença crescente de igrejas divide comunidades e impacta transmissão cultural entre gerações
Por Kamila Alcântara
Neste domingo (19), em que se celebra o Dia dos Povos Originários, um dado chama mais atenção do que qualquer discurso oficial: em Mato Grosso do Sul, apenas 3% da população indígena declara seguir tradições religiosas ancestrais. Enquanto isso, 45% se identificam como evangélicos e 25% como católicos.
Os números fazem parte do Painel Povos Originários, lançado nesta semana pelo Observatório da Cidadania, plataforma que reúne dados inéditos sobre território, perfil populacional e condições de vida indígena no Estado.
A leitura fria dos dados pode sugerir apenas uma mudança de preferência religiosa. Mas, na prática, o que está em jogo é bem mais profundo. “Hoje a gente vive uma divisão dentro das comunidades”, resume o técnico da Subsecretaria de Políticas Públicas para Povos Originários, Heliton Cavanha, que é kaiowá.
“De um lado, a religião dos não indígenas. Do outro, a espiritualidade tradicional.” Segundo ele, essa divisão não é neutra. Ela impacta diretamente a estrutura social das aldeias.
“A raiz das comunidades são os anciões, os nhanderu e as nhandery. E o futuro é a juventude. Só que a gente está esquecendo esses anciões, esquecendo de fortalecer eles”, afirma.
Essa fala expõe um ponto incômodo que pouca gente quer encarar de frente. Não é só sobre fé. É sobre transmissão de conhecimento. Sem os anciãos, não há quem ensine. Sem os jovens interessados, não há quem aprenda.
Heliton evita confronto direto com outras religiões. Faz questão de dizer que o respeito precisa existir dentro e fora das comunidades. Mas também deixa claro que há um limite. “É preciso respeitar todas as religiões. Mas não deixar de lado a nossa cultura. Isso é essencial.”
O avanço de igrejas nas aldeias ocorre ao mesmo tempo em que espaços tradicionais perdem força. Casas de reza, por exemplo, passaram a ser alvo de conflitos e até destruição, segundo relatos de lideranças. “Tem situações de queima de casas de reza e até violência contra quem defende esses espaços,” afirma o técnico.
A resposta tem sido institucional. Programas estaduais e federais tentam proteger esses territórios e práticas, incluindo iniciativas voltadas à preservação das casas de reza e fortalecimento cultural.
Mas dá para proteger cultura só com política pública, sem engajamento da própria comunidade? Diferente das religiões estruturadas em templos, a espiritualidade indígena está ligada à natureza. “A gente precisa entender a relação com a natureza. O povo guarani é conhecido como povo da floresta”, explica Heliton.
Por isso, iniciativas atuais tentam conectar espiritualidade com ações práticas, como agroecologia, saúde e autocuidado. A lógica é simples: cultura não se preserva em discurso, mas no cotidiano.
Mato Grosso do Sul tem a terceira maior população indígena do país, com mais de 116 mil pessoas, a maioria jovem. Ou seja, há base demográfica para manter tradições vivas.
Ao concluir, Heliton cita alguns desses pontos que também podem estar influenciando esse apagamento: drogas, álcool e conflitos internos fragilizam justamente quem sustenta a tradição.
Queima da Casa de Reza Guarani e Kaiowá da retomada Kunumi Verá, no município de Caarapó em 2024 (Foto: Aty Guasu)
Incêndios - Ataques a casas de reza indígenas têm se intensificado desde 2020, quando o povo Guarani Kaiowá é o mais atingido. Os incêndios criminosos destroem não apenas estruturas físicas, mas elementos centrais da espiritualidade, como o chiru, objeto sagrado transmitido por gerações e considerado um ser vivo na cultura indígena.
Para reportagem do O Globo, lideranças relatam que a destruição desses espaços representa uma perda profunda, comparável à própria vida e à identidade cultural. As casas de reza também funcionam como locais de ensino, organização social e decisões coletivas, indo muito além de um templo religioso.
Especialistas e indígenas apontam duas principais causas para os ataques: intolerância religiosa, muitas vezes ligada ao avanço de igrejas evangélicas nas aldeias, e conflitos por terra, já que esses espaços são pontos de agrupamento e resistência nas comunidades.
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