13/10/2026 10h00
Depois das urnas, infraestrutura hídrica entra na agenda do próximo ciclo: Brasil tem sete anos para avançar na universalização
Com R$ 4,8 bilhões do Novo PAC previstos para abastecimento de água após 2026 e pressão crescente sobre os mananciais, desafio do próximo período será transformar investimentos em infraestrutura eficiente, avalia Rodrigo Pascoal
O Brasil chegará a 2027 com uma contagem regressiva importante para uma das maiores agendas de infraestrutura do país. Restarão sete anos para o prazo estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento, que prevê atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2033.
O calendário coloca o próximo ciclo de governos no centro dessa transformação. Mais do que uma discussão sobre quem ocupará os cargos públicos a partir de janeiro, o período pós-eleitoral abre uma etapa decisiva para projetos que exigem planejamento de longo prazo, segurança regulatória, capital, engenharia e capacidade de execução.
Para o empresário e consultor estratégico Rodrigo Pascoal, o saneamento é um exemplo de área em que políticas públicas, investimento privado, engenharia e tecnologia precisarão funcionar de forma integrada.
“O desafio brasileiro não termina em conseguir recursos para infraestrutura. Existe uma distância enorme entre anunciar investimentos, contratar projetos, executar obras e conseguir operar essa infraestrutura com eficiência durante décadas. O próximo ciclo precisa ser muito orientado à execução”, afirma.
Pascoal é CEO e fundador da RP Brasil Consultoria e atua diretamente na liderança e expansão da ESCOTECH e da GOLFO OEG. As três empresas possuem atuações complementares em estratégia empresarial e Corporate Finance, engenharia, instrumentação, automação, monitoramento, inteligência artificial e infraestrutura industrial, incluindo projetos relacionados ao setor de saneamento.
O relógio de 2033 continua correndo
As metas previstas no Marco Legal do Saneamento são objetivas: até o final de 2033, 99% da população deverá ter acesso à água tratada e 90% à coleta e tratamento de esgoto.
Isso significa que o período de 2027 a 2030 ocupará mais da metade do tempo que restará para o prazo legal.
Para Pascoal, esse fator aumenta a importância de continuidade na agenda de infraestrutura.
“Projetos de saneamento não começam e terminam dentro de um calendário eleitoral. Estamos falando de planejamento, licenciamento, engenharia, financiamento, contratação, implantação e posteriormente operação e manutenção. Independentemente das mudanças políticas, infraestrutura precisa ter continuidade”, afirma.
A dimensão financeira ajuda a demonstrar o tamanho do desafio.
No abastecimento de água, o Novo PAC contabiliza uma carteira de R$ 12,5 bilhões em investimentos. Desse total, R$ 7,6 bilhões estão relacionados ao período entre 2023 e 2026 e outros R$ 4,8 bilhões estão previstos para depois de 2026.
Nas seleções realizadas em 2023 e 2025, foram escolhidos 255 empreendimentos, somando R$ 6,8 bilhões e alcançando 267 municípios em 24 unidades da Federação.
Até o final do primeiro trimestre de 2026, entre empreendimentos que vinham de ciclos anteriores, 41 haviam sido concluídos, com investimento total de R$ 1,3 bilhão.
Os números mostram que uma parcela importante da execução continuará atravessando o próximo período de governo.
Capital privado também ganhou protagonismo
O setor de saneamento também passou por uma transformação na estrutura de financiamento e operação nos últimos anos.
Concessões regionais colocaram bilhões de reais em compromissos de investimento.
No Pará, a concessão estruturada com apoio do BNDES prevê aproximadamente R$ 18,8 bilhões em investimentos para expansão dos serviços. Em Pernambuco, o modelo de concessão parcial realizado no final de 2025 prevê R$ 19,1 bilhões em investimentos das concessionárias vencedoras em distribuição de água e coleta e tratamento de esgoto.
Para Rodrigo Pascoal, a ampliação da participação privada aumenta ainda mais a necessidade de integração entre estratégia financeira e capacidade técnica.
“Infraestrutura exige capital paciente e planejamento. O investimento precisa fazer sentido financeiramente, mas também precisa produzir disponibilidade, qualidade e eficiência operacional. Se essas duas dimensões forem tratadas separadamente, o projeto pode nascer com problemas”, afirma.
Essa relação entre capital e execução faz parte da atuação da RP Brasil Consultoria, empresa fundada por Pascoal há 12 anos e especializada em estratégia empresarial e Corporate Finance.
Segundo ele, a discussão sobre grandes projetos precisa incorporar não apenas o CAPEX inicial, mas também custo operacional, manutenção, vida útil, riscos, capacidade de expansão e retorno econômico ao longo de todo o ciclo do ativo.
Segurança hídrica aumenta a pressão
O debate ganha ainda mais relevância diante da situação dos recursos hídricos.
