19/02/2026 05h12
Não se governa um país como se faz um M&A
Não se governa um país como se faz um M&A
*Por Aziz Camali, fundador do Oxigênio Ilhabela
O desalinhamento simbólico, político e humano que se intensificou na era Trump contaminou o imaginário global. A confusão entre políticas públicas e cultura empresarial passou a ser vendida como solução moderna e eficiente para problemas estruturais. Essa transposição automática é um erro perigoso.
Gerir um país, uma cidade ou um território não é uma extensão do currículo corporativo de ninguém. Não basta entender de empresa. Não basta ter performado bem dentro de estruturas criadas para dar lucro. Não basta dominar indicadores, planilhas, valuation, M&A, growth e o imaginário do crescimento infinito. Isso, por si só, é insuficiente.
Negócios, quando bem conduzidos, podem e devem gerar valor para a sociedade, criar culturas fortes, posicionar marcas com impacto, olhar para cadeias produtivas, sustentabilidade e relações de longo prazo. Essa potência existe. Mas mesmo o melhor negócio nasce de uma lógica central: o lucro como eixo. Territórios, sociedades, países e pessoas não operam a partir de um único eixo. São sistemas vivos.
Ao olhar para uma cidade ou para um país, não é possível aplicar apenas uma lógica de M&A. Ao pensar em exportação, não basta usar a cultura de uma trading. Ao negociar acordos, não se pode agir apenas sob a perspectiva jurídica. Ao definir prioridades financeiras, não é possível enxergar apenas pela lente de um banco. Isso não é sobre eficiência. É sobre gente. É sobre regenerar vínculo e confiança. Honrar quem veio antes, independentemente de discursos rasos de meritocracia. É sobre construir capital que vai muito além do financeiro e do social.
O recorte de eficiência que vem sendo vendido como resposta para os problemas mais complexos do planeta é míope. É racional demais e sensível de menos. Ele otimiza, simplifica, acelera. Mas a vida não funciona assim. A vida é complexa. Basta observar um organismo humano ou entrar em um bioma vivo para compreender que não se trata de operar processos, mas de confluir fluxos. Há interdependência, tempo, cuidado, adaptação, conflito e cooperação acontecendo simultaneamente.
Ainda assim, seguem sendo escolhidas lideranças que ingressam no campo das políticas públicas não para se comprometer com os problemas, mas para eliminá-los rapidamente, como se fossem ruídos no caminho da performance. Problemas complexos exigem outra postura. Exigem humildade diante da escala do desafio. Exigem reconhecer que eles são maiores do que qualquer capacidade individual de resolução.
Problemas complexos exigem gente. Exigem coalizões. Exigem diversidade compreendida como campo fértil e criativo. Gerir um país, uma cidade ou um estado é sair da lógica de departamentos e entrar na lógica de grupos de trabalho, comitês vivos, associações fortalecidas, escuta ativa de quem está na beirada e não se sente incluído. É ir até essas pessoas. Com delicadeza. Com tempo. Com afeto. Aliás, sem uma cultura de afeto, não há regeneração de território possível. Não há desenvolvimento que se sustente. Não há futuro compartilhado.
Olhar para a gestão de um território é, antes de tudo, olhar para a força comunitária que o sustenta. Isso deveria ser prioridade nacional. Em anos eleitorais, essa escolha se torna ainda mais evidente. Toda vez que uma sociedade escolhe alguém para representá-la, não escolhe apenas uma pessoa. Escolhe a cultura que ela carrega, o tipo de time que irá formar, a forma como lida com conflito, diversidade e poder. Ninguém governa nada sozinho.
Há também um equívoco recorrente no campo empresarial. Organizações que se posicionam como mercado 2.5, impacto ou ESG como se isso fosse suficiente. Não é. Existe uma diferença abissal entre adotar uma narrativa híbrida e viver a experiência real do terceiro setor de base, da liderança comunitária, da convivência cotidiana com quem sustenta territórios sem manual, sem MBA, sem framework. Trata-se de sentar-se à mesa. Comer junto. Coexistir. Esse saber não se aprende em ambientes artificiais. Ele é complementar, profundo e indispensável para qualquer tentativa séria de integrar o social e o econômico.
Poucas pessoas se permitem atravessar esse caminho, porque ele é árduo. Exige abrir mão de certezas, status, velocidade e da ilusão de controle. Talvez por isso haja tanta pressa em fazer, produzir e performar, enquanto se perde a capacidade de estar presente. Há um medo difuso operando nesse movimento. Medo da irrelevância, do vazio, da finitude.
As consequências dessa lógica são concretas. Famílias inteiras, em regiões remotas do planeta, sentem no corpo os efeitos simbólicos e reais de decisões tomadas a partir de uma racionalidade distante, financeira, estratégica e fria. Crianças crescem sob a sombra de ameaças geopolíticas que jamais escolheram. É disso que se trata. Líderes globais escolhendo guerras, territórios e destruição em nome de eficiência econômica. Isso não é progresso.
O mundo não é um tabuleiro. É uma casa compartilhada. A escolha por viver em bolhas, ilhas de privilégio tratadas como sinônimo de liberdade, revela outra face desse mesmo problema. É a recusa em se implicar na lama dos dilemas coletivos. É a abdicação da corresponsabilidade.
Este não é um texto de autopromoção. É um incômodo diante da ocupação de espaços que exigem profundidade por lideranças rasas. O que importa hoje não é a quantidade de conhecimento acumulado. É como esse conhecimento é utilizado. E de onde se escolhe estar no mundo a partir dele.
Tratar sistemas vivos como planilhas produz mais eficiência e menos humanidade. Isso não constrói futuro. Apenas acelera o colapso. Talvez o verdadeiro ato de liderança, neste tempo, seja desacelerar, sentir o sistema, construir junto e aceitar que não existem soluções simples para problemas complexos. O resto é ilusão bem apresentada.
*Aziz Camali é fundador do Oxigênio Ilhabela, incubadora de negócios voltada à regeneração do território, que integra formação empreendedora, aceleração e dados locais para impulsionar o turismo da ilha com mais receita, mais circulação e mais valor para a comunidade. E-mail: oxigenioilhabela@nbpress.com.br
Sobre o Oxigênio Ilhabela
O Oxigênio Ilhabela é uma incubadora de negócios voltada à regeneração do território, que integra formação empreendedora, aceleração e dados locais para impulsionar o turismo da ilha com mais receita, mais circulação e mais valor para a comunidade. A iniciativa fortalece micro, pequenos e médios empreendedores por meio de práticas que geram pertencimento, qualificam a oferta turística e fazem o dinheiro circular dentro da própria rede local, conectando gente, cidade e natureza. Com uma metodologia baseada em coalizão, confiança e visibilidade estratégica, promove encontros presenciais de aprendizagem, conexão e mão na massa, acelera soluções criadas a partir das demandas reais do território e transforma ideias em projetos concretos com apoio de designers e programadores. Ao articular pessoas, negócios, marcas e parceiros em torno de um futuro comum, o Oxigênio Ilhabela constrói um ecossistema vivo que fortalece a economia local enquanto regenera a relação entre quem vive, trabalha e cuida da ilha. Para saber mais, acesse: oxigenioilhabela.





