- mell280
16/04/2026 10h27
Governança vira fator de sobrevivência diante do avanço das recuperações judiciais
Fragilidade estrutural na gestão expõe companhias a riscos; levantamento aponta que 5.680 empresas brasileiras estão em recuperação judicial
O ano de 2025 terminou com um número que acendeu um alerta importante no ambiente empresarial brasileiro: 5.680 empresas em recuperação judicial. O dado, do Monitor RGF de Recuperação Judicial, da RGF & Associados, representa um aumento de 24,3% em relação ao estoque registrado no fim de 2024 e marca o maior nível já observado no país.
Ao longo do ano passado, 1.665 companhias recorrem ao Judiciário para tentar reestruturar suas dívidas, o que significa um salto de 35,2% na comparação anual.
No mesmo período, o estudo mostra que apenas 561 empresas conseguiram sair desse processo. Os números refletem um ambiente de negócios pressionado, marcado por juros elevados, crédito mais restrito e margens cada vez mais comprimidas. Somente no último trimestre de 2025, 510 empresas ingressaram em recuperação judicial, outro recorde para a série.
O volume de passivos envolvidos também chama atenção: as dívidas declaradas por essas companhias somaram R$40 bilhões, mais do que o dobro dos R$16 bilhões registrados no trimestre anterior. Embora o cenário macroeconômico explique parte da deterioração financeira das empresas, especialistas em gestão e reestruturação apontam que muitas dessas crises não surgem apenas quando a conta deixa de fechar.
Em grande parte dos casos, o problema começa bem antes, na fragilidade da governança, na ausência de planejamento financeiro estruturado e na dificuldade de antecipar riscos.
A própria distribuição setorial das recuperações judiciais ajuda a ilustrar essa vulnerabilidade. Segundo o Índice RGF de Recuperação Judicial (IRJ-RGF), a agropecuária lidera a incidência de companhias em reestruturação, com 13,53 casos a cada mil empresas ativas, seguida pela indústria (6,74) e infraestrutura (4,11). Comércio (1,81) e serviços (1,02) aparecem abaixo da média nacional, de 2,13.
Gestão preventiva ganha peso em cenário de crise
Para consultorias especializadas em gestão empresarial, esse movimento reforça uma mudança de mentalidade que começa a ganhar força no mercado: governança corporativa deixou de ser apenas um conjunto de boas práticas formais para se tornar uma ferramenta concreta de gestão de risco e de preservação de valor.
Na avaliação da Auddas Consultoria, empresas que estruturam processos claros de gestão financeira, monitoramento de indicadores e tomada de decisão estratégica podem ter mais capacidade de identificar sinais de deterioração antes que a crise se torne irreversível. A diferença, segundo a consultoria, está na forma de atuação. Em vez de um modelo exclusivamente analítico, a empresa busca atuar junto aos executivos na implementação e operação das soluções.
A lógica é simples: quando os problemas aparecem nos balanços, muitas vezes a companhia já perdeu tempo precioso. Estruturas de governança mais robustas permitem acompanhar o desempenho com maior precisão, antecipar cenários adversos e ajustar rotas antes que a necessidade de uma reestruturação judicial se imponha.
Esse processo envolve desde a revisão do planejamento financeiro e da estrutura de capital até ajustes estratégicos na operação, na precificação, na gestão de custos e na eficiência do negócio.
Num ambiente de crédito caro e acesso mais seletivo a financiamento, essas decisões ganham ainda mais relevância. Empresas que conseguem demonstrar disciplina financeira, transparência e governança consistente tendem a preservar melhor a confiança de credores, investidores e parceiros comerciais.
Assim, pode-se entender que o recorde de recuperações judiciais em 2025, portanto, não revela apenas a pressão de um ciclo econômico mais duro.
Ele também evidencia um desafio estrutural para o empresariado brasileiro: transformar gestão e governança em instrumentos permanentes de estratégia. Em um cenário de volatilidade crescente, sobreviver pode depender menos de reagir à crise e mais da capacidade de enxergá-la antes que chegue.
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