Apesar do elevado valor nutricional e do potencial agronômico, as Pancs ainda têm participação limitada no mercado brasileiro e poucas cadeias produtivas estruturadas. Resultado de parceria público-privada entre a Embrapa Hortaliças e a Isla Sementes, as cultivares de bertalha e caruru buscam ampliar a oferta desses alimentos. Novos materiais desse grupo, como almeirão-roxo e vinagreira, deverão ser lançados nos próximos anos.
| Lançamento As cultivares serão lançadas durante a 31ª Exposição Técnica de Horticultura, Cultivo Protegido e Culturas Intensivas (31ª Hortitec), que ocorrerá de 17 a 19 de junho de 2026, no Pavilhão de Exposições da Expoflora, em Holambra (SP). Trata-se de uma das principais feiras do setor na América Latina por reunir centenas de expositores focados em inovação, agronegócio e tecnologia para o campo. A Hortitec abrange toda a cadeia produtiva de hortaliças, além de flores, frutas e culturas intensivas. |
O pesquisador Nuno Madeira, responsável pelo trabalho, afirma que a oferta dessas cultivares, aliada à indicação de sistemas de produção, deve ampliar o cultivo, a comercialização e o consumo das hortaliças não convencionais. “A expectativa é fortalecer a presença das Pancs na agricultura familiar e no contexto da agricultura urbana, seja em quintais produtivos, hortas domésticas ou escolares, para além do extrativismo e dos cultivos ocasionais ou regionais, como é o caso da bertalha no Rio de Janeiro”, diz.
Madeira ressalta que, além da oferta de sementes de qualidade, o lançamento contribui para dar visibilidade a um grupo de plantas que reúne espécies de alto valor nutricional e grande potencial para diversificar a alimentação. “Vale evidenciar que esse trabalho científico também reconhece e valoriza os conhecimentos acumulados por comunidades tradicionais ao longo de gerações”, complementa.
| O que são Pancs? As Pancs são espécies pouco conhecidas e com alto potencial alimentar que ainda não contam com uma cadeia produtiva amplamente estruturada. Além de nutritivas, apresentam resiliência frente aos efeitos das mudanças do clima, resistência a pragas e doenças e baixa necessidade de insumos. Essas propriedades foram desenvolvidas ao longo de séculos de evolução e seleção natural. “Essas plantas passaram por um longo processo natural de adaptação ao meio ambiente. A capacidade de resistir a pragas, doenças e outras condições adversas está relacionada à produção de metabólitos secundários, substâncias que ajudam na defesa da planta. Muitos desses metabólitos também atuam como compostos funcionais, associados a benefícios para a saúde humana”, explica Madeira. Nesse contexto, as Pancs oferecem vantagens para agricultores e consumidores. Para quem produz, representam culturas adaptadas a diferentes regiões e sistemas de cultivo, com manejo mais simples, menor demanda por insumos e produção durante boa parte do ano. Para o consumidor, essas espécies alimentares ampliam a diversidade de hortaliças disponíveis, oferecem alimentos nutritivos e facilitam o cultivo em espaços urbanos. As Pancs também estão associadas à culinária tradicional de diferentes regiões e grupos culturais, integrando receitas e preparações transmitidas entre gerações. Muitas dessas espécies ocorrem de forma espontânea ou possuem consumo restrito a determinadas localidades, embora apresentem elevado potencial alimentar e nutricional. |
| Bertalha ‘BRS Tereverde’ mantém produção até 40° C A ‘BRS Tereverde’ é a primeira cultivar de bertalha (Basella alba L. e Basella rubra L.) com elevada produtividade e padrão visual. A cultivar foi obtida por meio da seleção massal de plantas de variedades locais cultivadas em Teresópolis (RJ), onde a espécie é cultivada há gerações e provavelmente foi introduzida da Índia durante o período da colonização portuguesa, e em Santa Isabel (PA). A nova cultivar surge como alternativa para a produção de hortaliças folhosas durante os meses mais quentes do ano. No Rio de Janeiro, estado responsável por cerca de 90% da produção nacional de bertalha, as lavouras comerciais concentram-se em municípios da Baixada Fluminense durante o inverno. Já na região serrana, a espécie é cultivada no verão. A bertalha apresenta boa adaptação a temperaturas de até 35 °C e até mesmo 40 °C. |
| Caruru ‘BRS Ilekalu’ mostra elevado teor de proteínas A ‘BRS Ilekalu’ (Amaranthus cruentus) é a primeira cultivar de caruru selecionada especificamente para consumo como hortaliça folhosa. Nativo da América Central e da região Andina, o caruru apresenta ampla variabilidade genética, característica que exigiu um processo sistemático de seleção dos materiais. “Foram realizadas diversas avaliações e, a cada ciclo, selecionamos as plantas mais saudáveis, vigorosas, produtivas e com características desejáveis, como folhas tenras e de maior tamanho”, relata Madeira. Um dos principais destaques da cultivar é o elevado teor de proteínas, que alcança 33,8% nas folhas. |
Novas cultivares a caminho
Em virtude das características das Pancs, a recomendação é voltada para cultivos de base agroecológica ou de transição agroecológica. Madeira reforça que, para além do potencial de cada nova cultivar, a força das Pancs está na possibilidade de plantio integrado com outras culturas em um mesmo espaço de cultivo. “A parceria com a Isla Sementes é fundamental para oferecer cultivares de diferentes espécies e incentivar a formação de hortas biodiversas, especialmente em ambientes urbanos, domésticos e institucionais”, enfatiza.
A ‘BRS Tereverde’ e a ‘BRS Ilekalu’ são as primeiras de uma série de cultivares previstas no âmbito da parceria entre as instituições. A expectativa é que outras variedades de hortaliças Panc sejam lançadas nos próximos dois anos. Para a Isla Sementes, a iniciativa está alinhada aos valores da empresa de atender diferentes perfis de público, promover a inovação e oferecer tecnologias associadas à sustentabilidade econômica e ambiental.
“As novas variedades vêm para agregar valor ao nosso portfólio que já contempla outras espécies de Panc, como a capuchinha e a mostarda. Os clientes já estão familiarizados com a diversidade e a exclusividade dessa linha de produtos e, certamente, essas novas cultivares terão excelente aceitação”, observa o diretor de Planejamento Estratégico da empresa, Andrei Santos.
| Da pesquisa à divulgação O trabalho da Embrapa com as hortaliças Panc vai além da conservação de recursos genéticos e do desenvolvimento de cultivares. Como parte da estratégia de valorização dessas espécies, a instituição promove, anualmente, o Encontro Nacional de Hortaliças Não Convencionais (HortPANC), criado para difundir conhecimento, estimular o cultivo e ampliar a visibilidade e o consumo dessas plantas entre agricultores, consumidores, comunidade científica e profissionais de áreas como nutrição e gastronomia. A primeira edição foi realizada na Embrapa Hortaliças em 2017 e, desde então, o evento passou por diversas cidades brasileiras. A 10ª edição está prevista para o ano que vem, em Salvador (BA). Além de palestras, apresentações de trabalhos acadêmicos e relatos de experiências populares, a programação inclui tradicionalmente um dia de campo, quando os participantes têm a oportunidade de conhecer diferentes espécies e seus sistemas de cultivo. “Esses eventos são muito ricos e, a cada edição, avançamos na construção de conhecimento, troca de experiências e interação entre produtores e a sociedade. Além disso, eles contribuem para iniciativas como a realização de feiras e até o fornecimento de hortaliças Panc para escolas”, pontua Madeira. |
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