- mell280
30/07/2026 08h03
Seguro: o custo que muitos evitam pagar, mas que pode garantir a estabilidade financeira da família
Especialista explica por que seguros ainda enfrentam resistência no Brasil e como a proteção patrimonial pode evitar que imprevistos se transformem em crises financeiras para famílias e empreendedores
O brasileiro costuma acreditar que os problemas acontecem sempre com os outros. Um acidente, uma doença incapacitante, um incêndio ou um roubo parecem eventos distantes, até que se tornem realidade. Essa percepção ajuda a explicar por que o mercado de seguros ainda enfrenta resistência no país, mesmo diante da crescente preocupação das famílias com segurança financeira e proteção patrimonial.
Embora a população reconheça a importância da prevenção financeira, a contratação de seguros ainda avança de forma lenta. Pesquisa Datafolha encomendada pela Planejar (Associação Brasileira de Planejamento Financeiro) mostra que 58% dos brasileiros preferem pagar um valor menor e recorrente por um seguro a arcar com uma despesa elevada de uma só vez em caso de imprevisto. Ainda assim, apenas 18% afirmam possuir seguro de vida ou contra acidentes, enquanto somente 14% contam com seguro residencial.
Para a empresária e especialista em planejamento financeiro Patrícia Aiello, fundadora e CEO do Grupo Altros, empresa especializada em expansão e estruturação estratégica para o ecossistema financeiro, o seguro ainda é visto de maneira equivocada por boa parte da população.
“Quando falamos de planejamento financeiro, muitas pessoas pensam imediatamente em investimentos e construção de patrimônio. Mas antes de buscar rentabilidade, é fundamental proteger aquilo que já foi conquistado. O seguro funciona como uma barreira de proteção contra eventos que podem comprometer anos de esforço financeiro”, afirma Patrícia.
A executiva explica que a resistência cultural aos seguros está ligada à baixa percepção de risco e à dificuldade de enxergar o impacto financeiro de situações inesperadas. Segundo estudos da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg), os principais fatores para a baixa adesão aos seguros no Brasil incluem falta de educação financeira, linguagem técnica considerada complexa, limitações orçamentárias e a crença de que determinados acontecimentos dificilmente irão ocorrer.
“O seguro sofre de um paradoxo interessante: é o único produto que as pessoas compram esperando nunca utilizar. Quando o sinistro não acontece, muitos sentem que desperdiçaram dinheiro. Mas o valor do seguro está justamente na tranquilidade e na proteção que ele oferece durante todo o período de vigência”, destaca.
A proteção que complementa a reserva de emergência
Especialistas costumam defender a reserva de emergência, um valor guardado para lidar com imprevistos do dia a dia, como desemprego, problemas de saúde, consertos no carro ou despesas inesperadas na casa, como o primeiro passo da organização financeira. No entanto, esse recurso nem sempre é suficiente para absorver eventos de grande impacto, como um incêndio, um acidente grave, uma invalidez ou a perda total de um patrimônio.
“A reserva financeira é importante para dar estabilidade em momentos inesperados, mas há situações que podem comprometer anos de construção patrimonial. O seguro entra justamente para proteger o que seria muito difícil reconstruir apenas com recursos próprios”, explica Patrícia.
Segundo a especialista, a combinação entre reserva de emergência e seguros adequados cria uma estrutura financeira mais resiliente para famílias e empreendedores. O comportamento financeiro também tende a ser mais organizado entre pessoas que possuem algum tipo de proteção. Dados da própria pesquisa da Planejar mostram que 91% dos segurados afirmam pensar na formação de uma reserva financeira para emergências, e 68% já iniciaram uma poupança com esse objetivo.
“Quem compreende a importância de proteger o patrimônio geralmente também entende a necessidade de construir reservas e investir para o futuro. Não se trata de escolher entre seguro ou investimento. As duas estratégias fazem parte de um planejamento financeiro equilibrado”, complementa.
