- mell280
24/07/2026 13h43
Fim dos CDBs de 120% do CDI acelera migração para crédito estruturado
Com novas regras do FGC reduzindo o espaço para captações agressivas de bancos médios, investidores já começam a migrar para ativos como FIDCs, que cresceram 36,5% em 2026 e se consolidaram como o segundo principal instrumento de captação do mercado de capitais
O investidor brasileiro que se acostumou a encontrar CDBs pagando 115% ou até 120% do CDI está diante de uma mudança estrutural na renda fixa. Levantamento da Quantum mostra que as maiores taxas oferecidas por bancos médios e pequenos ficaram abaixo de 110% do CDI em maio, patamar significativamente inferior ao observado nos últimos anos.
A redução não é um movimento isolado de mercado. Ela reflete um novo ambiente regulatório, marcado pelo endurecimento das regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e por uma maior preocupação das autoridades com modelos de captação excessivamente dependentes da garantia do fundo. A combinação de retornos elevados, baixo esforço de análise e proteção do FGC, que marcou a última década, está se tornando cada vez mais rara.
“O investidor brasileiro viveu por muitos anos uma espécie de anomalia positiva. Era possível encontrar produtos bancários pagando muito acima do CDI e, ao mesmo tempo, contar com a cobertura do FGC. Esse cenário está mudando e o mercado começa a voltar para uma lógica mais aderente ao risco de cada operação”, afirma Richard Ionescu, CEO da butique de crédito IOX.
O reflexo já aparece na indústria de crédito estruturado. Dados da Anbima mostram que os FIDCs captaram R$ 41,7 bilhões entre janeiro e maio deste ano, crescimento de 36,5% em relação ao mesmo período de 2025. O instrumento superou CRIs, CRAs e FIIs em volume captado e registrou 406 emissões no período, consolidando-se como o segundo principal veículo de captação do mercado de capitais brasileiro, atrás apenas das debêntures.
O endurecimento das regras do FGC também deve reduzir distorções no mercado. Durante anos, algumas instituições conseguiram captar volumes relevantes oferecendo taxas muito acima da média, apoiadas na percepção de segurança da cobertura do fundo. Com as novas regras do Banco Central, instituições financeiras que dependem excessivamente de captação coberta pelo FGC passam a enfrentar restrições maiores para sustentar taxas muito acima da média do mercado. O novo indicador de Ativo de Referência exige maior qualidade, liquidez e diversificação dos ativos mantidos pelos bancos, reduzindo o incentivo para estratégias agressivas de captação.
Para a IOX, a tendência é que o mercado entre em uma nova fase da renda fixa, menos baseada em garantias automáticas e mais fundamentada em análise de crédito, governança e transparência. “O fim dos CDBs de 120% do CDI não significa o fim dos retornos atrativos. Significa apenas que o investidor precisará ser mais seletivo. O prêmio continua existindo, mas agora ele exige compreensão de risco, diversificação e escolha criteriosa dos gestores”, conclui Ionescu.
Nesse contexto, os FIDCs surgem como uma alternativa natural para investidores que desejam aumentar o potencial de retorno sem migrar para a renda variável. Diferentemente dos CDBs, esses fundos investem diretamente em recebíveis, como duplicatas, contratos, cartões, crédito consignado, recebíveis mercantis ou outros direitos creditórios, e estruturam mecanismos próprios de proteção, como subordinação de cotas, critérios rigorosos de elegibilidade, monitoramento contínuo da carteira e gatilhos de mitigação de risco.
Para Ionescu, esse é justamente o ponto que diferencia o crédito estruturado de uma simples busca por rentabilidade. “Quando o investidor compra um CDB, ele está assumindo risco bancário. Quando investe em um FIDC, passa a analisar a qualidade dos recebíveis, dos devedores, da estrutura e da gestão. É uma mudança de mentalidade. Um FIDC não deve ser escolhido porque paga mais. Ele deve ser escolhido porque há uma estrutura capaz de justificar aquele retorno. Isso inclui originação qualificada, acompanhamento recorrente da carteira, governança, transparência e capacidade de agir rapidamente quando o risco muda”, explica.
O momento também abre espaço para uma alocação mais diversificada em crédito. Os FIDCs podem complementar a carteira ao oferecer exposição a diferentes cadeias produtivas, empresas e recebíveis, desde que inseridos em uma estratégia compatível com o perfil de risco e horizonte de investimento. “O investidor não precisa abandonar o CDB. O ponto é que ele não deve esperar que o CDB entregue sozinho o mesmo prêmio de antes. Para buscar retorno acima do CDI, será necessário diversificar e fazer uma análise mais profissional do crédito. O erro é tratar todo produto de renda fixa como se fosse igual. CDB, debênture, CRI, CRA e FIDC têm riscos, proteções e dinâmicas muito diferentes”, diz Ionescu.
A avaliação da IOX é que o novo ciclo da renda fixa será menos baseado em garantias automáticas e mais em seleção. Em vez de procurar o maior percentual do CDI, investidores precisarão observar a qualidade da estrutura, a capacidade da gestora, os mecanismos de proteção e a transparência das informações. “O retorno fácil ficou mais raro. A boa notícia é que ainda existem oportunidades relevantes em crédito, mas elas exigem método. O diferencial agora será separar risco mal remunerado de risco bem estruturado”, conclui Ionescu.
Sobre a IOX
A IOX é uma butique de crédito que atua na estruturação, originação e gestão de soluções de crédito privado, com foco em operações financeiras voltadas a empresas e cadeias produtivas regionais. Por meio de tecnologia, análise de crédito e relacionamento com cedentes e sacados, a companhia busca ampliar o acesso a capital para negócios em diferentes setores da economia.


