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Quando o debate perde o respeito, quem perde é o Brasil


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01/10/2026 07h50

Quando o debate perde o respeito, quem perde é o Brasil

Por Hosana de Lourdes, jornalista


Há momentos em que a política deixa de ser apenas disputa de ideias e passa a revelar algo muito maior: a maneira como estamos tratando uns aos outros. A recente troca de acusações envolvendo o deputado federal Nikolas Ferreira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama Janja da Silva é mais um episódio que deveria nos fazer refletir sobre os limites do debate político no Brasil.

 

 

 

Durante um ato de campanha em Salvador, Janja chamou Nikolas de “piá de bosta”. Antes dela, Lula havia chamado o parlamentar de “canalha”. No dia seguinte, Nikolas reagiu e devolveu as críticas, também utilizando uma linguagem dura. O episódio rapidamente ganhou as redes sociais e passou a ser explorado pelos dois lados da polarização. (CNN Brasil⁠)

 

 

 

Mas talvez a pergunta mais importante não seja quem começou, quem respondeu ou quem conseguiu a melhor frase para as redes sociais.

A pergunta é: onde foi parar o respeito?

Não se trata de defender Nikolas Ferreira. Tampouco de atacar Janja, Lula ou qualquer outro personagem da política brasileira.

Trata-se de lembrar que palavras também carregam responsabilidade.

Um parlamentar não é apenas uma pessoa falando em seu próprio nome. Ele ocupa um mandato recebido das urnas. Uma primeira-dama, embora não exerça mandato eletivo, ocupa uma posição pública de enorme visibilidade. O presidente da República representa uma instituição que ultrapassa a figura pessoal de quem está no cargo.

E instituições precisam ser maiores do que as pessoas.

É perfeitamente legítimo discordar. É legítimo criticar, cobrar, questionar, denunciar, confrontar ideias e até fazer oposição contundente. Democracia não é ausência de conflito. Democracia é justamente a possibilidade de existir conflito sem que o respeito pelo outro precise desaparecer.

O problema começa quando a crítica deixa de atingir a ideia, o discurso ou a atitude política e passa a atingir a pessoa com palavras destinadas a humilhar.

E isso vale para todos os lados.

Não há direita, esquerda, centro, governo ou oposição que tenha exclusividade sobre o respeito. Não existe autorização para baixar o nível porque o adversário fez isso primeiro.

Estamos entrando em um momento decisivo da vida política brasileira. É período de campanha, de discursos inflamados, de redes sociais em ebulição e de uma disputa cada vez mais intensa pela atenção do eleitor.

Justamente por isso, talvez fosse necessário elevar — e não diminuir — o nível da conversa.

O eleitor brasileiro merece mais do que uma sucessão de provocações, palavrões, ataques pessoais e respostas feitas para viralizar.

Merece ouvir propostas.

Merece conhecer projetos.

Merece saber o que cada candidato pretende fazer quando receber o poder que está pedindo nas urnas.

Merece também que aqueles que ocupam posições públicas compreendam que existe uma diferença entre falar para uma multidão e falar como cidadão comum em uma conversa privada.

Quando uma pessoa ocupa um cargo público, suas palavras ganham outra dimensão.

E isso vale inclusive para os parlamentares mais populares das redes sociais. Nikolas Ferreira, por exemplo, foi eleito deputado federal em 2022 com 1.492.047 votos, a maior votação daquele pleito para a Câmara dos Deputados em todo o país. (Folha de S.Paulo⁠)

Uma votação dessa dimensão representa milhões de brasileiros que escolheram alguém para falar em seu nome.

Isso aumenta a responsabilidade.

Mas a mesma lógica vale para quem está do outro lado.

Quanto maior a posição ocupada, maior deveria ser a responsabilidade com aquilo que se diz.

Não podemos transformar a política brasileira em uma competição para saber quem ofende mais, quem grita mais alto ou quem produz o vídeo mais compartilhado.

A polarização já dividiu famílias, amizades e ambientes de trabalho. Agora, corremos o risco de normalizar uma linguagem que transforma o adversário político em inimigo pessoal.

E quando isso acontece, perde-se uma coisa fundamental: a capacidade de conviver com quem pensa diferente.

É possível ser firme sem ser ofensivo.

É possível discordar sem desrespeitar.

É possível fazer oposição sem desumanizar.

É possível defender uma ideia sem transformar quem pensa diferente em alguém que merece ser ridicularizado.

A campanha eleitoral passa. Os mandatos passam. Os governos passam. Os partidos mudam. Os políticos mudam de posição e, muitas vezes, até de lado.

Mas o Brasil continua.

Por isso, talvez seja hora de todos — políticos, autoridades, jornalistas, influenciadores e cidadãos comuns — refletirmos sobre o tipo de ambiente público que estamos ajudando a construir.

Porque, no fim das contas, quando o debate perde o respeito, não é apenas um político que perde.

É a política que perde.

E, quando a política perde, quem perde somos todos nós.

 
 
*Hosana de Lourdes é jornalista no portal tudodoms em Maracaju.
 




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