- mell280
20/10/2026 05h43
Fim da escala 6x1 impõe novo desafio à construção civil: entregar obras em menos horas sem comprometer prazos e custos
Com a redução da jornada semanal, setor terá de reorganizar cronogramas, equipes e contratos em um cenário de escassez de mão de obra e produtividade em queda, afirma especialista
São Paulo, outubro de 2026 - A aprovação do fim da escala 6x1 inaugura uma nova etapa para a construção civil brasileira. A nova regra estabelece jornada de até 40 horas semanais, distribuídas em cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução salarial. A transição será rápida: a jornada cai de 44 para 42 horas em dois meses e chega a 40 horas em um ano. Para o setor, o desafio vai além de reorganizar escalas. Será preciso manter a capacidade de execução com menos horas disponíveis, em uma atividade marcada por cronogramas interdependentes, contratos de longo prazo e falta de profissionais qualificados.
Segundo estudo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a redução de 44 para 40 horas semanais exigiria a contratação de aproximadamente 288 mil trabalhadores adicionais para preservar o volume de horas trabalhadas no setor. A entidade estima ainda que os custos com mão de obra poderiam crescer até 15%, dependendo da estratégia adotada pelas empresas.
Os números pesam ainda mais diante de um problema antigo do setor. Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que a produtividade da construção civil brasileira caiu 20,4% entre 1995 e 2024. Em 2021, ela equivalia a apenas 7% da registrada nos Estados Unidos. Ou seja, a nova jornada exigirá ganhos de eficiência de um setor que acumula três décadas de produtividade em queda.
“A produtividade da construção no Brasil vem caindo há 30 anos, e agora o setor terá apenas um ano para reverter essa tendência. Isso acontece em um cenário de juros elevados, que encarece justamente os investimentos em tecnologia, industrialização e qualificação de que as empresas precisam para produzir mais em menos horas. É um movimento difícil e que, sem dúvida, vai impactar os custos da indústria”, alerta Giuliana Borin, diretora executiva da CTC Infra, empresa especializada em engenharia e construção de alta complexidade.
Para a executiva, a mudança exige uma revisão profunda da organização produtiva. Na construção, as etapas dependem umas das outras: fundações, estruturas, instalações e acabamentos seguem uma sequência técnica, e o atraso em uma fase pode comprometer todo o cronograma.
“O principal desafio não é simplesmente trabalhar menos horas, mas conseguir produzir com mais eficiência dentro do tempo disponível. Na construção civil, não basta reduzir a jornada no planejamento e esperar que a obra mantenha o mesmo ritmo. Cada etapa depende de equipes, equipamentos, materiais e condições específicas. A mudança exige uma reorganização da operação como um todo, porque uma hora perdida em uma atividade crítica pode repercutir em várias outras frentes de trabalho”, explica Giuliana.
Obras de alta complexidade sentem mais o impacto
Em projetos como instalações industriais, estruturas portuárias e data centers, os efeitos tendem a ser ainda mais sensíveis. Concretagens de grande volume, movimentação de cargas pesadas, montagens eletromecânicas e intervenções em instalações em operação exigem planejamento rigoroso de equipes e de janelas de execução. Nem sempre é possível interromper essas atividades ao fim do expediente sem consequências técnicas ou financeiras. A nova jornada poderá demandar escalas alternadas, redistribuição de profissionais e maior integração entre as empresas envolvidas, sempre dentro dos limites legais e dos requisitos de segurança.
A gestão dos contratos é outro ponto crítico. Os prazos de entrega costumam estar vinculados a compromissos financeiros e à entrada em operação das instalações. Por isso, pode ser necessário revisar cronogramas, custos de mobilização e estratégias de contratação, especialmente em projetos já em andamento.
“Em obras complexas, prazo e custo estão diretamente relacionados. Quando uma etapa demora mais, não estamos falando apenas de dias adicionais de trabalho. Há equipamentos mobilizados, equipes de apoio, fornecedores e estruturas administrativas que permanecem vinculados ao projeto. Por isso, o impacto da nova jornada precisa ser analisado desde o planejamento, e não apenas quando o cronograma começa a apresentar desvios”, destaca.
Produtividade, e não apenas mais contratações
Ampliar o quadro para compensar as horas esbarra na escassez de mão de obra. A falta atinge desde armadores, carpinteiros, soldadores e operadores de equipamentos até profissionais especializados em instalações industriais. Formar novas equipes também leva tempo, porque exige treinamento, certificações e experiência prática.
A adaptação deverá passar pelo aprimoramento do planejamento executivo, pela redução de períodos ociosos e por uma coordenação mais eficiente entre fornecedores e equipes. O investimento em capacitação também será necessário. A tecnologia completa esse conjunto: ferramentas digitais de acompanhamento de obras, modelagem da informação da construção (BIM), pré-fabricação e industrialização de componentes podem contribuir para reduzir retrabalhos e aproveitar melhor as horas disponíveis.
“A construção civil precisará avançar de uma lógica baseada na quantidade de horas disponíveis para uma gestão mais precisa da produtividade. Isso significa identificar gargalos, reduzir retrabalhos e melhorar a coordenação das atividades. A tecnologia pode ajudar, mas o resultado depende principalmente da qualidade do planejamento e da qualificação das equipes. Produzir melhor não pode significar acelerar indiscriminadamente o trabalho ou flexibilizar procedimentos de segurança”, afirma.
Uma oportunidade para modernizar e atrair profissionais
Apesar das dificuldades, a nova jornada pode ajudar o setor a enfrentar um desafio histórico: atrair e reter trabalhadores. Mais tempo de descanso reduz o desgaste físico. Também torna o emprego formal na construção mais competitivo diante das plataformas de transporte e entrega por aplicativo, que oferecem maior flexibilidade de horários.
“Uma jornada mais equilibrada pode ajudar a atrair e reter profissionais, tornando o setor mais competitivo na disputa por mão de obra”, avalia Giuliana.
A pressão por produtividade também tende a acelerar investimentos em robotização e industrialização dos processos. O benefício, porém, dependerá de como as empresas vão se reorganizar. Compensar a redução apenas com a intensificação do ritmo de trabalho pode ampliar os riscos de acidentes, fadiga e falhas de execução.
“A redução da jornada pode acelerar uma transformação necessária na construção civil. A robotização, a industrialização e a modernização dos processos são caminhos para aumentar a produtividade sem depender exclusivamente da ampliação da força de trabalho. O setor precisa preservar a segurança dos trabalhadores e a qualidade das entregas, ao mesmo tempo em que desenvolve novas formas de organizar suas operações. O desafio não será apenas cumprir uma nova regra trabalhista, mas construir um modelo produtivo capaz de sustentar essa mudança no longo prazo”, conclui Giuliana Borin.
Sobre a CTC Infra
A CTC Infra é uma empresa brasileira de engenharia e construção com mais de duas décadas de atuação em projetos de data centers, infraestrutura, obras marítimas e portuárias, instalações industriais e edificações. Com soluções integradas e modelo turn-key, atua desde a concepção e o desenvolvimento até a execução de empreendimentos de alta complexidade e missão crítica. A companhia possui as certificações ISO 9001, ISO 14001 e ISO 45001, que atestam seus sistemas de gestão da qualidade, responsabilidade ambiental e saúde e segurança ocupacional. Saiba mais em ctcinfra.com.br.


