- mell280
28/08/2026 15h04
Retaliar ou negociar? O desafio do Brasil diante da tarifa dos EUA
Retaliar ou negociar? O desafio do Brasil diante da tarifa dos EUA
Diante da nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos, o Brasil deve defender seus interesses sem transformar uma resposta legítima em uma escalada que penalize empresas, cadeias produtivas e consumidores.
A entrada em vigor, em 22 de julho de 2026, de uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos abre um novo capítulo de tensão na relação comercial entre os dois países. A medida foi adotada pelo governo norte-americano após investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos ( USTR) sobre temas que incluem comércio digital, meios eletrônicos de pagamento, propriedade intelectual, etanol e questões ambientais.
Independentemente das justificativas apresentadas pelo governo americano, o impacto para o setor produtivo brasileiro é real. Segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a nova tarifa alcança aproximadamente US$ 11 bilhões em exportações e 26,2% das vendas brasileiras ao mercado norte-americano. Setores como máquinas e equipamentos, madeira, papel e celulose, calçados, têxteis, etanol e outros produtos manufaturados podem perder competitividade de forma imediata. Para empresas que construíram relações comerciais de longo prazo, não se trata apenas de vender menos, mas de correr o risco de perder clientes, contratos e espaços difíceis de recuperar.
Nesse contexto, a possível aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica é legítima e necessária como instrumento de defesa. A Lei nº 15.122, sancionada em 2025, permite ao Brasil suspender concessões comerciais, compromissos relacionados a investimentos e determinadas obrigações de propriedade intelectual diante de medidas unilaterais que prejudiquem a competitividade do país ou interfiram em suas escolhas soberanas. A legislação não obriga o governo a responder de maneira idêntica, mas cria respaldo para a adoção de contramedidas proporcionais.
Ter esse instrumento disponível fortalece a posição brasileira à mesa de negociação. Um país que não dispõe de mecanismos de reação tende a negociar em condições desfavoráveis. Ao mesmo tempo, reciprocidade não deve ser confundida com uma resposta imediata baseada na lógica do “olho por olho”. Elevar tarifas sobre produtos norte-americanos sem avaliar os efeitos internos pode atingir matérias-primas, máquinas, componentes, tecnologias e serviços utilizados pelas próprias empresas brasileiras. O custo da disputa acabaria distribuído por toda a cadeia e poderia chegar ao consumidor.
Por isso, a decisão precisa ser técnica, seletiva e orientada por impacto. Antes de qualquer contramedida, o governo deve ouvir os setores produtivos, mapear dependências, identificar alternativas de fornecimento e calcular quem realmente absorverá o custo. Uma tarifa de resposta que encarece um insumo sem produção equivalente no Brasil pode enfraquecer justamente a indústria que se pretende proteger. Firmeza comercial não é sinônimo de agir sem considerar consequências.
Também é importante preservar os canais diplomáticos e utilizar os mecanismos multilaterais disponíveis. A busca por uma solução negociada e o recurso à Organização Mundial do Comércio não demonstram fragilidade; demonstram maturidade institucional. A Lei da Reciprocidade pode funcionar como elemento de dissuasão enquanto o Brasil mantém o diálogo, apresenta argumentos técnicos e mobiliza empresas norte-americanas que também serão afetadas pelo aumento dos custos e pela redução do comércio bilateral.
A resposta, contudo, não pode se limitar ao debate tarifário. Empresas exportadoras precisam de apoio para atravessar o período de instabilidade. Linhas de crédito, garantias, mecanismos de seguro, apoio à manutenção de empregos e medidas que facilitem a adaptação produtiva são importantes no curto prazo. Mas a agenda mais estratégica é a diversificação. A dependência excessiva de um único destino deixa empresas e setores vulneráveis a decisões políticas que estão fora de seu controle.
Diversificar mercados não acontece de um dia para o outro. Exige inteligência comercial, adequação de produtos, certificações, logística, presença local e construção de confiança. Por isso, a crise atual também deve acelerar uma política permanente de abertura de mercados e fortalecimento da competitividade. O Brasil precisa transformar sua capacidade produtiva em presença internacional mais ampla, com maior valor agregado e menor exposição a choques concentrados.
Para as empresas, o episódio reforça a importância de tratar riscos geopolíticos e comerciais como parte da estratégia. Cenários tarifários, concentração de clientes, rotas alternativas e exposição cambial precisam entrar nas decisões de investimento. Inovação também tem um papel relevante: pode apoiar a criação de novos produtos, adaptações para outros mercados e modelos de negócio menos dependentes de uma única relação comercial.
Na minha avaliação, o Brasil deve manter a Lei da Reciprocidade pronta para ser utilizada, com medidas proporcionais e cuidadosamente escolhidas, caso o diálogo não produza resultados. Não responder nunca seria um sinal de fragilidade; responder de forma precipitada também seria um erro. O melhor caminho é combinar defesa dos interesses nacionais, apoio às empresas, diversificação de mercados e negociação firme.
Mais do que decidir se deve ou não retaliar, o país precisa definir qual resultado pretende alcançar. A reciprocidade será bem-sucedida se contribuir para corrigir uma relação desequilibrada e reabrir o caminho da negociação. Se produzir apenas novas barreiras e mais custos dos dois lados, todos perderão. Em uma economia global marcada por incertezas, soberania também significa saber reagir com estratégia.
*Ana Paula Debiazi é CEO da Leonora Ventures, corporate venture builder catarinense, que tem a missão de impulsionar o crescimento de startups que atuam com tecnologias inovadoras no setor de varejo, logística e educação. - E-mail: leonoraventures@nbpress.com.br.
Sobre a Leonora Ventures
A Leonora Ventures é uma corporate venture builder catarinense, que tem a missão de impulsionar o crescimento de startups que atuam no setor de varejo, logística e educação. Uma iniciativa do Grupo Leonora, empresa que está presente no mercado desde 1984, sendo a maior distribuidora de produtos de papelaria do Brasil, a Leonora Ventures é mão na massa e eleva o potencial escalável das startups em que atua. Para mais informações, acesse: https://leonoraventures.com.br/ ou @leonoraventures.


