- mell280
20/10/2026 06h00
Superliga chega a oito trocas por set enquanto vôlei universitário dos EUA já permite 18
Brasileira que atua como técnica nos Estados Unidos, Ana Paula Zandona explica o que muda quando o banco de reservas passa a ser usado como ferramenta tática
A Superliga Feminina de Vôlei 2026/27, que começou no último sábado (17), traz uma mudança que o torcedor pode notar antes mesmo de olhar o placar: mais movimento entre a quadra e o banco. Seguindo orientação da Federação Internacional de Voleibol (FIVB), cada equipe pode agora fazer até oito substituições por set, duas a mais do que permitia o regulamento anterior. A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) apresentou a novidade em 1º de outubro, no lançamento da temporada, junto com a recomendação para que a arbitragem endureça a marcação de conduções e do toque-ataque.
Para quem acompanha o vôlei universitário dos Estados Unidos, o número parece modesto. Na Divisão I da NCAA, a associação que organiza o esporte entre as universidades americanas, o técnico pode realizar até 15 substituições por set, sem contar as entradas e saídas da líbero. O limite vale desde 2012, quando subiu de 12 para 15 com o argumento de ampliar as oportunidades de jogo para as atletas.
A mineira Ana Paula Zandona conhece bem as duas realidades. Ex-levantadora, natural de Belo Horizonte, ela jogou na Divisão I da NCAA pela Eastern Washington University e hoje trabalha como assistente técnica no vôlei universitário americano. Na avaliação dela, o efeito mais visível de um banco mais largo é a especialização das jogadoras. “Nos Estados Unidos, é comum ter uma atleta que entra só para sacar e outra só para defender. O técnico pensa a rotação a partir de quem vai estar em quadra em cada fase do set, e não apenas de quem começa a partida”.
A Superliga ainda está longe disso, mas a margem extra já mexe em contas que antes eram apertadas. O duplo câmbio, manobra em que levantadora e oposta deixam a quadra juntas para reforçar o ataque numa passagem de rede, consome quatro substituições entre ida e volta. Com o teto de seis, sobravam apenas duas para o resto do set. Agora sobram quatro.
Outra diferença que Ana Paula aponta está na forma de decidir as mudanças. “Lá, boa parte das trocas é definida a partir de números acompanhados durante o jogo, como a eficiência da recepção em cada rotação ou o aproveitamento da atacante adversária por posição. Com mais substituições disponíveis, quem tem esse tipo de leitura consegue agir antes de o set escapar”.
A ampliação, porém, tem custo, e o debate não é novo. Quando a NCAA discutiu aumentar o número de trocas, parte dos treinadores americanos alertou que a especialização excessiva poderia formar jogadoras menos completas. Ana Paula leva a preocupação a sério. “Se uma menina de 17 anos só treina saque porque é isso que a coloca em quadra, ela pode perder a chance de se tornar uma jogadora completa. Na Superliga o impacto é outro, já que são atletas formadas, mas regras assim costumam chegar às categorias de base e aí o cuidado precisa ser maior”.
Nos Estados Unidos, os bancos seguem ganhando espaço. Nas Divisões II e III da NCAA, o teto passou de 15 para 18 substituições por set a partir desta temporada, mudança aprovada em fevereiro para alinhar o vôlei feminino ao masculino universitário.
No Brasil, a primeira fase terá 22 rodadas, e as oito melhores equipes avançam aos playoffs, com quartas de final e semifinais em melhor de três partidas e decisão em jogo único. Para Ana Paula, será no mata-mata que a nova regra passará pelo teste real. “Na fase classificatória, o técnico experimenta. No playoff, cada troca vira uma aposta, e quem tiver treinado essas entradas desde outubro vai saber usá-las”.


