- mell280
02/02/2026 10h51
Crédito rural sem seguro deixou de ser política agrícola e virou irresponsabilidade
Por Daniel Miquelutti - Head de novos Negócios - Tecnologia, Gestão de Risco e Inovação em Seguro Agrícola*
A inadimplência do crédito rural atingir 11,4% deveria encerrar, de uma vez por todas, a ilusão de que o agronegócio brasileiro consegue sustentar sua expansão apenas com mais financiamento. O dado, apurado a partir do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor), do Banco Central, e consolidado em análises setoriais recentes, não é um desvio pontual nem um ruído estatístico. Ele expõe, com atraso, o custo acumulado de um modelo que ampliou o crédito enquanto tratava a gestão de risco como um tema acessório. Quando a inadimplência saltou de 0,59% em janeiro de 2023 para 3,54% em 2024, o alerta já estava dado. Ignorá-lo foi uma escolha política, institucional e regulatória.
Os efeitos dessa escolha vão muito além do produtor individual. A elevação consistente da inadimplência pressiona o custo do crédito futuro, reduz o apetite das instituições financeiras por operações no campo e tende a aumentar a dependência de subsídios públicos para manter o fluxo de financiamento. Em outras palavras, quanto mais o sistema tolera o risco não protegido, mais caro e escasso o crédito se torna, inclusive para quem produz de forma eficiente. O problema deixa de ser setorial e passa a ser macroeconômico, contaminando taxas, spreads e o próprio desenho das políticas públicas de crédito.
Esse efeito se agrava quando se observa o ambiente produtivo atual. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais mostram que eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a integrar a rotina do campo. Ainda assim, a principal ferramenta de mitigação dessas perdas segue praticamente fora do sistema. Informações oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária indicam que o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural cobriu apenas 2,2 milhões de hectares em 2024, menos de 5% da área agricultável do país, no pior desempenho desde 2007. Isso não é um problema conjuntural de orçamento, é um vazio estrutural na política de risco agrícola.
Insistir na ampliação de linhas de crédito sem reformular a lógica de proteção não é apenas ineficiente, é financeiramente imprudente. Crédito sem seguro não reduz risco, apenas posterga sua materialização. O produtor absorve perdas que não consegue diluir, enquanto o sistema financeiro acumula um passivo previsível, que mais cedo ou mais tarde será socializado por meio de renegociações, alongamentos e programas emergenciais. A inadimplência revelada pelo Banco Central não denuncia fragilidade do produtor rural, mas de um sistema que normalizou financiar a produção como se o risco climático e de mercado fosse residual.
Esse desequilíbrio distorce, inclusive, o papel do próprio Plano Safra. Em vez de funcionar como instrumento de estímulo à produtividade, inovação e eficiência, ele passa a operar, na prática, como um mecanismo recorrente de socorro financeiro. Recursos que deveriam induzir modernização acabam sendo consumidos para tapar buracos previsíveis de um modelo que se recusa a integrar crédito, seguro e gestão de risco. O resultado é um ciclo vicioso: mais inadimplência gera mais intervenção, que por sua vez reduz os incentivos à estruturação de soluções permanentes.
Parte desse problema está nos incentivos institucionais que sustentam o modelo atual. A separação estrutural entre crédito rural, seguro agrícola e política de risco climático impede uma abordagem integrada. As metas de desembolso seguem priorizando volume de crédito contratado, não a qualidade do risco assumido. E, mesmo em linhas subsidiadas, não há exigência efetiva de seguro como condição para financiamento, o que transfere integralmente o risco para o produtor e, em última instância, para o Estado. Enquanto o sistema premia a expansão do crédito desprotegido, ele penaliza quem tenta estruturar a produção de forma mais resiliente.
Costuma-se atribuir as limitações do seguro rural exclusivamente à escassez de recursos para subvenção, mas essa leitura é incompleta. O modelo tradicional de seguro agrícola ainda apresenta deficiências relevantes de desenho e operação que reduzem sua aderência à realidade do campo. Apólices excessivamente padronizadas, processos regulatórios pouco ágeis, baixa transparência e disputas recorrentes na fase de indenização acabam afastando produtores e limitando o papel do seguro como instrumento efetivo de gestão de risco. Em um ambiente produtivo marcado por forte heterogeneidade climática e operacional, tratar riscos distintos de forma uniforme encarece a proteção, diminui sua eficiência e compromete sua capacidade de cumprir plenamente sua função econômica.
A tecnologia já demonstrou que esse impasse é superável. Estudos técnicos da Superintendência de Seguros Privados e análises da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico indicam que o uso de dados climáticos, sensoriamento remoto e modelagem estatística permite mensurar riscos com precisão muito superior à do modelo tradicional. Ferramentas como o seguro paramétrico, com gatilhos objetivos e liquidação automática, reduzem custos operacionais e conflitos, enquanto a análise de risco por talhão possibilita precificação mais justa e compatível com a realidade produtiva. A solução existe. O que falta é decisão institucional para integrá-la ao sistema de crédito.
A deterioração recorde do crédito rural não é um efeito colateral inevitável do clima. É o sintoma de um modelo que se recusa a evoluir. Tratar o seguro como acessório deixou de ser uma opção viável. Em um agronegócio cada vez mais exposto a riscos extremos, crédito sem proteção não é estratégia de desenvolvimento, é aposta. E os dados do Banco Central mostram, de forma inequívoca, que essa aposta está sendo perdida.
*Daniel Miquelluti é cofundador e Head de Novos Mercados da Picsel, insurtech especializada em seguros agrícolas. Engenheiro Agrônomo com mestrado em Estatística Experimental e doutorado em Economia Aplicada na USP, atua há mais de uma década no desenvolvimento de soluções inovadoras em seguro rural. Já assessorou seguradoras, resseguradoras e órgãos públicos na estruturação de produtos e estratégias de gestão de risco climático no campo. Na Picsel, lidera projetos que combinam inteligência artificial, sensoriamento remoto e dados climáticos para transformar a operação de seguros agrícolas no Brasil.
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