O impacto dos imprevistos no orçamento familiar
A ausência de proteção pode gerar consequências severas para o orçamento das famílias. Em situações de invalidez, falecimento do principal provedor, acidentes ou danos significativos ao patrimônio, muitas pessoas acabam recorrendo a empréstimos, venda de bens ou endividamento de longo prazo para conseguir reorganizar a vida financeira.
“Uma única ocorrência pode destruir um planejamento construído ao longo de décadas. O seguro não elimina o impacto emocional causado por uma tragédia, mas evita que ela se transforme também em uma crise financeira”, diz Patrícia.
O cenário ajuda a explicar o crescimento do setor nos últimos anos. Dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) apontam que a arrecadação dos seguros de pessoas alcançou R$ 72,7 bilhões em 2024. O seguro de vida tem liderado esse movimento, registrando expansão superior a 12% em 2025, segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep). Apesar disso, cerca de 82% dos brasileiros ainda não possuem seguro de vida.
Para Patrícia, esse dado revela uma contradição importante no comportamento financeiro da população. “Existe uma preocupação crescente com estabilidade financeira e proteção familiar, mas ainda falta transformar essa preocupação em ação prática. Muitas pessoas só percebem a importância do seguro depois de enfrentar uma situação crítica.”
Como identificar os principais riscos financeiros
Antes de contratar qualquer apólice, a especialista recomenda que famílias e empreendedores façam uma avaliação simples das vulnerabilidades financeiras da rotina. Algumas perguntas podem ajudar nesse processo:
- Se o principal provedor da família falecer hoje, como as despesas seriam pagas nos próximos meses?
- Se uma doença impedir alguém de trabalhar temporariamente, existe uma fonte alternativa de renda?
- Em caso de perda total do veículo ou danos causados a terceiros, o orçamento suportaria os custos?
- Se houver danos ao imóvel, a família teria recursos para reconstrução ou reparos?
“As respostas mostram onde estão as maiores vulnerabilidades financeiras. A partir daí, é possível entender quais proteções devem ser priorizadas dentro da realidade de cada família”, orienta.
Outro movimento que vem ampliando o interesse do público é o crescimento dos seguros com componente financeiro, como o seguro de vida resgatável. Diferentemente das modalidades tradicionais, esse modelo permite recuperar parte dos valores pagos ao final do contrato, conforme as regras da apólice.
“Para muitas pessoas, essa modalidade reduz a sensação de que o dinheiro foi perdido. Além da proteção financeira durante a vigência do seguro, existe a possibilidade de formação de uma reserva futura”, explica Patrícia.
Embora o brasileiro reconheça cada vez mais a importância da segurança financeira, a contratação de seguros ainda enfrenta barreiras culturais e econômicas. Para a especialista, superar a lógica do “isso nunca vai acontecer comigo” é um passo importante para fortalecer a saúde financeira das famílias no longo prazo.
“O planejamento financeiro eficiente não depende da sorte. Ele é construído com prevenção, proteção e visão de longo prazo. O seguro faz parte desse processo porque permite enfrentar grandes riscos sem comprometer a estabilidade financeira da família”, conclui.
Sobre Patrícia Aiello
Patrícia Aiello é executiva do mercado financeiro com mais de 20 anos de experiência em instituições como Itaú Personnalité, Modal Premium e Warren Investimentos, onde liderou equipes comerciais, expansão de negócios e estratégias de crescimento. É fundadora e CEO do Grupo Altros, empresa especializada em expansão e estruturação estratégica para o ecossistema financeiro, e presidente do Instituto Brasil Inovação, organização dedicada à educação financeira, economia digital e certificações profissionais.
Também é cofundadora do projeto Elas Tokenizam, iniciativa voltada à autonomia econômica feminina por meio de educação financeira, tecnologia e tokenização de ativos. Sua formação inclui estudos em tecnologias disruptivas pelo Massachusetts Institute of Technology, além de especializações em marketing digital, economia comportamental e liderança ágil.


