17/08/2026 13h43
Quando o dado ganha rosto: 40 mil pessoas deixaram a pobreza em Mato Grosso do Sul
Eunice é uma entre cerca de 40 mil pessoas que deixaram a pobreza em Mato Grosso do Sul; Estado busca combinar proteção, qualificação e renda para tornar esse avanço permanente
Eunice recebeu o Vale Renda, hoje Mais Social, após perder o marido e ficar sem renda para criar o filho. Aos 51 anos, estudou sozinha, foi aprovada em concurso e assumiu vaga de auxiliar em saúde bucal em Eldorado. Sua trajetória ajuda a dar rosto às 40 mil pessoas que deixaram a pobreza em Mato Grosso do Sul entre 2023 e 2024. Sob Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, a estratégia articula proteção social, qualificação, trabalho e busca ativa para tornar o avanço duradouro.
Quando decidiu prestar um concurso público, Eunice Ferracioli precisou começar do zero. Sozinha em casa, assistia a videoaulas e estudava como podia para disputar uma vaga de auxiliar em saúde bucal na rede municipal de Eldorado. Aos 51 anos, carregava consigo mais do que a expectativa de conseguir um emprego: buscava encerrar uma longa travessia iniciada quando perdeu o marido e ficou sem renda, sem pensão e com um filho ainda bebê para criar.
Naquele período, o então Vale Renda – posteriormente transformado no Mais Social – ajudou Eunice a manter a família enquanto ela procurava maneiras de reorganizar a própria vida. O benefício não eliminava as dificuldades, mas garantia uma base mínima em um momento marcado por dívidas, insegurança e ausência de renda regular.
Durante anos, o apoio complementou o orçamento doméstico. Em 2022, Eunice decidiu enfrentar um novo desafio. Estudou por conta própria, prestou o concurso e conquistou a vaga. Em 2023, tomou posse como auxiliar em saúde bucal na rede municipal de Eldorado.
Hoje, aos 54 anos, possui estabilidade profissional e recorda com emoção o período em que precisou da proteção social para atravessar a fase mais difícil.
“O Mais Social foi fundamental para que eu pudesse chegar até aqui. Quando minha renda aumentou, comemorei a conquista e fiz questão de agradecer pelo período em que fui amparada pelo benefício”, relata.
Com o salário do serviço público, Eunice devolveu o cartão do programa. A decisão não representou apenas uma mudança cadastral, mas a passagem entre duas etapas de sua vida: o período em que dependia do auxílio para sustentar a família e o momento em que o trabalho passou a garantir renda regular.
“Devolvi o cartão feliz e extremamente grata, porque sei que outra pessoa poderá ter a mesma oportunidade que eu tive. O benefício me ajudou a atravessar o momento mais difícil da minha vida e me deu condições para construir um novo futuro”, afirma.
A trajetória de Eunice ajuda a dar rosto a uma mudança registrada pelas estatísticas. Entre 2023 e 2024, aproximadamente 40 mil pessoas deixaram a pobreza em Mato Grosso do Sul, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Outras 70,5 mil deixaram a extrema pobreza, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social.
Os números correspondem à população de uma cidade de médio porte, mas não revelam sozinhos o que mudou dentro de cada casa. Por trás do indicador podem estar o primeiro emprego depois de meses sem renda, a abertura de um pequeno negócio, a conclusão de um curso, a regularização de uma atividade informal ou a possibilidade de comprar alimentos sem precisar escolher qual conta ficará para depois.
Pobreza recua, mas vulnerabilidade permanece
Segundo o IBGE, a proporção da população sul-mato-grossense abaixo da linha de pobreza caiu de 19,1% para 17,5% entre 2023 e 2024.
No mesmo período, a extrema pobreza recuou de 2% para 1,6%, fazendo com que Mato Grosso do Sul registrasse o terceiro menor índice do país nessa categoria.
Os resultados representam uma melhora importante, mas ultrapassar uma linha estatística não significa necessariamente alcançar uma vida segura.
Uma família pode deixar a pobreza quando alguém consegue emprego ou aumenta a renda e, ainda assim, continuar sem qualquer reserva financeira. O aluguel, o preço dos alimentos, as despesas com transporte e o crédito utilizado para completar o orçamento podem manter essa família próxima da vulnerabilidade.
Uma doença, uma demissão ou um gasto inesperado são suficientes para desfazer rapidamente o avanço conquistado.
