11/08/2026 11h16
Tom dovish mantém a porta aberta para setembro - Galapagos Capital
Comentário - Ata do Copom - Galapagos Capital
A nosso ver, a ata de agosto trouxe um tom ligeiramente "dovish", em particular na descrição da evolução da atividade econômica. Segundo a ata, (i) a atividade entrou em momento de “inflexão no ciclo econômico”, (ii) com desaceleração “disseminada entre os componentes de oferta e demanda”; (iii) no mercado de trabalho o desemprego segue baixo, mas “o crescimento da taxa de ocupação vem apresentando desaceleração” e os rendimentos “desaceleraram na margem”. Como já se sabia do comunicado, o balanço de riscos foi mantido com assimetria altista explícita e há um grau de maior atenção com a desancoragem das expectativas, apesar da ata ter sinalizado também que há um debate sobre as causas dessa deterioração. Nada disso, porém, impediu o comitê de afrouxar a política monetária na última reunião. No conjunto, a comunicação recente mostra uma postura dependente de dados e mantém aberta a possibilidade de um novo corte da Selic em setembro.
Atividade econômica: Moderação disseminada. A ata descreve uma “moderação gradual da atividade econômica, embora ainda em patamar resiliente, com sinais mistos entre setores”, e a seção de riscos confirma “desaceleração na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2026, disseminada entre os componentes de oferta e demanda”. No mercado de trabalho, a inflexão de tom é o dado: o desemprego segue em mínimas, mas a taxa de ocupação “vem apresentando desaceleração” e os rendimentos “desaceleraram na margem, mesmo em termos nominais”. A leitura de resiliência plena de junho cedeu a sinais incipientes de acomodação, um sinal relevante porque o mercado de trabalho era um dos principais argumentos do lado "hawkish" do discurso do comitê.
Inflação e expectativas: O teto ficou para trás. Em junho o IPCA cheio havia rompido o limite superior da meta; na ata de agosto, desacelerou e as medidas subjacentes recuaram para “nível ligeiramente abaixo do limite superior da meta”. Em ligeiro contraponto, a ata reconhece que os preços ao produtor recuaram, ainda que sob forte influência da indústria extrativa, com a transformação mostrando “ligeira elevação”. Nas expectativas, a leitura do quadro pareceu misto: Focus 2026 caiu de 5,30% para 5,0%, enquanto 2027 subiu marginalmente de 4,10% para 4,2%. A mudança de linguagem foi o sinal mais aparente: a conclusão unânime de que expectativas desancoradas exigem “restrição maior e por mais tempo” foi mantida. Mas, se, por um lado, o Comitê passou a falar em “reancoragem”, por outro, “tem debatido as possíveis causas" do movimento das expectativas.
Balanço de riscos: Assimetria altista, sem novidade. Ao contrário de junho, quando a assimetria altista foi a revelação central, a ata de agosto apenas a repete com um texto praticamente idêntico, quatro vetores de alta contra três de baixa. Mantidos os riscos altistas de desancoragem prolongada com efeitos de segunda ordem, resiliência de serviços por hiato positivo, câmbio depreciado e o risco (iv) de estímulos à demanda acima do potencial. Os baixistas seguem os mesmos três. A estabilidade é, em si, potencialmente informativa: o Comitê não retirou a assimetria altista apesar da melhora da inflação corrente, sinalizando que a cautela prospectiva sobre expectativas e efeitos dos choques de oferta permanece. Dito isso, no seu conjunto, essa avaliação não tem impedido o afrouxamento adicional da política monetária.
Função de reação: O ciclo de pausa-e-retomada saiu de cena. A comunicação de agosto foi simplificada. Sumiu toda a modelagem elaborada de trajetórias alternativas: o debate sobre “diferentes momentos de pausa e retomada”. No lugar, vieram três parágrafos diretos: a transmissão da política contracionista “tem se acumulado gradualmente”; choques de oferta exigem “não reagir aos efeitos primários”, mas “reagir com firmeza” a efeitos de segunda ordem caso se materializem; e a “magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário”. Em outras palavras, o Comitê manteve a postura de lookthrough de choques de oferta, mas sem a linguagem (defensiva) de junho, e o guidance ficou genuinamente dependente de dados.
“Bottom line”: data-dependent, com setembro em aberto. Com a inflação subjacente abaixo do teto, projeção do horizonte relevante perto da meta e a comentada inflexão no mercado de trabalho vemos provável espaço na visão do Copom para outro corte de 25bps em setembro. De fato, como já tínhamos percebido no comunicado, o Comitê não se comprometeu com pausa, e a assimetria altista preservada no balanço de riscos não tem sido fator impeditivo para flexibilização. Seguimos atentos aos próximos dados de inflação, expectativas e, particularmente, à confirmação de um cenário de inflexão da atividade discutido pelo comitê a fim de calibrar o veredito de setembro.



