18/09/2026 11h26
Na reta final da campanha, os planos de governo prometem zerar a fila do SUS. O Brasil não sabe o tamanho dela
O país não mede o tempo total que o paciente espera entre precisar de cuidado e recebê-lo. Especialista em gestão de saúde explica as seis esperas encadeadas que se escondem dentro do que se chama de uma fila só, e o que a lei já garante ao paciente.
A fila de espera ocupa lugar central nos planos de governo desta eleição, com propostas de reduzi-la, ordená-la por risco clínico ou zerá-la. Há um problema anterior a todas elas: o país não mede o tempo total que o paciente leva para ser atendido. Sem essa medida, prometer cortar a fila pela metade é uma meta de difícil auditoria.
A avaliação é do conselheiro e especialista em gestão e acesso em saúde Antonio Carlos Matos da Silva, que estuda o funcionamento do sistema brasileiro e o desenho de políticas de acesso. Ele chama o fenômeno de a fila que ninguém mede. Nem mesmo os dois trechos da jornada que têm prazo fixado em lei têm resposta única: as estimativas oficiais e institucionais de descumprimento variam de 26% a 59%, a depender da fonte e do recorte.
O paradoxo que ele descreve é o seguinte: cada etapa do percurso pode exibir um tempo médio dentro do aceitável, enquanto o paciente leva dois anos para operar uma catarata. Isso acontece porque a espera não é um número único, e sim um composto. Entre perceber que precisa de cuidado e efetivamente recebê-lo, o paciente atravessa uma sequência de esperas encadeadas, cada uma com sua própria regra, seu próprio sistema de agendamento e, com frequência, sob responsabilidade de entes federativos diferentes.
"O paciente espera pela consulta, pelo exame, pelo laudo, pelo retorno, pelo agendamento e pela cirurgia. São seis esperas encadeadas. Cada etapa até pode ter um tempo médio aceitável, mas, quando somadas, a jornada inteira consome meses ou anos", explica Matos da Silva.
- A espera pela consulta com o especialista
É o trecho mais visível e o que costuma aparecer nas estatísticas. Começa quando a atenção básica encaminha o paciente e termina quando ele senta na frente do especialista. É também onde se concentra a maior parte das promessas de melhoria.
- A espera pelo exame
Depois da consulta, vem a solicitação do exame. Aqui entram ressonâncias, tomografias, biópsias e exames laboratoriais mais complexos, cada um com sua própria fila e seu próprio gargalo de equipamento e de pessoal.
- A espera pelo laudo
O exame ter sido realizado não significa que o resultado esteja disponível. O laudo depende de profissional habilitado para interpretá-lo, e esse é um gargalo que raramente aparece nos indicadores porque não é percebido como fila.
- A espera pelo retorno
Com o laudo em mãos, o paciente precisa de nova consulta para que alguém interprete o resultado e defina a conduta. Na prática, é uma segunda fila de consulta, muitas vezes tão longa quanto a primeira.
- A espera pelo agendamento
Definida a conduta cirúrgica, o paciente entra em outra fila, a da marcação. Ela depende de disponibilidade de sala, de equipe e de insumos, e é gerida por um sistema distinto dos anteriores.
- A espera pela cirurgia
É o último trecho e o mais citado no debate público. Quando ele finalmente chega, o paciente já atravessou cinco esperas que ninguém somou.
Ordenar a fila não cria atendimento novo
Analisar cada etapa isoladamente pode produzir indicadores administrativamente satisfatórios e, ao mesmo tempo, uma experiência assistencial frustrante para quem percorre o sistema. O especialista acrescenta um limite que costuma passar batido no debate.
"Se o número de ressonâncias ou de cirurgiões é fixo, o algoritmo apenas decide quem espera menos. Isso é necessário, mas não amplia a capacidade do sistema."
Há ainda uma consequência distributiva pouco discutida. Uma priorização concentrada apenas em gravidade e risco de morte pode empurrar para o fim da fila condições de baixa letalidade e alta incapacitação, como catarata e necessidade de prótese de quadril, que comprometem autonomia e capacidade de trabalho sem produzir risco imediato de vida.
Cinco fontes, cinco números diferentes
Em oncologia, os prazos não dependem de promessa. A Lei 12.732, de 2012, garante o início do tratamento em até 60 dias a partir do laudo, e a Lei 13.896, de 2019, dá 30 dias para a realização dos exames diante de suspeita de câncer. São os dois trechos da jornada do paciente com prazo fixado em lei, e mesmo eles não têm resposta única sobre o quanto são cumpridos.
O Painel-Oncologia do Ministério da Saúde aponta que 59% dos pacientes da rede pública não iniciaram o tratamento no prazo. A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica trabalha com 26% de cumprimento. O Instituto Oncoguia, com dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, indica descumprimento em mais da metade dos casos. O Radar do Câncer, na série de 2021 a 2025, registra 60,5% de descumprimento da lei dos 30 dias entre os dez tipos de câncer com piores métricas. E a auditoria do Tribunal de Contas da União divulgada em julho de 2026 mostra que, em quase dois terços dos tipos de cirurgia oncológica realizados pelo SUS em 2025, ao menos um quarto dos pacientes esperou mais de 60 dias, o pior nível desde 2022.
O ponto não é escolher qual número está certo. É que existem cinco respostas institucionais diferentes para a mesma pergunta, e que, segundo o Radar do Câncer, apenas 80,1% dos casos registrados têm informação suficiente para sequer calcular o cumprimento da lei dos 60 dias. Um em cada cinco casos não é mensurável.
"Essas não são promessas, são direitos estabelecidos em lei. O que falta são mecanismos que permitam saber, paciente a paciente, se eles estão sendo de fato cumpridos", afirma Matos da Silva.
E esses são os dois únicos trechos com prazo legal. Para as demais esperas, consulta, exame fora da suspeita de câncer, laudo, retorno e agendamento, não há prazo definido em lei nem medida nacional padronizada.
"Antes de prometer zerar a fila, o próximo governo deveria assumir um compromisso mais elementar: tornar visível quanto tempo o brasileiro leva entre precisar de cuidado e recebê-lo. O relógio do sistema começa na consulta; para o paciente, começa quando surge a necessidade."
Sobre o especialista
Antonio Carlos Matos da Silva é mestre em Farmácia, mestrando em Gestão e Políticas Públicas pela FGV-EAESP e especialista em Acesso à Inovação em Saúde. Possui MBA em HealthTech pela FIAP e mais de duas décadas de experiência de alta gestão no setor de saúde. É conselheiro independente associado ao IBGC.




