- mell280
04/11/2026 14h23
Por que diversificar o patrimônio fora do Brasil mesmo com a Selic elevada?
Estudo da FGV aponta que apenas 6,3% do patrimônio declarado pelos brasileiros está no exterior; especialistas explicam os riscos da concentração e como ativos internacionais, incluindo imóveis, podem fazer parte da estratégia

A elevada taxa de juros brasileira pode tornar os investimentos locais atrativos, mas não elimina os riscos de concentrar o patrimônio em uma única economia e moeda. É o que mostra um estudo do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef), que aponta que apenas 6,3% do patrimônio declarado pelos brasileiros está no exterior.
Para Gustavo Farhat, Vice-Presidente Executivo e Diretor-Geral do Sunstate Bank, o percentual revela uma forte concentração patrimonial no Brasil. Segundo ele, parte desse comportamento está relacionada ao fato de o investidor naturalmente buscar alternativas que está mais acostumado, que conhece melhor e, durante muitos anos, aos juros elevados do país, que reduziram a percepção de necessidade de buscar oportunidades internacionais.
“A atratividade dos juros brasileiros não elimina os riscos inerentes à concentração patrimonial. Quando praticamente todo o patrimônio está exposto ao Brasil, o investidor assume simultaneamente risco econômico, fiscal, político, regulatório e cambial de um único país”, afirma.
Nesse cenário, manter todo o patrimônio em reais significa deixar os investimentos excessivamente dependentes da situação brasileira e das oscilações da moeda. "Um exemplo bastante simples é pensar em um caso de algum empresário brasileiro que gera renda, possui imóveis, investimentos e empresas concentrados no Brasil. O patrimônio inteiro depende da mesma economia, da mesma moeda e do mesmo ambiente regulatório. A internacionalização ajuda justamente a reduzir essa concentração."
"Por isso, a decisão de investir globalmente não deve ser vista como uma aposta contra o Brasil, mas como uma estratégia de proteção patrimonial."
O executivo ressalta, porém, que internacionalizar o patrimônio não significa simplesmente comprar ativos no exterior. A diversificação também precisa considerar diferentes classes de ativos, geografias e moedas. Para ele, uma carteira concentrada em um único setor ou mercado estrangeiro pode continuar exposta a riscos semelhantes.
O estudo da FGV aponta 16% como uma referência mínima de exposição internacional para neutralizar o efeito do dólar sobre o consumo dos brasileiros, mas Farhat ressalta que o percentual adequado depende dos objetivos de cada investidor, do tamanho de seu patrimônio e de onde ele pretende utilizar esses recursos no futuro.
"Por exemplo, um executivo que pretende se aposentar no Brasil pode ter uma necessidade diferente de alguém que pretende comprar uma residência nos Estados Unidos ou que tem filhos estudando no exterior. Na prática, a pergunta mais relevante não é "quanto devo investir fora?", mas "quanto do meu patrimônio eu gostaria de manter protegido das variáveis exclusivamente brasileiras?", explica Gustavo Farhat.
Imóveis entram na estratégia de diversificação
A internacionalização patrimonial também pode envolver ativos reais, como imóveis. O próprio estudo da FGV mostra que a participação de investimentos no exterior ainda é pequena quando considerados imóveis, fundos e demais aplicações financeiras, chegando a apenas 2,2%.
Para Daniel Ickowicz, CEO e diretor de vendas da Elite International Realty, o mercado imobiliário pode representar uma das alternativas para o investidor que busca ampliar sua exposição internacional e manter parte do patrimônio em uma economia e moeda diferentes do Brasil.
“Um imóvel no exterior pode cumprir funções que vão muito além de servir como residência ou buscar valorização. Ele pode gerar renda em dólar com aluguel e fazer parte de uma estratégia de formação e preservação de patrimônio, inclusive para organizar a transferência desses bens para os herdeiros no futuro”, explica.
Segundo Ickowicz, a escolha de um imóvel no exterior deve partir do objetivo do investidor. Localização, perfil do imóvel, potencial de renda, liquidez, custos de manutenção, tributação, financiamento e administração do ativo estão entre os fatores que precisam ser avaliados antes da compra.
A possibilidade de geração de renda também amplia as opções para o investidor. Além dos imóveis residenciais, há alternativas comerciais voltadas à locação, como lojas e strip malls. Entre elas está o modelo triple net, em que o contrato pode transferir ao locatário boa parte dos custos operacionais do imóvel, permitindo ao proprietário ter uma receita mais previsível e reduzir a gestão do ativo.
Dentro do próprio mercado americano, a Flórida é um dos destinos que mantêm forte interesse entre investidores brasileiros, pela presença de uma grande comunidade brasileira no estado. Nesse mercado, há opções em diferentes faixas de preço e perfis de investimento, desde cidades como Hallandale Beach, que podem oferecer oportunidades com valores de entrada mais acessíveis, até regiões consolidadas de Miami, como Brickell, que combinam infraestrutura, alta demanda e forte potencial de valorização. A escolha do imóvel depende, entre outros fatores, do capital disponível, da finalidade do ativo e do perfil de renda que o investidor busca.
“Internacionalizar patrimônio não significa deixar de investir no Brasil, mas evitar que todo o patrimônio dependa das mesmas variáveis. O objetivo é construir uma estrutura que esteja alinhada aos objetivos financeiros e familiares de longo prazo”, afirma Ickowicz.