É nesse espaço entre a melhora estatística e a segurança cotidiana que se encontra o próximo desafio da política social conduzida pelo governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição: transformar a saída da pobreza em autonomia duradoura sem retirar prematuramente a proteção de quem ainda não alcançou estabilidade.
A história de Eunice mostra como essa passagem pode ocorrer. O benefício garantiu apoio durante a fase de maior insegurança, mas sua mudança de vida também dependeu da oportunidade de estudar, da realização do concurso e da existência de uma vaga no serviço público.
A trajetória, portanto, não deve ser apresentada como consequência exclusiva da força de vontade individual nem como resultado isolado de um programa. Ela nasceu da combinação entre esforço pessoal, proteção social, acesso à informação, oportunidade profissional e serviços públicos.
“Quando surge uma oportunidade, a formação profissional, o cuidado com os filhos e o acesso ao trabalho ajudam a transformar proteção em autonomia. A conquista mais importante é aquela que permanece quando a família enfrenta novos momentos difíceis”, afirma Riedel.
Benefício como ponto de apoio
O Mais Social atende cerca de 46 mil famílias em Mato Grosso do Sul. O programa oferece recursos para a compra de alimentos, gás de cozinha e itens essenciais.
A lógica é garantir as necessidades do presente enquanto outras políticas ajudam a construir o futuro. Essa passagem, contudo, precisa respeitar as condições e o tempo de cada família.
Quem consegue o primeiro emprego pode continuar recebendo pouco. Quem abre um pequeno negócio enfrenta custos, vendas instáveis e dificuldades de acesso ao crédito. Trabalhadores autônomos podem obter uma renda maior em determinado mês e quase nada no seguinte.
Por isso, a política social não deve ser avaliada apenas pelo número de cartões devolvidos. Também é necessário acompanhar quantos antigos beneficiários conseguiram emprego, aumentaram a renda, mantiveram seus negócios abertos e não precisaram retornar ao programa.
Quase 900 beneficiários do Mais Social haviam participado de cursos do MS Qualifica, em uma tentativa de aproximar segurança alimentar, formação profissional, emprego e empreendedorismo.
O dado mostra o alcance inicial da iniciativa, mas não permite saber, isoladamente, quantas pessoas concluíram os cursos ou transformaram a qualificação em trabalho e renda. A avaliação do programa dependerá do acompanhamento dos resultados depois da formação.
Para a assistente social Elizani de Sousa Grabner, a proteção social é indispensável nos momentos de vulnerabilidade, mas precisa estar conectada a políticas capazes de ampliar as possibilidades das famílias.
“O benefício social é fundamental para garantir proteção às famílias que enfrentam situações de vulnerabilidade, atendendo às necessidades mais imediatas. Mas ele, sozinho, não transforma realidades”, afirma.
Segundo Elizani, a qualificação profissional amplia competências e possibilidades de entrada no mercado de trabalho, enquanto a inclusão produtiva cria condições para a geração de renda e o fortalecimento da autonomia.
“É justamente a integração dessas estratégias que faz a diferença. Elas deixam de responder apenas às urgências do presente e passam a abrir caminhos para um futuro com mais independência, cidadania e acesso a direitos. Esse é o caminho para romper ciclos de vulnerabilidade e construir uma transformação social duradoura”, explica.
Entre o primeiro emprego e a estabilidade
O acesso ao trabalho é uma das principais portas de saída da pobreza, mas nem todo emprego oferece segurança suficiente para proteger uma família de novas crises.
Vínculos temporários, atividades informais, baixos salários e jornadas irregulares podem aumentar a renda sem eliminar a vulnerabilidade. Mesmo empregados, muitos trabalhadores continuam recorrendo ao crédito para comprar alimentos, pagar aluguel ou enfrentar despesas médicas.
Da mesma forma, abrir um negócio não garante retorno imediato. Pequenos empreendedores precisam arcar com insumos, equipamentos, transporte e oscilações nas vendas. Sem orientação ou capital de giro, a atividade pode desaparecer diante do primeiro contratempo.
É por isso que a autonomia não pode ser compreendida apenas como ausência de benefício social. Ela envolve renda regular, alimentação adequada, capacidade de pagar as despesas e alguma proteção contra imprevistos.
