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A notícia da super quarta foi a ausência de notícia


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  • mell280

18/06/2026 04h54

A notícia da super quarta foi a ausência de notícia

Neide Martingo


Bruno Corano

 

 

 

Hoje foi mais uma daquelas chamadas "super quartas" que, na prática, não tiveram nada de super. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, o grau de previsibilidade era enorme. Os mercados já vinham há semanas precificando o que acabou acontecendo, e por isso as decisões tiveram muito mais cara de confirmação do que de surpresa.

 

 


Nos Estados Unidos, como amplamente esperado, o Federal Reserve manteve a taxa de juros inalterada.

Essa reunião tinha um ingrediente adicional de atenção porque foi a primeira deliberação do FOMC sob a presidência de Kevin Warsh. Desde sua indicação, parte do mercado alimentou a expectativa de que sua chegada pudesse acelerar um ciclo de cortes de juros. Mas a realidade é que política monetária não funciona dessa forma.
Primeiro porque o presidente do Fed não decide sozinho. O FOMC possui 12 membros votantes, e o voto de Warsh tem exatamente o mesmo peso que o dos demais integrantes do comitê. Segundo porque, independentemente das preferências pessoais de qualquer dirigente, os dados econômicos continuam sendo o principal norteador das decisões. E os dados simplesmente não permitiam um corte de juros neste momento. Da mesma forma, eu também considerava praticamente nula qualquer possibilidade de alta de juros.

Embora exista uma pressão inflacionária recente, especialmente ligada à energia e aos efeitos das tensões geopolíticas no Oriente Médio, essa inflação tem características muito mais temporárias do que estruturais. O fechamento do Estreito de Hormuz e a disparada do petróleo geraram um choque de curto prazo, mas, com a normalização gradual da situação, a expectativa é que parte dessa pressão seja absorvida ao longo dos próximos meses.
Além disso, aumentar juros agora faria pouco sentido. O efeito da política monetária é lento e ocorre com defasagem. Se a inflação que preocupa hoje tende a ser temporária, elevar juros para combatê-la seria correr o risco de apertar a economia justamente quando essa pressão já estivesse desaparecendo.
Por outro lado, também não existia ambiente para cortes. A inflação ainda exige cautela, alguns indicadores de atividade continuam resilientes e o Fed não tem qualquer motivo para correr riscos desnecessários.


Por isso, a manutenção da taxa era, de longe, o cenário mais provável.
Na comunicação após a decisão, Warsh adotou exatamente a postura que se espera de um presidente de banco central em sua primeira reunião: cautela, prudência e dependência dos dados. Em vez de sinalizar mudanças bruscas, a mensagem foi de continuidade. O Fed seguirá acompanhando inflação, atividade econômica e mercado de trabalho antes de definir os próximos passos.


E aqui vale uma observação importante. O próprio Warsh já demonstrou em diversas ocasiões certo desconforto com o nível de comunicação que os bancos centrais modernos mantêm com os mercados. Ainda assim, enquanto estiver à frente do Fed, sabe que sua responsabilidade é preservar a previsibilidade e a estabilidade das expectativas. Por isso, sua fala seguiu exatamente a linha de cautela que o mercado já esperava ouvir.
Já no Brasil se confirmou a expectativa de mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, o que não representa nenhuma surpresa relevante.
Mais importante do que o tamanho do corte é reconhecer que ele produz um efeito muito limitado sobre a economia real. Quando a taxa básica continua em níveis tão elevados, uma redução de apenas 0,25 ponto pouco altera a realidade das famílias, das empresas e do custo do crédito.
Na prática, é quase uma discussão simbólica. A taxa continua extremamente elevada e continua impondo um peso enorme sobre a atividade econômica.
O que me parece mais relevante é que talvez estejamos nos aproximando do fim desse ciclo de flexibilização monetária.
O cenário inflacionário segue pressionado, o ambiente fiscal continua trazendo preocupações importantes e a dinâmica econômica não sugere um espaço confortável para uma sequência prolongada de cortes.


Na verdade, não seria exagero dizer que o risco de médio prazo continua sendo justamente o oposto. Dependendo da evolução da inflação e, principalmente, da situação fiscal brasileira, não está descartada a possibilidade de voltarmos a discutir altas de juros no futuro, por mais absurdo que isso pareça diante do nível já extremamente elevado da Selic.


E esse talvez seja o ponto mais preocupante de toda essa discussão.
Quando falamos em juros altos, normalmente as manchetes destacam grandes empresas que entram em recuperação judicial ou enfrentam dificuldades financeiras. Mas a realidade é muito mais ampla do que aquilo que aparece nos jornais.


Existem centenas de milhares de pequenas e médias empresas espalhadas pelo país convivendo diariamente com um custo de capital sufocante.
Muitas delas já chegaram a este ciclo carregando dívidas contraídas durante a pandemia. Foram empréstimos necessários para sobreviver em um momento extremamente difícil. Só que essas dívidas foram assumidas em um ambiente de juros muito menor.
Hoje, ao precisar renovar linhas de crédito, renegociar financiamentos ou simplesmente manter capital de giro, essas empresas encontram um custo financeiro que muitas vezes inviabiliza a própria operação.


Estamos vendo recordes sucessivos de pedidos de recuperação judicial, mas os números oficiais contam apenas parte da história. Existe um enorme contingente de empresas que ainda não fechou as portas, mas que já opera sob enorme pressão financeira, reduzindo investimentos, adiando contratações e limitando sua capacidade de crescimento.


Por isso, embora a chamada "super quarta" tenha entregado exatamente aquilo que o mercado esperava, os desafios continuam longe de terem sido resolvidos.
Nos Estados Unidos, o principal debate continua sendo entender se as pressões inflacionárias recentes serão temporárias ou mais persistentes.
No Brasil, além da inflação, seguimos convivendo com um problema fiscal que limita significativamente a capacidade de redução sustentável dos juros.
No fim das contas, a notícia desta super quarta não foi a decisão em si.
A notícia foi justamente a ausência de surpresa.Os bancos centrais fizeram exatamente aquilo que o mercado esperava. O problema é que os desafios econômicos continuam exatamente onde estavam ontem.

Isabel Braga é CEO da Closet BoBags e da BoGo. Ambas priorizam a Economia Circular e o aproveitamento, em respeito ao meio ambiente

 


 




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