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O feminicídio, o amor romântico compulsório e a tempestade perfeita


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  • mell280

05/11/2026 07h43

O feminicídio, o amor romântico compulsório e a tempestade perfeita

Iara Filardi


Autora de 'A Pílula Lilás', a jornalista e escritora Bruna Drews discute como o mito do amor romântico, a possessividade e os padrões culturais de dominação contribuem para a perpetuação da violência contra as mulheres

 

Evelyne Rocha de Oliveira. Esse era o nome dela. É doloroso, injusto e até desumano escrever que Evelyne é “mais uma entre tantas mulheres vítimas de feminicídio no Brasil”. Mas é isso, infelizmente, mais um nome. Mais uma mulher assassinada por razões de gênero, mais uma vida interrompida que, em breve, será devidamente computada em uma planilha, somada aos números anteriores e apresentada em algum relatório oficial. Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil simplesmente por serem mulheres e como pesquisadora feminista, confesso que escrevi essa frase incomoda inúmeras vezes nos últimos meses. Já repeti o dado, procurei explicações e tentei traduzir em palavras a dimensão dessa barbárie. Por razões óbvias, não queria ter de escrevê-la novamente, mas, ao que parece, muitos homens não têm a menor intenção de me deixar sem assunto.

O corpo de Evelyne foi encontrado dentro de uma mala, no quintal da própria casa, em Araraquara, no interior de São Paulo. O principal suspeito é seu ex-companheiro, que não aceitava o fim do relacionamento. Evelyne tinha, inclusive, uma medida protetiva contra ele, que assim como em tantos outros casos de feminicídio, não foi suficiente para impedir o crime. Ao que tudo indica, para o ex, o término não era uma decisão que Evelyne tinha o direito de tomar. Aí está a velha lógica da propriedade privada aplicada às relações afetivas; se não é minha, não será de mais ninguém.

O feminicídio raramente é um acontecimento que irrompe do nada. Antes do assassinato, há sempre uma história de controle, silenciamento, intimidação e violência que foi se construindo sob os olhos de uma sociedade muito bem acostumada a confundir posse com afeto e dominação com amor. Reduzi-lo ao descontrole de um homem ou ao fracasso de uma relação é uma forma conveniente de ignorar tudo o que antecede o crime. Costumo pensar nesse processo como uma tempestade perfeita, que nada mais é do que a combinação de mecanismos individuais, afetivos, culturais e sociais que criam as condições “ideais” para que a violência avance até seu desfecho mais extremo.

Entre os elementos que alimentam essa tempestade perfeita está o amor romântico. Assim como a maternidade e a heterossexualidade, ele também integra a extensa lista de imposições do patriarcado às mulheres. Sim, o amor romântico é compulsório porque nós mulheres somos educadas para acreditar que amar é uma espécie de destino feminino, que ser escolhida por um homem é a maior conquista e que construir uma relação deve ser nossa prioridade. Carreira, independência financeira, projetos individuais e até a própria identidade podem esperar. Quando a realização feminina é condicionada à existência de um relacionamento, a permanência nele pode adquirir um peso desproporcional, mesmo quando o preço é a própria liberdade. Chego, portanto, a uma conclusão: o amor romântico não é apenas compulsório, pode ser também perigoso.

Não se trata apenas de uma mulher submetida ao controle de um homem, prisioneira do ciúme, da possessividade e das fantasias de domínio de alguém que aprendeu que masculinidade é sinônimo de poder. Ele, um filho legítimo do patriarcado; ela, uma mulher educada para acreditar que amar exige concessões. A lista de condescendências é extensa e inclui compreender excessos, relativizar os ciúmes, perdoar grosserias, ignorar sinais de alerta e, claro, insistir mais um pouco.

Em Tudo sobre o amor, a escritora e teórica feminista bell hooks propõe uma concepção de amor inseparável do respeito, da responsabilidade, do cuidado e, sobretudo, da ausência de dominação. Sua reflexão confronta uma das distorções mais arraigadas na educação sentimental feminina que é a ideia de que amar significa tolerar o intolerável, relativizar a violência e fazer concessões sucessivas para preservar uma relação. Não significa, definitivamente. O amor não exige a anulação de quem ama. O problema é que mulheres passam a vida aprendendo justamente o contrário.

