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- mell280
12/09/2026 06h31
Formação profissional abre caminhos para jovens de MS
Rede estadual reúne mais de 50 mil estudantes na educação profissional
Leonardo Rocha
Aos 17 anos, Rafaela Gomes Leite conciliou escola e primeiro emprego por meio do Programa de Aprendizagem Profissional. Em Mato Grosso do Sul, mais de 50 mil estudantes participam da educação profissional da rede estadual. A gestão de Eduardo Riedel aposta em cursos definidos conforme as demandas regionais e na aproximação com empresas. O desafio é ampliar o PAP e acompanhar a inserção desses jovens no mercado.
Aos 17 anos, Rafaela Gomes Leite queria começar a trabalhar, mas havia uma condição importante: o primeiro emprego não poderia atrapalhar os estudos. Aluna da Escola Estadual Hércules Maymone, em Campo Grande, ela não queria trocar o horário das aulas pelo período noturno apenas para conseguir uma oportunidade profissional.
Foi no Programa de Aprendizagem Profissional (PAP) que encontrou uma saída. Hoje, Rafaela é menor aprendiz em uma empresa que produz e comercializa sorvetes e consegue conciliar a rotina escolar com o trabalho. A experiência ajuda a traduzir uma das apostas da gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição: aproximar a educação pública do mercado de trabalho sem retirar o jovem da escola.
“Sempre gostei muito de estudar, tirar notas boas e trabalhar era uma vontade, de forma que não atrapalhasse meus estudos. Com o projeto do PAP, tive a oportunidade de ter um emprego sem intervir no horário escolar e, principalmente, sem ter que estudar no período noturno”, conta Rafaela.
A mudança também é percebida dentro de casa. Giliane, mãe da estudante, observa que a filha passou a lidar diretamente com o próprio dinheiro. “Além da experiência profissional, agora ela administra as próprias finanças e isso é motivo de muito orgulho”, afirma.
A história de Rafaela toca em uma dificuldade conhecida de quem chega ao fim da adolescência: muitas vagas exigem experiência justamente de quem ainda procura a primeira oportunidade. Para jovens que precisam trabalhar e, ao mesmo tempo, concluir os estudos, essa passagem entre escola e mercado pode significar currículos recusados, informalidade ou a necessidade de escolher entre emprego e formação.
Em Mato Grosso do Sul, a educação profissional da Rede Estadual de Ensino chegou a 2026 com mais de 50 mil estudantes, considerando cursos, itinerários e outras modalidades de qualificação. A proposta do Governo do Estado é utilizar essa estrutura para reduzir a distância entre a escola e as oportunidades geradas pela economia sul-mato-grossense.
“O objetivo é permitir que o estudante conclua a educação básica com conhecimentos profissionais, qualificação reconhecida e alguma experiência prática, ampliando suas condições de entrada no mercado”, afirma Riedel.
Da teoria ao cotidiano das empresas
A educação profissional oferece formações em áreas como administração, logística, informática, ciência de dados, mecatrônica, agronegócio e recursos humanos. No PAP, parte desse aprendizado ultrapassa os portões da escola e chega às empresas.
O programa atende estudantes de 14 a 24 anos matriculados no ensino médio com formação técnica e profissional. Para pessoas com deficiência, não há limite máximo de idade.
A formação mínima é de 1.200 horas: 400 de conteúdo teórico na escola e 800 de prática na empresa. O contrato pode durar até 24 meses e garante carteira assinada, remuneração proporcional, FGTS, vale-transporte e 13º salário.
É nesse modelo que Rafaela consegue experimentar uma rotina profissional sem abandonar os estudos. Além do salário, a aprendizagem coloca o jovem diante de responsabilidades como horários, organização e convivência no ambiente de trabalho — experiências que normalmente só seriam adquiridas depois da contratação.
No balanço divulgado em 2025, o PAP reunia 323 jovens aprendizes em Campo Grande, Três Lagoas e Chapadão do Sul. Em março daquele ano, dez estudantes da Escola Estadual Professor João Magiano Pinto, em Três Lagoas, foram contratados por empresas e instituições parceiras. Entre eles estavam alunos das áreas de administração e ciência de dados, além de um estudante surdo.
O número mostra, ao mesmo tempo, a existência de uma porta de entrada e o tamanho do desafio. Embora a educação profissional alcance dezenas de milhares de estudantes, a quantidade daqueles inseridos diretamente em empresas pelo programa de aprendizagem ainda é menor e concentrada em poucos municípios.
Formação pensada a partir de cada região
Para tentar aproximar os cursos das oportunidades existentes, a Secretaria de Estado de Educação (SED-MS) afirma que a definição das formações oferecidas considera as características econômicas de cada município.
Segundo o superintendente de Modalidades e Programas Educacionais da SED, Davi Santos, o planejamento é feito por meio do programa Primeiro Passo, com participação de representantes do poder público, setor produtivo e comunidade escolar.
