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Antes do silêncio, que a gente aprenda a ouvir!


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08/08/2026 06h22 - Atualizado em 08/08/2026 07h25

Antes do silêncio, que a gente aprenda a ouvir!

Hosana de Lourdes


Há dores que não fazem barulho.

Há pessoas que continuam trabalhando, estudando, saindo de casa, conversando, sorrindo e convivendo normalmente, enquanto, por dentro, enfrentam batalhas que quase ninguém consegue enxergar.

 

Os acontecimentos recentes em Maracaju, envolvendo a perda de jovens, nos colocam diante de uma reflexão que não pode ser adiada. Não para procurar culpados, não para fazer julgamentos e muito menos para expor histórias que pertencem às famílias. Mas para lembrar que, diante de uma vida, todo cuidado importa.

 

Maracaju é uma cidade forte. É uma cidade do agro, do trabalho, das oportunidades, que cresce e se destaca em Mato Grosso do Sul. Estamos a 161 quilômetros da Capital, Campo Grande, e temos uma comunidade que se conhece, que se encontra, que convive.

 

E talvez justamente por isso precisemos olhar um pouco mais uns pelos outros.

Não sou psicóloga e não escrevo estas palavras como especialista. Escrevo como jornalista, como mulher e, principalmente, como mãe.

Sou mãe de três filhas e sei o quanto a maternidade nos ensina a observar, a cuidar, a perceber mudanças, a tentar proteger mesmo quando não temos todas as respostas. Criei minhas filhas praticamente sozinha e, talvez por isso, tenha aprendido ainda mais sobre a responsabilidade e o peso que é cuidar de alguém que amamos.

Não consigo imaginar a dimensão da dor de uma mãe, de um pai ou de uma família que perde um filho. Não sei o que é atravessar um luto dessa natureza — e sinceramente espero nunca precisar saber.

Mas sei que perder alguém que amamos não deve ser fácil para ninguém.

E é justamente por isso que acredito que o cuidado precisa acontecer antes da despedida.

Não estou falando apenas de pai e mãe. Estou falando de irmãos, filhos, parentes, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, professores, companheiros de caminhada, pessoas que cruzam diariamente o nosso caminho.

Às vezes, quem está mais próximo percebe uma mudança antes mesmo de a própria pessoa conseguir explicar o que está acontecendo.

Um isolamento que não era habitual. Uma mudança brusca de comportamento. A perda de interesse por coisas que antes faziam sentido. Um silêncio diferente. Uma tristeza persistente. Frases que parecem apenas desabafo, mas que merecem ser levadas a sério.

Talvez não tenhamos respostas. Talvez não saibamos exatamente o que dizer.

Mas podemos perguntar:

“Você está bem?”

E, principalmente, podemos parar para ouvir a resposta.

Vivemos tempos em que todo mundo parece estar com pressa. Temos pressa para trabalhar, para produzir, para cumprir compromissos, para responder mensagens. Muitas vezes, temos até pressa para dar conselhos.

Mas algumas pessoas não precisam de um conselho naquele momento. Precisam de presença.

Precisam saber que alguém percebeu que elas não estão bem. Que alguém se importa. Que podem falar sem medo de serem julgadas. Que pedir ajuda não é sinal de fraqueza.

E há uma diferença enorme entre perguntar por educação e perguntar porque realmente queremos saber.

É preciso cuidar de quem colocamos no mundo, mas também de quem encontramos pelo caminho. Porque ninguém atravessa a vida sozinho, mesmo quando tem a impressão de estar.

Depois que a tragédia acontece, vêm o choque, as perguntas sem respostas, o abraço apertado, as lágrimas, o luto e aquela dolorosa sensação de que talvez alguma coisa pudesse ter sido feita.

Nem sempre poderia.

Nem sempre os sinais são claros.

Nem sempre alguém consegue perceber o tamanho da dor de outra pessoa.

Mas isso não significa que devemos deixar de tentar.

Se percebermos que alguém está diferente, que alguma coisa saiu do lugar, que uma pessoa querida está sofrendo, não devemos ignorar.

Aproxime-se. Pergunte. Escute. Ofereça companhia. Incentive a busca por ajuda profissional. Se houver risco imediato, procure os serviços de emergência e não deixe a pessoa sozinha.

Não precisamos ser especialistas para demonstrar cuidado.

Precisamos ser humanos.

Que os acontecimentos recentes não sejam apenas mais uma notícia que passa pela nossa timeline e desaparece no dia seguinte.

Que sirvam para nos lembrar de algo muito maior: vidas importam antes da despedida.

Que a gente aprenda a olhar enquanto ainda há tempo.

Que a gente aprenda a ouvir antes que o silêncio seja definitivo.

E que, em uma cidade forte como Maracaju, a nossa maior força também possa estar na capacidade de cuidar uns dos outros.

Porque, muitas vezes, um simples “estou aqui” pode parecer pouco.

Mas para quem está atravessando uma tempestade, saber que não está sozinho pode significar muito.

Por quem amamos. Por quem conhecemos. Por quem trabalha ao nosso lado. Por quem cruza o nosso caminho. Por todos nós.

Antes da dor do luto, que exista a coragem do cuidado.

 
 
#Hosana de Lourdes, jornalista DRT 483/MS  portal tudodoms.




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