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Médicos Sem Fronteiras: tragédia na rota migratória do Atlântico deixar mais de 150 mortos ou desaparecidos


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  • mell280

22/07/2026 17h03

Médicos Sem Fronteiras: tragédia na rota migratória do Atlântico deixar mais de 150 mortos ou desaparecidos

Danielle Bastos


Após 25 dias no mar, apenas 38 das cerca de 190 pessoas que viajavam em uma embarcação da Gâmbia rumo às Ilhas Canárias sobreviveram

Nouadhibou, Mauritania, Médicos Sem Fronteiras (MSF) está profundamente consternada com um incidente mortal ocorrido na rota migratória do Atlântico, após o desembarque em Nouadhibou de sobreviventes de uma embarcação que teria partido da Gâmbia com destino às Ilhas Canárias.

Segundo os relatos iniciais dos sobreviventes, cerca de 190 pessoas estavam a bordo da embarcação. Após 25 dias no mar, apenas 38 pessoas sobreviveram. Os sobreviventes inicialmente receberam assistência de pescadores e, em seguida, da guarda costeira mauritana, antes de serem encaminhados ao Crescente Vermelho da Mauritânia, que solicitou o apoio de MSF.

Este é um dos incidentes mais mortais já testemunhados pelas equipes de MSF na Mauritânia desde o início de 2026. O episódio é um lembrete contundente dos perigos extremos enfrentados pelas pessoas que tentam percorrer a rota atlântica, onde as travessias costumam ser longas, perigosas e marcadas por riscos de naufrágio, violência, traumas psicológicos graves e, sobretudo, perda de vidas humanas.

Nas últimas semanas, equipes de MSF em Nouadhibou auxiliaram três operações de desembarque, nos dias 14 e 18 de julho, prestando assistência a um total de 387 pessoas. As equipes realizaram 66 consultas médicas e encaminharam nove pessoas para unidades de saúde especializadas em Nouadhibou. Apenas no dia 18 de julho, MSF respondeu a dois desembarques sucessivos entre a meia-noite e as 19h, um dos quais ocorreu logo após o trágico incidente envolvendo a embarcação que partiu da Gâmbia. As pessoas que chegaram à costa apresentavam quadro de choque pós-traumático e psicose, além de fraturas ósseas, lesões traumáticas e hipotermia.

Os sobreviventes descreveram condições horríveis no mar. Alguns perderam familiares e outros passageiros durante a travessia. As equipes de MSF observaram sinais agudos de sofrimento psicológico entre os sobreviventes. A gravidade dos relatos e a dimensão da perda de vidas também tiveram um impacto psicológico significativo sobre nas equipes da organização envolvidas na resposta.

“O que as nossas equipes viram em Nouadhibou é profundamente chocante. As pessoas chegaram após passarem semanas no mar, exaustas, traumatizadas e de luto pela perda de familiares e de outros passageiros que não sobreviveram à travessia. Uma das 38 sobreviventes atendidas por MSF contou que viu a própria irmã morrer diante dos seus olhos. Ninguém deveria ter de suportar tal sofrimento enquanto busca segurança ou dignidade”, afirma Fouzia Bara, coordenadora do programa de migrações de MSF.

A rota migratória do Atlântico tem se tornado uma das mais mortais do mundo. De acordo com a ONG espanhola Caminando Fronteras, mais de 10 mil pessoas foram dadas como mortas ou desaparecidas ao tentarem a travessia atlântica em 2024, e mais de 3 mil em 2025. É muito provável que o número real de mortes seja ainda maior do que o registrado, uma vez que nem todas as travessias marítimas são registradas ou recebem ajuda de operações de resgate. Embora o número de chegadas às Ilhas Canárias tenha diminuído neste ano, os riscos continuam extremos. Segundo o ACNUR, as chegadas ao arquipélago espanhol caíram 61% em comparação a 2025, com 4.400 chegadas registradas até 15 de julho. Ainda assim, incidentes recentes evidenciam os perigos persistentes enfrentados por refugiados e migrantes que tentam chegar à Europa, muitos dos quais partem de locais situados a mais de 2.000 quilômetros do destino desejado.

MSF lançou o projeto “Migração Atlântica” na Mauritânia em resposta ao aumento das tragédias no mar. Em Nouadhibou, a organização começou em dezembro de 2024 prestando assistência direta durante desembarques e interceptações, posteriormente reforçou sua atuação com a abertura do Centro de Recepção, Cuidados e Assistência (CASA), em abril de 2025. O centro apoia as pessoas mais vulneráveis, sejam migrantes, pessoas em trânsito ou cidadãos mauritanos.

MSF pede a adoção de medidas urgentes para evitar novas mortes na rota atlântica. Os mecanismos de busca e salvamento devem ser reforçados, receber recursos adequados e estar aptos a responder de forma eficaz às necessidades das pessoas em perigo no mar. Ao mesmo tempo, são necessárias vias seguras e legais para reduzir os riscos que as pessoas são obrigadas a assumir em busca de proteção, segurança ou um futuro melhor.

“As mortes desses homens, mulheres e crianças não podem ser esquecidas. MSF apela aos governos e às autoridades competentes para que coloquem a preservação da vida humana no centro de suas políticas migratórias, reforcem as capacidades de busca e salvamento e garantam que nenhuma pessoa em perigo no mar seja deixada sem assistência”, acrescenta Fouzia Bara.

MSF clama aos governos dos países situados ao longo da rota migratória, aos Estados europeus e a atores regionais e internacionais para que trabalhem de forma conjunta a fim de evitar novas perdas de vidas. Salvar vidas no mar e garantir assistência humana, digna e adequada aos sobreviventes deve ser uma prioridade imediata.

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Médicos Sem Fronteiras presta apoio médico de emergência aos sobreviventes das travessias marítimas mortais na rota atlântica entre a África Ocidental e as Ilhas Canárias
Médicos Sem Fronteiras presta apoio médico de emergência aos sobreviventes das travessias marítimas mortais na rota atlântica entre a África Ocidental e as Ilhas Canárias
MSF
 

 


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