PUBLICIDADE

Fraudes digitais deixam de ser exceção e viram infraestrutura do e-commerce


PUBLICIDADE
  • mell280

18/07/2026 06h00

Fraudes digitais deixam de ser exceção e viram infraestrutura do e-commerce

Gabriel Moreira


Por Nassor de Oliveira Ramos, Compliance UNICOPAG*

Durante anos, o debate sobre fraudes digitais foi tratado como uma questão de conscientização individual. A recomendação era simples: desconfiar de preços muito baixos, verificar a reputação da loja e evitar decisões impulsivas. Esse conselho continua válido, mas já não explica a dimensão do problema. O que estamos vendo hoje é algo mais profundo. As lojas falsas deixaram de ser iniciativas isoladas de oportunistas para se tornar uma engrenagem eficiente da economia do golpe. O crescimento do comércio eletrônico ampliou oportunidades para empresas legítimas, mas também criou um ambiente onde criminosos conseguem abrir operações fraudulentas com velocidade, alcance e aparência profissional. A facilidade com que essas estruturas surgem não é um acidente do sistema. É consequência de um ecossistema digital que privilegia escala, velocidade e conversão acima de mecanismos robustos de validação.

Os números mostram que a fraude online não está apenas crescendo, mas se consolidando como um dos principais desafios de segurança do país. Dados do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2025, mostram que o Brasil registrou mais de 281 mil casos de estelionato eletrônico em 2024, alta de 17% em relação ao ano anterior. No mesmo período, os registros totais de estelionato ultrapassaram 2,1 milhões de ocorrências. O dado revela uma mudança estrutural na dinâmica do crime. O fraudador deixou de disputar espaço nas ruas e migrou para um ambiente onde o custo operacional é menor, o alcance é exponencialmente maior e as barreiras de entrada são praticamente inexistentes. A criminalidade entendeu antes de muitos setores que a internet oferece escala sem exigir a mesma exposição ao risco.

A percepção de que o consumidor consegue identificar facilmente uma loja fraudulenta também não resiste aos fatos. As fraudes evoluíram porque passaram a utilizar exatamente as mesmas ferramentas empregadas por empresas legítimas. Levantamento do Observatório Lupa, divulgado em 2026, mostrou que 74% dos golpes analisados utilizavam indevidamente a imagem de marcas ou figuras públicas para transmitir credibilidade. O estudo também identificou que uma parcela significativa dessas fraudes direcionava as vítimas para pagamentos instantâneos, reduzindo a possibilidade de contestação. O ponto central não está na ingenuidade do consumidor, mas na profissionalização do golpe. Hoje, anúncios patrocinados, páginas visualmente sofisticadas, avaliações aparentemente autênticas e campanhas altamente segmentadas tornam cada vez mais difícil diferenciar uma operação legítima de uma fraude. A vitrine do golpe deixou de ser o site malfeito. Ela passou a ocupar os mesmos espaços de publicidade e visibilidade utilizados por empresas sérias.

Há quem defenda que o problema poderia ser resolvido apenas com mais educação digital. Essa visão ignora uma realidade desconfortável. Nenhum sistema de proteção pode depender exclusivamente da capacidade de análise do usuário final. Em qualquer mercado maduro, a segurança é uma responsabilidade compartilhada. Quando uma loja falsa consegue anunciar, captar clientes e operar durante semanas antes de ser removida, o problema não está apenas na decisão de compra do consumidor. Está também nos mecanismos de prevenção que falharam ao longo da cadeia. Esse diagnóstico ganha força quando observamos dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), segundo os quais o golpe da falsa venda foi a modalidade de fraude mais reportada pelos clientes das instituições financeiras no primeiro semestre de 2025, somando 174 mil ocorrências e crescimento de 314% em relação ao mesmo período do ano anterior. Uma expansão dessa magnitude não pode ser explicada apenas pela falta de atenção das vítimas. Ela revela um ambiente que continua oferecendo incentivos favoráveis para a atuação dos criminosos.

O problema se agrava porque a economia digital opera sob uma lógica de profunda assimetria. Para uma empresa legítima, construir reputação exige investimento, consistência e tempo. Para uma loja falsa, bastam algumas horas, ferramentas acessíveis e orçamento para impulsionamento de anúncios. Enquanto negócios sérios precisam conquistar credibilidade, fraudadores conseguem alugá-la temporariamente por meio de recursos tecnológicos e estratégias de marketing. A consequência mais preocupante não é apenas o prejuízo financeiro das vítimas. É a erosão gradual da confiança que sustenta o comércio eletrônico. Quando consumidores passam a desconfiar de ofertas legítimas e novos empreendedores enfrentam dificuldades crescentes para gerar credibilidade, toda a dinâmica do mercado é afetada.

Por isso, o debate sobre lojas falsas precisa deixar de ser tratado como um problema de comportamento individual e passar a ser encarado como uma questão de infraestrutura digital. O crescimento da fraude não decorre apenas da criatividade dos criminosos, mas da velocidade com que as ferramentas de venda evoluíram em comparação aos mecanismos de controle. O combate efetivo exige validações mais rigorosas para anunciantes, monitoramento contínuo de comportamentos suspeitos, maior integração entre os diferentes agentes do ecossistema e uma definição mais clara das responsabilidades envolvidas. A discussão central não deveria ser quem responde depois que o golpe acontece, mas por que ainda é tão simples colocá-lo em prática. Enquanto criar uma operação fraudulenta continuar sendo mais fácil do que identificá-la e interrompê-la, o comércio eletrônico seguirá convivendo com um paradoxo perigoso: nunca foi tão fácil vender e comprar, mas também nunca foi tão fácil enganar.

*Com mais de 15 anos de experiência em tecnologia, Nassor de Oliveira Ramos é especialista em segurança da informação, privacidade e proteção de dados, com sólida atuação em compliance e governança corporativa. Atualmente, lidera o setor de compliance da UNICOPAG, onde implementa políticas de conformidade e assegura a integridade das operações.


 

 




PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
  • academia374
  • Nelson Dias12
PUBLICIDADE