29/10/2026 05h45
Ataques cibernéticos ao setor de alimentos e agricultura crescem 62% e acendem alerta para fazendas conectadas
Avanço da digitalização no agronegócio amplia exposição de sistemas de gestão, equipamentos e operações a ameaças virtuais; inteligência artificial também transforma o cenário de riscos
O avanço da tecnologia no agronegócio trouxe ganhos de eficiência, mas também ampliou os desafios relacionados à segurança digital. Entre janeiro e julho de 2026, foram registrados 227 incidentes de ransomware contra organizações dos setores de alimentos e agricultura no cenário internacional, crescimento de 62% em relação aos 140 registros contabilizados no mesmo período de 2025. Os dados são do Food and Ag-ISAC, organização especializada no compartilhamento de informações sobre ameaças cibernéticas ao setor.
O ransomware é uma modalidade de ataque cibernético em que criminosos bloqueiam o acesso a sistemas ou arquivos e exigem pagamento para tentar restabelecer o acesso. Em determinadas situações, os invasores também roubam informações e ameaçam divulgá-las, aumentando a pressão sobre as vítimas. Em atividades que dependem de sistemas digitais para manter suas operações, esse tipo de ocorrência pode provocar interrupções e prejuízos financeiros.
O relatório State of the Threat: Food and Agriculture Sector Cyber Trends, divulgado em setembro de 2026, aponta que a inteligência artificial está entre os fatores que transformam o cenário de riscos digitais. Segundo o documento, a tecnologia pode acelerar a identificação e a exploração de vulnerabilidades, reduzindo o tempo disponível para que as organizações adotem medidas de proteção.
No Brasil, a preocupação ganha relevância à medida que propriedades rurais, cooperativas e agroindústrias incorporam máquinas conectadas, sensores, plataformas de gestão, sistemas de monitoramento remoto e equipamentos automatizados. Embora essas ferramentas contribuam para melhorar a produtividade e o controle das operações, também exigem medidas de proteção compatíveis com o nível de conectividade de cada ambiente.
Um levantamento do LDL Labs, núcleo de pesquisa da empresa de cibersegurança LDL Security, identificou pelo menos 109 organizações brasileiras mencionadas em páginas de vazamento mantidas por grupos de ransomware entre janeiro e setembro de 2026, contra 72 no mesmo período de 2025, aumento de 51%. Entre as organizações expostas neste ano, três foram classificadas no agronegócio. Atualizada em 21 de outubro, a pesquisa utiliza dados da plataforma RansomLook e considera publicações feitas pelos próprios grupos criminosos, sem confirmação independente de todos os incidentes.
A preocupação não se limita ao roubo de informações administrativas. Dependendo da infraestrutura tecnológica atingida, um incidente pode comprometer o acesso a sistemas de gestão, interromper processos automatizados e afetar atividades essenciais para o funcionamento de empresas do agronegócio.
A integração entre tecnologia da informação, conhecida como IT, e tecnologia operacional, chamada de OT, torna esse cenário especialmente relevante. Enquanto os sistemas de IT são responsáveis pelo processamento e gerenciamento de informações, os ambientes OT envolvem tecnologias utilizadas para monitorar e controlar equipamentos e processos físicos.
Em operações agrícolas e agroindustriais, essa integração pode estar presente em sistemas de irrigação automatizada, equipamentos de armazenamento, processos industriais e estruturas de monitoramento. Uma eventual invasão, quando existem vulnerabilidades exploráveis, pode ultrapassar o ambiente administrativo e alcançar sistemas ligados à continuidade operacional.
Para Daniel Peres, executivo de cibersegurança com mais de 17 anos de experiência e atuação em segurança ofensiva, defensiva e proteção de infraestruturas críticas, a relação entre tecnologia e continuidade dos negócios é um aspecto central da gestão de riscos cibernéticos.
A análise técnica desse cenário envolve compreender não apenas a possibilidade de invasão, mas também as consequências que uma interrupção pode provocar. Em operações conectadas, a indisponibilidade de sistemas pode comprometer o acesso a informações, dificultar o gerenciamento de equipamentos e exigir procedimentos de recuperação que afetam a rotina das organizações.
Outro desafio está na utilização da inteligência artificial por criminosos digitais. Ferramentas automatizadas podem tornar mensagens fraudulentas mais convincentes, facilitar determinadas etapas de reconhecimento de sistemas e aumentar a velocidade de algumas tentativas de ataque. Ao mesmo tempo, a própria inteligência artificial também pode apoiar mecanismos legítimos de detecção e resposta a ameaças.
Nesse contexto, ganha importância o trabalho de profissionais especializados em segurança ofensiva, conhecidos como hackers éticos. Diferentemente dos criminosos digitais, esses especialistas realizam testes autorizados para identificar falhas e vulnerabilidades antes que sejam exploradas por invasores.
Entre as práticas utilizadas estão os testes de invasão, chamados de pentests, as simulações de ataques conduzidas por equipes de Red Team e o monitoramento realizado por estruturas defensivas, como os Centros de Operações de Segurança, conhecidos pela sigla SOC. Essas atividades permitem avaliar a capacidade de prevenção, detecção e resposta das organizações.
A proteção também envolve medidas como atualização de sistemas, controle de acessos, autenticação multifator, manutenção de cópias de segurança e separação adequada entre redes administrativas e ambientes operacionais. O planejamento de resposta a incidentes e a avaliação dos acessos concedidos a fornecedores de tecnologia são outras práticas relevantes.
Para o agronegócio, o desafio é acompanhar a transformação tecnológica sem deixar a segurança digital em segundo plano. À medida que máquinas, equipamentos e plataformas passam a compartilhar informações e integrar processos produtivos, a proteção contra ameaças cibernéticas deixa de ser uma responsabilidade restrita às equipes de tecnologia e passa a fazer parte da gestão de riscos de toda a cadeia produtiva.