“O planejamento dos cursos nasce dentro dos próprios municípios. Nossa equipe percorre todo o Estado para ouvir as demandas locais de formação profissional e identificar quais qualificações podem contribuir para o desenvolvimento de cada região”, explica.
As discussões reúnem prefeituras, empresários, sindicatos rurais, associações comerciais e diretores de escolas estaduais. A partir dessas informações, é elaborado o Guia de Definição de Oferta, que orienta quais cursos serão implantados em cada localidade e período.
A versão utilizada para a implantação dos cursos em 2026 foi baseada em levantamento realizado em 2025. Além das informações apresentadas pelos municípios, a Secretaria afirma consultar indicadores como a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
“Também consultamos dados do Ministério do Trabalho para identificar quais áreas apresentam maior demanda por profissionais. Isso fortalece o planejamento e aproxima ainda mais a formação das oportunidades reais de empregabilidade”, diz Davi.
A lógica é evitar, por exemplo, que uma região receba determinado curso sem que haja perspectivas concretas de atividade econômica relacionada àquela formação.
Escola continua no centro da formação
A aproximação com empresas não significa transferir para o setor privado o controle pedagógico dos cursos. Segundo a SED, apenas instituições formalmente credenciadas para atuar na educação profissional podem participar das parcerias.
As atividades continuam sendo realizadas nas escolas estaduais. As instituições parceiras levam equipamentos, materiais, profissionais e estrutura necessária para as aulas práticas, mas precisam seguir o projeto pedagógico definido pela Secretaria.
Também há exigências relacionadas à formação e contratação dos professores, fornecimento de material didático e realização de visitas técnicas. A SED afirma manter uma unidade específica para supervisionar as parcerias, além de responsáveis pelo acompanhamento cotidiano em cada escola que oferece os cursos.
Para o Governo do Estado, a aproximação com o setor produtivo deve servir como ponte para o trabalho, sem transformar a escola em espaço dedicado exclusivamente às necessidades imediatas das empresas.
“Ao Estado cabe garantir que essa aproximação amplie as possibilidades do estudante, em vez de limitar sua formação às necessidades imediatas de uma única atividade”, afirma Riedel.
Jovens ganham espaço nas contratações
O cenário do mercado de trabalho ajuda a explicar por que a qualificação dos jovens ganhou espaço na política educacional.
Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com saldo de 19.756 empregos formais. Desse total, jovens entre 18 e 24 anos responderam por 14.174 postos. Entre trabalhadores com ensino médio completo, o saldo chegou a 15.121 vagas.
A tendência se manteve no início de 2026. Somente em fevereiro, o Estado registrou saldo de 6.157 empregos formais, dos quais 1.963 foram ocupados por jovens entre 18 e 24 anos. Entre trabalhadores com ensino médio completo, o saldo foi de 3.088 postos.
Os dados revelam que os jovens e trabalhadores com ensino médio completo têm participação expressiva no mercado formal do Estado.
Para Riedel, a questão é preparar os estudantes para que o crescimento econômico também se transforme em oportunidades melhores para quem passa pela escola pública.
“O desafio é fazer o estudante chegar a essas oportunidades com preparo para disputar empregos melhores, e não apenas aceitar qualquer ocupação disponível”, afirma.
A preocupação acompanha um cenário em que Mato Grosso do Sul recebe novos investimentos em setores como indústria, logística e serviços. A expansão econômica cria vagas, mas também aumenta a necessidade de trabalhadores com qualificação compatível com as novas atividades.
O desafio agora é ampliar o acesso
As mais de 50 mil matrículas indicam que a educação profissional ganhou escala dentro da rede estadual. O PAP, porém, ainda tem uma abrangência mais limitada.
O próximo desafio apontado pelo próprio planejamento é ampliar o programa de aprendizagem, atrair novas empresas e chegar às regiões onde investimentos recentes estão aumentando a procura por trabalhadores.
Também será necessário acompanhar o que acontece depois da formação: quantos jovens concluem os cursos, quantos conseguem uma vaga, quantos permanecem empregados e em que medida a qualificação resulta em aumento de renda.
O planejamento estadual prevê ampliar a oferta profissional e incorporar essa modalidade às novas escolas estaduais de Campo Grande, Ribas do Rio Pardo e Ponta Porã.
Para Rafaela, esse caminho já começou antes mesmo da conclusão do ensino médio. A vontade de trabalhar, que poderia colocá-la diante da escolha entre emprego e estudos, encontrou uma alternativa que permite manter os dois.
Aos 17 anos, enquanto continua frequentando a escola, ela já conhece a rotina de uma empresa, recebe o próprio dinheiro e aprende a administrá-lo. É uma experiência ainda restrita a uma parcela dos estudantes, mas que ajuda a mostrar, na prática, o que está em jogo quando educação e primeiro emprego deixam de ser caminhos separados.
11 Progressistas