Em outubro, o Sistema Cantareira, principal manancial da Região Metropolitana de São Paulo, passou a operar na Faixa 2, de Atenção. No fechamento de setembro, o sistema registrava 41,10% de seu volume útil.
ANA e SP Águas reforçaram a necessidade de medidas de gestão da demanda, redução de perdas e estímulo ao uso racional.
A discussão não interessa apenas às empresas de saneamento.
A água é insumo de diversas cadeias produtivas brasileiras.
Levantamento divulgado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico mostra que, entre 2021 e 2026, as outorgas vigentes para uso industrial envolveram 64 atividades econômicas em 22 unidades da Federação e somaram quase 3 bilhões de metros cúbicos por ano.
Celulose e papel, derivados de petróleo e fabricação e refino de açúcar responderam juntos por aproximadamente 70% do volume outorgado no período.
“A água ainda é tratada por muitas organizações como uma variável operacional. Em determinados setores, ela precisa ser vista também como variável estratégica. Uma indústria pode ter pedidos, mercado, máquinas e profissionais e mesmo assim enfrentar limitação produtiva se não houver segurança hídrica”, diz Pascoal.
O desafio não é apenas levar água. É perder menos
Expandir a infraestrutura é apenas uma parte do problema.
Redução de perdas, monitoramento, manutenção e gestão de ativos passaram a ocupar espaço crescente na agenda do setor.
A própria legislação estabelece que os contratos precisam contemplar, além da universalização, metas relacionadas à não intermitência do abastecimento, redução de perdas e melhoria dos processos de tratamento.
Para Pascoal, isso muda a discussão sobre tecnologia.
“Quando se fala em saneamento, é muito comum imaginar primeiro grandes obras. Elas são fundamentais, mas existe uma camada operacional igualmente importante. É preciso saber quanto está sendo produzido, quanto está sendo distribuído, onde existem perdas, como os ativos estão funcionando e onde está o risco de falha”, explica.
É nessa camada que instrumentação, automação e monitoramento ganham relevância.
A ESCOTECH, empresa liderada por Pascoal, atua com engenharia, sistemas de fluidos, válvulas, instrumentação, automação e monitoramento inteligente em diferentes ambientes industriais.
Já a GOLFO OEG trabalha com engenharia, instrumentação, automação, IoT, inteligência artificial, monitoramento e integração de sistemas para infraestrutura industrial, incluindo saneamento.
“Não conseguimos gerenciar aquilo que não conseguimos enxergar. Quanto mais extensa e complexa uma infraestrutura, mais importante se torna transformar o que acontece fisicamente na operação em dados confiáveis para tomada de decisão”, diz.
Da obra para a gestão de ativos
A mudança de perspectiva também aparece na agenda técnica do setor.
A Fenasan e o 37º Encontro Técnico AESabesp, que acontecem entre 20 e 22 de outubro em São Paulo, colocaram entre seus debates temas como universalização, gestão de ativos, segurança hídrica, redução de perdas e utilização de dados para definição de prioridades de investimento.
A edição de 2026 terá 479 expositores distribuídos por 37 mil metros quadrados e expectativa de receber cerca de 40 mil visitantes.
Uma das mesas será dedicada especificamente à utilização de dados e informações no planejamento e acompanhamento das metas de universalização. Outro painel discutirá a implantação da gestão de ativos e sua integração com planejamento estratégico e geração de valor.
Para Pascoal, o movimento sinaliza uma evolução necessária no setor.
“O Brasil precisa continuar construindo infraestrutura, mas precisa simultaneamente aprender a gerenciar melhor a infraestrutura construída. Uma estação, uma rede, uma bomba ou qualquer outro ativo não gera valor apenas porque foi instalado. Ele precisa funcionar adequadamente durante anos”, afirma.
Tecnologia pode reduzir a distância entre campo e decisão
Sistemas de saneamento podem reunir estações de tratamento, reservatórios, elevatórias, bombas, redes, válvulas, medidores e outros ativos distribuídos por grandes áreas geográficas.
Historicamente, acompanhar toda essa infraestrutura significava depender de inspeções presenciais e informações fragmentadas.
A digitalização permite mudar essa lógica.
Sensores, telemetria, sistemas supervisórios, IoT e plataformas de monitoramento possibilitam acompanhar remotamente variáveis como pressão, vazão, nível, funcionamento de equipamentos e consumo energético.
A inteligência artificial acrescenta uma nova camada ao permitir analisar grandes volumes de informações, identificar padrões e apoiar decisões operacionais.
Mas Pascoal alerta que a tecnologia precisa ser implantada a partir do problema que se pretende resolver.
“Não adianta colocar inteligência artificial em cima de dados ruins. Existe uma sequência. Primeiro precisamos medir corretamente, estruturar dados, integrar sistemas e compreender o processo. Depois podemos aumentar a inteligência sobre essas informações”, afirma.