No caso de Eunice, a aprovação no concurso público produziu uma mudança mais profunda porque ofereceu previsibilidade. O salário mensal permitiu organizar o orçamento e encerrar a dependência do programa sem que a família ficasse imediatamente exposta a uma nova queda.
Nem todos os beneficiários, entretanto, encontrarão o mesmo caminho. Alguns dependerão de emprego formal no setor privado; outros construirão renda por meio do trabalho autônomo, da agricultura familiar ou de pequenos negócios.
A política pública precisa reconhecer essas diferenças e oferecer instrumentos adequados para cada trajetória.
Encontrar quem ainda está fora da rede
Enquanto parte das famílias avança em direção à autonomia, outras permanecem em extrema pobreza sem sequer receber os benefícios aos quais poderiam ter direito.
Desde março de 2025, o Governo do Estado realiza busca ativa nos 79 municípios, utilizando cruzamento de dados e georreferenciamento para localizar pessoas vulneráveis que ainda não foram alcançadas pela rede de assistência.
A iniciativa parte do reconhecimento de que a melhora das médias estaduais não elimina os bolsões de pobreza nem faz com que os programas cheguem automaticamente a todos os que precisam.
Falta de informação, ausência de documentos, mudanças frequentes de endereço e dificuldade de deslocamento podem manter uma família afastada dos serviços públicos.
A nova etapa da política social precisa, portanto, atuar em duas direções. De um lado, localizar e proteger quem ainda enfrenta as formas mais graves de privação. Do outro, criar condições para que as famílias que melhoraram de renda não percam tudo diante de um novo período de dificuldade.
Cuidado, estudo e renda precisam caminhar juntos
A entrada no mercado de trabalho não depende apenas da existência de uma vaga.
Uma mãe pode encontrar emprego e não ter com quem deixar os filhos. Um jovem pode iniciar um curso técnico e abandoná-lo para ajudar nas despesas da casa. Uma pessoa responsável pelo cuidado permanente de um familiar com deficiência pode não conseguir cumprir uma jornada tradicional.
Programas de permanência estudantil, apoio ao cuidado e qualificação profissional procuram enfrentar essas barreiras.
Uma vaga de emprego pouco resolve quando o trabalhador não possui a formação exigida. Um curso, por sua vez, pode produzir poucos resultados quando o aluno não tem recursos para transporte ou precisa escolher entre frequentar as aulas e garantir a renda imediata.
“O caminho exige políticas conectadas: assistência para assegurar dignidade, educação para ampliar escolhas e trabalho para construir renda”, afirma Riedel.
Na estratégia apresentada pelo governo, o próximo ciclo da política social não deve buscar apenas reduzir o número de beneficiários. A meta precisa ser diminuir a necessidade de permanência nos programas por meio da ampliação das oportunidades e, ao mesmo tempo, preservar o apoio a quem ainda não possui condições de caminhar sozinho.
Uma conquista que precisa durar
Mato Grosso do Sul reduziu a pobreza e a extrema pobreza entre 2023 e 2024. A qualidade desse avanço, no entanto, será conhecida ao longo dos próximos anos.
Será necessário medir quantas famílias continuam fora da pobreza depois de um, dois ou três anos; quantas conquistaram emprego formal; quantos pequenos negócios permaneceram abertos; e quantos jovens concluíram a formação e melhoraram a renda.
Também será preciso observar quantas pessoas retornaram aos programas depois de perder o trabalho ou enfrentar uma emergência familiar.
A saída de Eunice do Mais Social representa o resultado esperado de uma política que oferece proteção durante a vulnerabilidade e abre espaço para uma nova etapa. O benefício ajudou a sustentar a família; o estudo permitiu disputar uma oportunidade; e o concurso público trouxe estabilidade.
Hoje, ela guarda a memória do auxílio recebido sem precisar depender dele para atravessar o mês. Sua história não resume as experiências das cerca de 40 mil pessoas que deixaram a pobreza, mas ajuda a compreender o que o indicador procura representar.
Quando o dado ganha rosto, a política social aparece na comida garantida durante a dificuldade, nas horas de estudo diante de uma tela, na aprovação em um concurso, na devolução do cartão e na tranquilidade de saber que uma despesa inesperada não devolverá imediatamente a família ao ponto de partida.
“Sair da pobreza é o começo. Fazer essa conquista durar é o que transforma assistência em autonomia”, conclui Riedel.