Sustentada pelo “mito do amor romântico”, a violência raramente se apresenta de imediato em sua forma mais explícita. Ela começa com pequenas restrições, questionamentos constantes, vigilância, afastamento de amigos e familiares e tentativas de controlar a maneira como ela se veste, como gasta seu dinheiro, trabalha e se comporta. Vira rotina. A mulher começa a calcular palavras, antecipar reações e modificar comportamentos para evitar conflitos. É como se sua liberdade fosse sendo negociada em pequenas parcelas, até que a própria percepção do que é aceitável se torna comprometida.

Já perdi a conta de quantas vezes ouvi, diante de mais uma notícia de feminicídio, perguntas como: por que ela continuava naquele relacionamento? Por que não terminou? Por que escolheu tão mal? Há, nessas indagações, uma inversão bastante conveniente de responsabilidades. Em vez de questionar o homem que violenta, questiona-se a mulher que não foi embora. E responder simplesmente que ela ficou por medo é insuficiente para dar conta de um fenômeno muito mais complexo. Permanecer em uma relação abusiva não significa consentir com a violência ou ser incapaz de reconhecer o sofrimento. A permanência pode envolver manipulações psicológicas complexas, dependência financeira, isolamento social, ameaças, filhos, o temor de represálias e ausência de alternativas concretas. Não existe uma única explicação para a dificuldade de romper, o que existe de fato é uma combinação de fatores que reduz progressivamente as possibilidades de escolha.

Evelyne tinha uma medida protetiva. Havia reconhecido o perigo e recorrido à Justiça em busca de proteção. Ainda assim, foi assassinada. Sua história expõe não apenas a brutalidade de um homem que não aceitou perder o controle sobre uma mulher, mas também os limites de uma sociedade que ainda deposita sobre as mulheres a responsabilidade de administrar a violência masculina. Evelyne não precisava ter escolhido melhor, amado menos ou aprendido a identificar mais cedo os sinais de perigo. Precisava, antes de tudo, ter tido o direito de terminar uma relação sem que isso representasse uma ameaça à própria vida. O amor romântico nos prometeu finais felizes e o patriarcado, aparentemente, nos reservou uma cláusula perversa bastante peculiar: para algumas mulheres, até mesmo o direito de amar, permanecer ou partir pode custar a própria vida.

Sobre a autora:

Bruna Drews é jornalista, escritora e pesquisadora de comportamento feminino. Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, atuou por mais de 15 anos no jornalismo televisivo, com passagens por grandes emissoras de TV aberta. Na Record, foi repórter do Programa do Gugu e do jornalismo da emissora; na Band, integrou as equipes de Tá na Tela, Café com Jornal e Brasil Urgente.

Ao longo da carreira, cobriu diferentes temas e realidades, experiência que contribuiu para a construção de um olhar crítico sobre questões sociais, comportamento e os mecanismos culturais que influenciam especialmente a vida das mulheres.

Atualmente, dedica-se à escrita e à pesquisa sobre comportamento, sociedade e subjetividade feminina.

Sobre A Pílula Lilás

Em A Pílula Lilás – Um Manifesto sobre a Domesticação da Psique Feminina, a jornalista e escritora Bruna Drews investiga os mecanismos sociais, culturais e psicológicos que condicionam mulheres a determinados comportamentos, papéis e expectativas. Medo, culpa, silenciamento, submissão e pressão estética atravessam uma reflexão sobre violência patriarcal, feminicídio, cultura do estupro, misoginia nas redes sociais e transtornos alimentares.

A partir de experiências pessoais e de mais de 15 anos de atuação como repórter, incluindo coberturas de casos de violência contra a mulher e sua própria experiência como vítima de assédio sexual no ambiente profissional, Bruna aproxima vivências individuais de questões coletivas e discute como relações de poder e estruturas sociais contribuem para a naturalização de comportamentos abusivos e para a limitação da autonomia feminina.

Dialogando com referências como Carl Jung, Simone de Beauvoir, Naomi Wolf, Clarissa Pinkola Estés e Márcia Tiburi, a autora propõe um percurso de tomada de consciência e questionamento de padrões incorporados ao longo da vida. Ao ressignificar a metáfora da “pílula”, apropriada pelo movimento red pill, A Pílula Lilás convida as mulheres a romper narrativas aprendidas sobre seus corpos, desejos e escolhas e a recuperar uma relação mais autônoma com a própria identidade.

 

Bruna Drews Bruna Drews


 


Iara Filardi
 





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