Infraestrutura pública e privada precisam conversar
O empresário também destaca que a infraestrutura hídrica não pode ser analisada isoladamente.
Uma nova indústria, condomínio logístico, empreendimento imobiliário ou complexo produtivo gera demanda adicional por água, energia, mobilidade e saneamento.
Por outro lado, regiões sem infraestrutura adequada podem perder capacidade de atrair investimentos.
É nesse ponto que o saneamento deixa de ser apenas política social e passa a integrar também a discussão sobre desenvolvimento econômico.
“Quando uma empresa decide onde instalar uma operação, a infraestrutura pesa. A energia pesa. Logística pesa. Água pesa. Segurança no abastecimento pesa. A qualidade da infraestrutura interfere diretamente na competitividade de uma região”, afirma Pascoal.
Para ele, essa conexão deveria estar presente tanto no planejamento público quanto nas estratégias de expansão empresarial.
O próximo ciclo será medido pela execução
A proximidade de 2033 aumenta a pressão sobre todos os envolvidos no setor.
Governos precisarão priorizar projetos e criar condições para sua execução. Operadores precisarão ampliar cobertura e eficiência. Empresas de engenharia e tecnologia terão de entregar soluções capazes de funcionar em diferentes realidades. Investidores precisarão avaliar projetos de longo prazo.
E a população continuará esperando que investimentos anunciados se transformem em serviço.
Para Rodrigo Pascoal, é justamente essa capacidade de conectar estratégia e execução que definirá o próximo estágio da infraestrutura brasileira.
“O Brasil já conhece boa parte dos seus gargalos. Temos metas, projetos, recursos públicos, capital privado e tecnologia disponível. A pergunta para os próximos anos será outra: qual será nossa capacidade de transformar tudo isso em infraestrutura funcionando?”, questiona.
Segundo ele, o debate pós-eleitoral deveria superar a lógica de simplesmente contabilizar novos investimentos.
“Não basta medir quantos bilhões foram anunciados. Precisamos medir quanto foi executado, quanto entrou em operação, quanto reduziu perdas, quanto aumentou a disponibilidade e quanto melhorou o serviço. A infraestrutura não termina quando a obra é entregue. É ali que começa a vida útil do investimento.”
BOX | Cinco desafios para o saneamento no próximo ciclo
- Tirar projetos do papel
A existência de recursos não garante a execução. Projetos exigem planejamento, engenharia, licenciamento, contratação e acompanhamento. - Reduzir perdas e aumentar eficiência
Universalização não depende apenas da expansão das redes, mas também da melhor utilização da infraestrutura existente. - Digitalizar a operação
Instrumentação, automação, telemetria e monitoramento permitem acompanhar ativos e processos em tempo real. - Planejar o ciclo de vida dos ativos
O investimento inicial é apenas uma parte do custo. Manutenção, energia, disponibilidade e capacidade de expansão também precisam entrar na conta. - Criar continuidade entre ciclos políticos
Projetos de infraestrutura ultrapassam mandatos e precisam de planejamento, segurança regulatória e capacidade de execução de longo prazo.
Sobre Rodrigo Pascoal
Rodrigo Pascoal é empresário e consultor estratégico, com atuação em desenvolvimento de negócios, estratégia empresarial, M&A, automação industrial, infraestrutura e inteligência artificial aplicada à indústria. É CEO e fundador da RP Brasil Consultoria e participa diretamente da liderança e expansão da ESCOTECH e da GOLFO OEG. Sua trajetória conecta engenharia, estratégia, finanças e operações industriais, permitindo uma visão integrada entre decisão empresarial e execução.
Sobre a RP Brasil Consultoria
Fundada há 12 anos, a RP Brasil é uma boutique brasileira de estratégia e Corporate Finance. Atua junto a empresários, CEOs, empresas familiares, conselhos e investidores em projetos de crescimento, governança, M&A, valuation, turnaround, planejamento estratégico, reestruturação financeira e preparação para captação e transações empresariais.
Sobre a ESCOTECH
Fundada em 2009, a ESCOTECH é uma empresa brasileira de engenharia e tecnologia industrial especializada em sistemas de fluidos, válvulas, instrumentação, automação, monitoramento inteligente e engenharia de aplicação. Atua em setores como farmacêutico, cosmético, químico, alimentos e bebidas, papel e celulose, energia, mineração, óleo e gás, infraestrutura e saneamento.
Sobre a GOLFO OEG
A GOLFO OEG é uma empresa brasileira de engenharia, instrumentação, automação e soluções inteligentes para infraestrutura industrial. Atua em instrumentação industrial, automação, monitoramento inteligente, engenharia e grandes projetos EPC, integrando tecnologias como IoT e inteligência artificial em setores como saneamento, óleo e gás, petroquímica, farmacêutico, energia, mineração e infraestrutura.



