21/04/2026 15h48
"Criticar o gesto de Washington pode ser legítimo; transformar o episódio em confronto prolongado, não".
Para o economista Bruno Corano, expulsar agentes americanos pode produzir ganhos políticos de curtíssimo prazo, mas tende a gerar custos relevantes de médio e longo prazo para o Brasil.
Faço duas distinções importantes ao comentar a decisão do governo americano de determinar a saída de um delegado da Polícia Federal envolvido no caso Ramagem.
Em primeiro lugar, é inegável que há um componente político relevante nessa decisão. Trata‑se de um episódio sensível: de um lado, um condenado por tentativa de golpe de Estado no Brasil, de outro, um governo norte-americano com claros alinhamentos políticos internos em relação a esse personagem. Nesse contexto, a forma com a qual os EUA enquadraram a atuação do delegado, falando em “manipulação do sistema de imigração” e “perseguição política”, abre espaço para questionamentos e merece ser analisada com cautela. A leitura de que houve um gesto político, e não apenas técnico, por parte de Washington é compreensível e legítima.
Por outro lado, não me parece inteligente que o Brasil, em especial o governo Lula, transforme esse episódio em um novo ponto de atrito estrutural com os Estados Unidos. O país tem interesses estratégicos muito maiores na relação bilateral, comerciais, financeiros, tecnológicos e de cooperação em segurança, do que este caso específico. Dar sequência à situação, por exemplo com expulsão em retaliação de agentes americanos que atuam em parceria com autoridades brasileiras, pode produzir ganhos políticos de curtíssimo prazo no debate interno, mas tende a gerar custos relevantes de médio e longo prazo para o Brasil.
É possível reconhecer que a atitude do governo americano é discutível e politicamente sensível, sem cair na tentação de usá‑la como combustível para uma crise diplomática. A resposta mais responsável, na minha visão, passa por exigir explicações claras, proteger institucionalmente os agentes brasileiros que atuam de boa‑fé e, ao mesmo tempo, preservar os canais de cooperação que são fundamentais para o interesse nacional. Em suma: criticar o gesto de Washington pode ser legítimo; transformar o episódio em confronto prolongado, não.
Isabel Braga é CEO da Closet BoBags e da BoGo. Ambas priorizam a Economia Circular e o aproveitamento, em respeito ao meio ambiente



