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Direita e esquerda: por que a política americana não cabe na régua brasileira?


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  • mell280

06/11/2026 06h41

Direita e esquerda: por que a política americana não cabe na régua brasileira?

Neide Martingo


Por Bruno Corano

Uma das maiores confusões no debate político brasileiro é tentar interpretar a política americana a partir das nossas próprias referências. É comum ouvir que quem é de direita no Brasil necessariamente se identifica com Donald Trump e os republicanos, enquanto quem é de esquerda estaria naturalmente alinhado aos democratas. Essa associação, porém, é muito mais complexa do que parece. Brasil e Estados Unidos têm histórias políticas, estruturas partidárias e características sociais bastante diferentes. Transportar automaticamente os conceitos de um país para o outro pode levar a interpretações equivocadas.

No Brasil, a direita costuma ser associada ao conservadorismo nos costumes, à defesa de um Estado menor, à redução de gastos públicos e a uma visão mais liberal da economia. A esquerda, por sua vez, é frequentemente relacionada à ampliação da participação do Estado, às políticas sociais e a uma maior intervenção na economia. São generalizações, evidentemente, mas que ajudam a explicar como o debate costuma ser organizado por aqui.

Nos Estados Unidos, entretanto, encontramos uma configuração bastante diferente. Os democratas, tradicionalmente identificados com a esquerda americana, têm forte presença entre pessoas com maior escolaridade, renda elevada e moradores dos grandes centros urbanos e regiões metropolitanas. Já os republicanos encontram uma base eleitoral expressiva em áreas rurais, comunidades mais conservadoras e segmentos da população que defendem valores tradicionais.

Isso já deveria ser suficiente para mostrar que a divisão política não segue uma fórmula universal. Durante boa parte da história americana contemporânea, republicanos e democratas também estiveram muito mais próximos do centro político do que o atual ambiente de polarização pode sugerir. Houve presidentes democratas com forte compromisso com a responsabilidade fiscal e presidentes republicanos que ampliaram significativamente os gastos públicos. Portanto, a ideia de que a direita necessariamente gasta menos e a esquerda necessariamente gasta mais não resiste a uma análise mais cuidadosa da história econômica americana.

O próprio governo Donald Trump é um exemplo de como essa associação pode ser simplista. Embora o discurso republicano tradicionalmente valorize a contenção dos gastos e a redução do tamanho do Estado, a prática fiscal dos governos precisa ser analisada a partir de suas decisões concretas, e não apenas de sua identificação partidária. Outro aspecto importante é a origem histórica dessas expressões. Direita e esquerda surgiram durante a Revolução Francesa, no final do século XVIII. Na Assembleia Nacional, os representantes favoráveis à manutenção da monarquia e das estruturas tradicionais ocupavam, em geral, os assentos à direita do presidente da sessão. Os defensores de mudanças mais profundas na organização política e social sentavam-se à esquerda.

A partir dessa disposição física, consolidaram-se conceitos que passaram a identificar diferentes posições ideológicas. Mas o mundo mudou profundamente desde então. A sociedade se tornou mais complexa, as demandas individuais se diversificaram e as fronteiras ideológicas deixaram de ser tão claras. Hoje, uma pessoa pode defender o direito ao porte de armas e, ao mesmo tempo, ser favorável ao aborto. Pode apoiar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e defender um Estado menor, com menos interferência na economia. Pode valorizar a meritocracia, a eficiência administrativa e a responsabilidade fiscal, sem necessariamente se identificar com a direita ou a esquerda.

Isso acontece porque as convicções políticas não são um pacote fechado. As pessoas têm opiniões diferentes sobre economia, comportamento, segurança pública, direitos individuais e o papel do Estado. Não existe obrigação de concordar com todas as posições tradicionalmente atribuídas a um campo ideológico. Essa discussão ganha ainda mais relevância diante dos recentes resultados das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. A expressiva vitória dos democratas, que conquistaram o controle das duas Casas do Congresso, representa uma mudança importante na correlação de forças políticas do país e impõe novos limites à atuação do presidente Donald Trump.

Com a nova composição do Congresso, os democratas terão condições de ampliar a fiscalização do Executivo, abrir investigações, convocar autoridades e exercer maior controle sobre a agenda legislativa e orçamentária. Isso não significa que todas as iniciativas do presidente serão automaticamente interrompidas, mas certamente altera o ambiente político em Washington.

E há um detalhe particularmente interessante nessa história: a reação dos mercados financeiros. À primeira vista, poderia parecer natural que uma vitória expressiva dos democratas provocasse preocupação entre investidores mais alinhados a uma agenda econômica republicana. Mas aconteceu justamente o contrário. As bolsas americanas avançaram, enquanto o índice VIX, conhecido como o indicador do medo do mercado, recuou.

Na sessão de 4 de novembro, o Dow Jones subiu 3,03%, o S&P 500 avançou 1,58% e o Nasdaq ganhou 1,44%. O VIX também caiu significativamente, sinalizando uma redução da expectativa de volatilidade. Como explicar esse movimento? O mercado não funciona necessariamente a partir de preferências partidárias. Investidores estão interessados, sobretudo, nas consequências econômicas das decisões políticas. E uma das coisas que mais incomodam os mercados é a imprevisibilidade.

Um Congresso controlado por um partido diferente daquele que ocupa a Casa Branca pode representar um sistema de freios e contrapesos mais efetivo. A possibilidade de maior fiscalização e de dificuldades para aprovar mudanças bruscas na legislação pode ser interpretada pelos investidores como um fator de estabilidade. É importante lembrar que essa reação não representa uma aprovação automática da agenda democrata. Ela reflete, em boa medida, a expectativa de um ambiente institucional mais equilibrado e de menor incerteza em relação aos próximos passos do governo.

Isso não elimina os riscos. Uma oposição mais forte também pode aumentar os conflitos políticos, dificultar negociações e provocar disputas em torno de temas importantes, como orçamento, política comercial, regulação tecnológica e gastos públicos. Mas existe uma lição importante nessa reação: o mercado não está necessariamente interessado em saber quem venceu a disputa ideológica. Está interessado em entender o que essa vitória significa para a economia, para as empresas e para a previsibilidade das regras.

Um caminho poderia ser a revisão sobre a maneira como interpretamos a política. Direita e esquerda são referências históricas importantes, mas não explicam sozinhas a complexidade das escolhas individuais, das políticas públicas e das decisões econômicas. A discussão não se limita a se um governo é de direita ou de esquerda; deveríamos observar o que ele efetivamente faz, quanto gasta, como administra os recursos públicos, quais regras estabelece e quais resultados entrega. Tanto na política quanto na economia, os rótulos podem até facilitar uma conversa. Mas dificilmente substituem uma análise.

Bruno Corano é economista da Corano Capital

 

 

 




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