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Estamos acostumados a não estar bem? Especialista alerta sobre a banalização do sofrimento emocional


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08/08/2026 10h23

Estamos acostumados a não estar bem? Especialista alerta sobre a banalização do sofrimento emocional

Elaine de Luca


Para a pesquisadora Renata Rivetti, episódios extremos recolocam a saúde mental em pauta, mas a discussão ainda ignora fatores como sobrecarga, hiperconectividade e empobrecimento das relações humanas

 

 

 

Os episódios recentes de violência registrados em ambientes de trabalho voltaram a colocar a saúde mental em evidência e embora as investigações ainda estejam em andamento, eles reforçam a necessidade de ampliar o olhar sobre o adoecimento emocional no país. Para a pesquisadora da Ciência da Felicidade e do Bem-Estar, Renata Rivetti, o foco da discussão ainda está concentrado nas consequências, quando deveria incluir também as condições que favorecem o sofrimento psíquico.

"Os casos chocam porque são extremos. Mas eles nos fazem esquecer que existe um sofrimento cotidiano que deixou de causar estranhamento. Hoje, quando alguém diz que está ansioso, estressado ou exausto, a resposta mais comum é: 'eu também'. Passamos a tratar esses sinais como parte natural da vida".

A percepção é reforçada pelos dados de O Mapa da Felicidade Real dos Brasileiros, pesquisa realizada por Renata Rivetti em parceria com o Instituto Ideia. O levantamento mostra que 33% dos brasileiros afirmam sentir ansiedade com frequência, 29% convivem regularmente com o estresse e 21% dos jovens relatam sentir solidão.

Segundo a pesquisadora, esses indicadores refletem mudanças profundas na forma como as pessoas vivem, trabalham e se relacionam. "Criamos um modelo de vida marcado pela hiperconectividade, pela sobrecarga de trabalho e por relações cada vez mais superficiais. Nunca falamos tanto sobre bem-estar, mas ainda fazemos poucas mudanças estruturais para reduzir os fatores que contribuem para o adoecimento".

Renata chama atenção para o crescimento do mercado de wellness e das iniciativas de autocuidado, mas avalia que elas, sozinhas, não enfrentam o problema. "Meditação, terapia, atividade física e outras práticas são importantes. O problema é quando toda a responsabilidade pelo bem-estar recai sobre o indivíduo. Continuamos tratando os sintomas sem discutir por que tantas pessoas vivem ansiosas e estressadas".

Dados da Organização Mundial da Saúde estimam que cerca de um bilhão de pessoas convivam com transtornos mentais em todo o mundo. Para a pesquisadora, isso exige uma discussão que vá além do acesso ao tratamento. "Saúde mental também depende da forma como organizamos o trabalho, usamos a tecnologia e construímos nossas relações. Se não discutirmos essas questões, continuaremos reagindo às crises em vez de atuar sobre suas causas".

A pesquisa também identificou um dado que chama atenção. Apesar dos indicadores de ansiedade, estresse e solidão, a maioria dos brasileiros afirma ser feliz. "Isso mostra a capacidade de adaptação e de construção de sentido do brasileiro. Mas existe uma diferença entre resiliência e resignação. A resiliência ajuda a enfrentar dificuldades. A resignação faz com que passemos a considerar normal aquilo que deveria nos preocupar".

Para Renata Rivetti, episódios de grande repercussão costumam despertar atenção momentânea para a saúde mental, mas a transformação depende de uma mudança mais profunda na forma como a sociedade compreende o bem-estar. "Precisamos parar de enxergar a saúde mental apenas quando ela entra em colapso. O verdadeiro desafio é criar ambientes de trabalho, relações e estilos de vida que favoreçam o equilíbrio emocional antes que o sofrimento se torne uma crise. Cuidar da saúde mental não é apenas oferecer tratamento quando alguém adoece, mas construir condições para que as pessoas possam viver melhor todos os dias", conclui. 

Sobre Renata Rivetti

Renata Rivetti é pesquisadora da Ciência da Felicidade, fundadora da Reconnect Happiness at Work e única representante no Brasil do movimento 4 Day Week Global. Autora do Mapa da Felicidade Real do Brasil 2026, primeira pesquisa nacional sobre felicidade com recorte social, econômico, comportamental, racial e de gênero. Colunista da Fast Company Brasil e palestrante com atuação em organizações nacionais e internacionais.

Sobre o Mapa da Felicidade Real do Brasil 2026

Primeira pesquisa nacional conduzida sob a metodologia da ciência da felicidade, o Mapa da Felicidade Real do Brasil 2026 foi realizado por Renata Rivetti em parceria com o Instituto Ideia. O estudo ouviu 1.500 brasileiros de todas as regiões do país entre 20 de fevereiro e 1º de março de 2026, com nível de confiança de 95%, margem de erro de 2,5 pontos percentuais e 10 recortes demográficos e sociocultural, incluindo gênero, raça, geração, classe social, região e orientação sexual.


 



 




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