- mell280
02/10/2026 09h23
O Brasil ainda sabe acolher imigrantes?
*Cristina Seixas
O fenômeno da imigração faz parte da formação histórica do Brasil desde o período colonial e se intensificou entre meados do século XIX e as primeiras décadas do século XX, principalmente com a chegada de italianos, japoneses, portugueses, alemães e árabes.
Após um período de retração provocado por medidas restritivas, os fluxos migratórios se intensificaram novamente na segunda metade do século XX, mas com um novo perfil: pessoas vindas sobretudo da América Latina, da Ásia e da África.
Mais recentemente, o Brasil se tornou destino de refugiados e migrantes de diversos países, como Venezuela, Afeganistão, Haiti e Síria, marcados por crises políticas e humanitárias, conflitos e desastres naturais.
Hoje, segundo o Observatório das Migrações Internacionais – OBMIGRA, o Brasil abriga cerca de 2 milhões de imigrantes. O projeto relata as diversas recomendações para a sua integração à sociedade brasileira, com o objetivo de implementar a nova Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (PNMRA).
Durante o II Fórum Internacional de Revisão da Migração (IMRF), realizado em maio na sede da ONU, em Nova Iorque, o Brasil participou ativamente e apresentou 11 compromissos, com o objetivo de fortalecer a governança migratória nacional, com destaque ao acolhimento humanitário e ao combate à xenofobia, além da implementação e do monitoramento contínuo da Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia.
A ONU para Refugiados (ACNUR) tem reconhecido a relevância da nova política, definida por seu representante no Brasil, Davide Torzilli, como única no mundo, e o compromisso brasileiro com um sistema de proteção baseado em direitos humanos, cooperação internacional e responsabilidades compartilhadas. No entanto, acolher bem não se resume à entrada regular no país, porque pressupõe criar condições reais para que imigrantes, refugiados e apátridas participem da vida social e econômica.
O depoimento de Navid Manafi Rasi, publicado na revista Veja de 24/7/2026, ilustra com força o papel do Brasil como país de acolhimento. Fugitivo do Irã por ser gay, enfrentou uma viagem tumultuada a caminho do Brasil e sofreu um acidente de carro no Peru, perto da fronteira.
Em estado de choque, foi levado até a polícia e, aos prantos, pediu refúgio. O agente respondeu: “Bem-vindo ao Brasil, o Brasil é para todos. Fique tranquilo, não precisa chorar”. Depois disso, Navid conseguiu se estabelecer no país. Como resumiu em seu depoimento: “O Brasil me deu casa, paz e o direito de existir de verdade”.
*Nascida em Roma e radicada no Rio de Janeiro, Cristina Seixas é jornalista, tradutora, estilista e mestre em Design pela PUC-Rio. É autora da biografia "Rabena Karib”, que revela a jornada de um casal de imigrantes no Brasil
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