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Meninos também precisam entender: por que falar sobre menstruação não pode ser só coisa de menina?


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  • mell280

30/09/2026 11h45

Meninos também precisam entender: por que falar sobre menstruação não pode ser só coisa de menina?

Francielle Mesquita


 

Pesquisa mostra que 23,7% dos meninos reconhecem impactos da menstruação na rotina escolar, contra 41,2% das meninas; especialistas defendem que o tema seja tratado com toda a turma

 

Menstruação ainda é um assunto pouco discutido com os meninos dentro das escolas. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Alana em parceria com o Equidade.info, com 2.551 estudantes, 303 professores e 181 gestores, mostra que 36,8% dos meninos dizem não pensar muito sobre o tema. Entre as meninas, o índice é de 19,7%.

A diferença também aparece quando os estudantes são questionados sobre os efeitos do período menstrual. Apenas 23,7% dos meninos acreditam que a menstruação pode atrapalhar a escola ou a prática esportiva, enquanto 41,2% das meninas reconhecem esse impacto. Os números também foram destacados pela Folha de S.Paulo em reportagem sobre o assunto.

O dado ajuda a explicar por que a educação menstrual não deveria ficar restrita às meninas, como defendem os especialistas. Meninos não menstruam, mas convivem com colegas que menstruam. Entender o que acontece no corpo feminino pode evitar constrangimentos e ajudar a combater piadas e preconceitos que aparecem quando falta informação.

Quando a falta de informação vira piada

A ausência de conversa pode aparecer no cotidiano escolar. Reportagem da Folha de S.Paulo reuniu relatos de adolescentes sobre situações em que meninos e meninas foram separados durante aulas de saúde sexual. Enquanto eles recebiam informações sobre preservativos, elas aprendiam sobre absorventes.

O próprio UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) recomenda que meninos participem das conversas sobre menstruação. Segundo o Fundo , o diálogo ajuda a corrigir informações equivocadas, reduzir o estigma e preparar crianças e adolescentes para apoiar meninas que menstruam.

A discussão não precisa ficar restrita à escola. A família também é um dos primeiros lugares onde dúvidas sobre o corpo aparecem.

O assunto começa em casa

Foi dentro de uma família que a percepção sobre essa falta de informação ganhou outro contorno por meio da experiência de Sophia, filha do casal Rômulo e Verônica Gomes. 

Rômulo trabalha com desenvolvimento de aplicativos. Verônica é enfermeira. Quando a filha (chamada de Sosô pela família) tinha 8 anos, os dois perceberam mudanças em seu corpo e procuraram atendimento médico. A orientação foi de que a primeira menstruação poderia acontecer antes do que eles imaginavam.

Os dois passaram os anos seguintes estudando o assunto e conversando com a filha. Quando ela menstruou, aos 10 anos, sabia o que estava acontecendo. 

O resultado dessas conversas surgiu efeito em outros integrantes da família. O irmão mais novo de Sophia, com 10 anos, também já sabe o que é menstruação, entende como funciona o ciclo e sabe o que fazer se uma colega de escola, por exemplo, estiver sem absorvente em um momento de necessidade. 

Ou seja, um menino, mais jovem e informado sobre um assunto que a maioria dos garotos de sua idade ainda não discute na prática ou não tem acesso às informações sobre menstruação por ainda ser considerado um tabu. 

O problema apareceu depois: Sophia foi a primeira das amigas a passar pela experiência da menarca e não tinha outras meninas da mesma idade com quem conversar.

Algumas semanas mais tarde, ela pediu aos pais um aplicativo para acompanhar o ciclo. E nessa busca por um aplicativo adequado para a idade da filha, os pais não encontraram nenhuma ferramenta que estivesse isenta de temas sobre gravidez ou atividade sexual, pensados para essa faixa etária. 

Foi diante dessa lacuna que a experiência levou Rômulo e Verônica a criar o Sosô, um aplicativo voltado  à primeira menstruação e à puberdade. A proposta é falar sobre o corpo para crianças e adolescentes sem antecipar conteúdos idealizados para adultos.

A própria história da família está na origem do aplicativo. Rômulo ficou responsável pela parte técnica, enquanto Verônica, a partir da experiência profissional na área da saúde, passou a cuidar dos conteúdos e da linguagem. Sophia também participa das decisões sobre o que faz sentido para alguém da idade dela.

A diferença de proposta está justamente aí: tratar crianças como crianças, inclusive quando o assunto é menstruação.

Informação também ajuda a pedir ajuda

Falar sobre o ciclo menstrual não serve apenas para preparar uma menina para a primeira menstruação. A informação pode ajudá-la a reconhecer quando algo foge do esperado e a contar aos adultos o que está sentindo.

Dor intensa, alterações no ciclo ou sintomas que interferem na rotina podem ser levados a um profissional de saúde com mais facilidade quando a criança sabe nomear o que acontece com seu corpo.

m uma amiga que ainda não menstruou. Um menino que conhece o assunto pode deixar de transformar a situação em piada e, diante de uma colega constrangida, saber que ela pode precisar de apoio.

O UNICEF destaca que o silêncio e a desinformação podem fazer adolescentes deixarem de buscar apoio na escola e nos serviços de saúde. Em 2026, a organização voltou a defender que dignidade menstrual envolve informação de qualidade e ambientes seguros, além de produtos e infraestrutura.

Uma conversa que não termina na primeira menstruação

A primeira menstruação é apenas uma das mudanças da puberdade. Por isso, a conversa também não precisa acontecer uma única vez.

Pais podem responder às dúvidas conforme elas aparecem. Professores podem abordar o tema dentro das aulas de Ciências e saúde. E os próprios adolescentes podem encontrar espaços para trocar experiências sem transformar o assunto em motivo de constrangimento.

A experiência da família de Sophia começou com uma consulta médica, passou por dois anos de preparação e terminou também em uma ferramenta que outras famílias podem usar. O ponto de partida, porém, foi mais simples: uma criança que fez uma pergunta e pais dispostos a procurar uma resposta adequada para ela.

Falar sobre menstruação não faz os meninos vivenciarem uma realidade que biologicamente não é deles. Faz com que eles entendam melhor a realidade de quem está ao seu lado.

E, para quem menstrua, saber que pode falar sobre o próprio corpo pode ser a diferença entre guardar uma dúvida em silêncio e procurar ajuda quando ela for necessária.





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