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09/07/2026 11h27
Antes, para ser brasileiro era preciso deixar de ser indígena
Daniel Munduruku fez um apelo para que os povos indígenas do Estado não desistam da luta
Por Clayton Neves
Em Mato Grosso do Sul, região que abriga uma das maiores populações indígenas do Brasil, o escritor e professor Daniel Munduruku fez um apelo para que os povos indígenas do Estado não desistam da luta por reconhecimento e direitos.
Durante a participação na Flib (Feira Literária de Bonito), o autor de mais de 70 livros afirmou que ainda hoje existem manobras para invisibilizar os originários no País e defendeu que a resistência continue firme.
Um dos maiores nomes da literatura indígena brasileira, Daniel é uma importante voz da causa indígena e também ficou conhecido por integrar o elenco da novela Terra e Paixão, da TV Globo. Ao falar aos "parentes" sul-mato-grossenses, como chama outros indígenas, ele pediu firmeza diante das dificuldades.
"A sociedade hegemônica em que a gente vive é uma sociedade da negação. Está o tempo inteiro querendo nos negar. Então eu diria: não desistam. Continuem firmes na sobrevivência, na desobediência e na resiliência. O não a gente já tem. Vamos correr atrás do sim, que é a nossa autoafirmação e a nossa soberania", destacou.
Durante palestra, Daniel lembrou que somente com a Constituição de 1988 os povos indígenas passaram a ser oficialmente reconhecidos como brasileiros sem precisar renunciar às próprias origens.
"O Brasil tem mais de 500 anos de história, mas nós só somos protagonistas dessa história há 38 anos. Antes, para ser brasileiro era preciso deixar de ser indígena", pontuou. Segundo o escritor, essa lógica fazia parte de um projeto histórico de apagamento das culturas originárias.

Escritor conheceu alunos de uma escola indígena de Anastácio durante a Flib. (Foto: Clayton Neves)
Ao longo da conversa, Daniel afirmou que o Brasil foi educado durante séculos para negar os povos indígenas, em uma invisibilização que não aconteceu apenas por meio da violência física, mas também pela desvalorização dos saberes, da espiritualidade e da cultura indígena.
"O Brasil fez muito pouco esforço para conhecer os povos indígenas. Nos ensinaram que o indígena não tinha nada para oferecer ao País e tentaram apagar nossas identidades, línguas e tradições. Já indígenas sempre fizeram um enorme esforço para conhecer o Brasil", afirmou.
Para Munduruku, esse processo alimentou preconceitos que ainda hoje dificultam o reconhecimento da contribuição dos povos originários para a formação da identidade brasileira.
Apesar das marcas deixadas por séculos de exclusão, Daniel acredita que uma mudança importante está em curso. Segundo ele, a presença indígena na literatura, no cinema, nas artes, nas universidades e na produção cultural já não pode mais ser ignorada. "Está acontecendo uma revolução silenciosa, cautelosa e modesta, mas ela está acontecendo", avalia.

Encontro de gerações mostrou a força indígena. (Foto: Elis Regina)
Como exemplo, ele citou o crescimento da participação indígena em curadorias de eventos culturais, na literatura e em espaços de decisão. “Essas presenças transformam a maneira de olhar o território e contar histórias”, acredita.
Daniel também direcionou uma reflexão à população não indígena. Segundo ele, é preciso mais escuta, menos medo e maior compreensão de que todos fazem parte da mesma natureza.
"Somos todos irmãos. As pessoas precisam entender que elas também são natureza. Se continuarmos brigando uns com os outros, vamos nos destruir e a natureza continuará existindo. Precisamos criar a consciência de que somos natureza para manter a vida em sua plenitude”, finaliza.
É possível conferir a programação completa da Flib pelo site, acesse aqui.
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