- mell280
12/05/2026 08h28
Com 34% do lixo descartado irregularmente empresas ampliam risco jurídico e reputacional
O Brasil gerou mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2025, mas reciclou apenas 8,7% desse volume, segundo dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Ao mesmo tempo, cerca de 34% dos resíduos ainda tiveram destinação considerada inadequada, cenário que mantém perdas econômicas estimadas em R$130 bilhões por ano e amplia a pressão sobre as empresas em meio ao avanço das metas ESG e das exigências regulatórias.
Em um mercado cada vez mais cobrado por rastreabilidade, comprovação ambiental e transparência na cadeia produtiva, empresas brasileiras ainda enfrentam dificuldade para responder uma pergunta básica sobre as próprias operações: para onde vai o lixo gerado diariamente. O debate ganha força às vésperas do Dia Mundial da Reciclagem, celebrado em 17 de maio, em um momento em que a sustentabilidade deixa de ocupar apenas o discurso institucional para se consolidar como tema de governança, segurança jurídica e risco reputacional.
Além do impacto ambiental, a falta de controle sobre a cadeia de resíduos começa a gerar consequências financeiras e operacionais para empresas de diferentes setores. Em segmentos como construção civil, varejo e indústria de bens de consumo, que concentram operações simultâneas espalhadas pelo país, a ausência de rastreabilidade vem ampliando a exposição a multas, embargos e acusações de greenwashing.
“O gerador carrega a responsabilidade legal, mas não possui a visibilidade real do processo”, afirma Eduardo Nascimento, fundador da greentech Minha Coleta.
Na avaliação do empresário, o problema nasce de uma fragmentação histórica do setor de resíduos no Brasil. Embora a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) estabeleça diretrizes para destinação ambientalmente adequada, a cadeia ainda opera de forma descentralizada, com baixa integração de dados e forte dependência de processos manuais. Informações ficam dispersas entre diferentes operadores, transportadores e fornecedores, dificultando auditorias e reduzindo a capacidade das empresas de acompanhar o destino efetivo dos resíduos gerados.
Segundo Nascimento, muitas companhias ampliaram suas operações mais rapidamente do que a capacidade de estruturar governança ambiental sobre os próprios processos, criando o que ele define como uma “cegueira operacional” na gestão de resíduos.
“Essas empresas cresceram muito mais rápido do que a capacidade de estruturar governança ambiental sobre os próprios resíduos”, diz.
O cenário se torna ainda mais sensível porque a legislação brasileira estabelece responsabilidade solidária sobre a destinação final do lixo. Na prática, isso significa que, mesmo quando irregularidades acontecem em etapas terceirizadas da cadeia, a empresa geradora ainda pode responder judicialmente pelo problema.
As consequências vão além das sanções ambientais. Além de multas milionárias e risco de embargo operacional, cresce entre as empresas a preocupação com danos reputacionais em um ambiente de maior pressão de investidores, consumidores e fundos ligados a critérios ESG. Na visão da Minha Coleta, o mercado vive uma mudança de lógica: impacto ambiental declarado sem comprovação técnica já não é suficiente para sustentar posicionamentos corporativos.
“A sustentabilidade deixou de ser discurso institucional. Ela virou infraestrutura de decisão e segurança jurídica”, afirma Nascimento.
O impacto também aparece diretamente no caixa das empresas. Parte das perdas bilionárias associadas à gestão inadequada de resíduos está ligada à falta de integração logística, ineficiência operacional e ausência de inteligência sobre fluxo, coleta e reaproveitamento de materiais.
Segundo o CEO da greentech, empresas que passam a operar com dados estruturados conseguem reduzir custos de coleta, otimizar rotas, diminuir tempo gasto com backoffice ambiental e até gerar novas receitas com materiais recicláveis e créditos ligados à logística reversa e à economia circular.
Dados internos da Minha Coleta ajudam a ilustrar esse movimento. A startup afirma já ter gerenciado mais de 250 mil toneladas de resíduos com rastreabilidade auditável e alcançado taxa de recuperação de 42%, índice significativamente superior à média nacional de reciclagem.
Em um dos casos compartilhados pela empresa, uma operação no varejo farmacêutico registrou economia direta de R$12,5 mil em apenas cinco meses após a reestruturação estratégica da frequência de coletas. Já na construção civil, operações conduzidas com a Cyrela atingiram taxa de recuperação de 57% em treze obras simultâneas.
Para Nascimento, o principal gargalo brasileiro atualmente não está na ausência de legislação ambiental, mas na dificuldade de transformar exigências regulatórias em uma estrutura de governança capaz de conectar todos os atores da cadeia de resíduos de forma auditável e escalável.
“O mercado brasileiro não sofre por falta de lei. Sofre pela dificuldade de transformar boa vontade operacional em processos rastreáveis”, afirma.
O executivo também defende que a integração de cooperativas e operadores em sistemas organizados de governança pode alterar a dinâmica econômica da reciclagem no país. Segundo ele, quando esses agentes passam a operar com previsibilidade e rastreabilidade, o trabalho deixa de ser invisível, reduz a informalidade e amplia a segurança operacional para toda a cadeia.
Em meio ao avanço das metas ESG e da pressão regulatória sobre empresas, a gestão de resíduos começa a deixar de ser tratada apenas como uma atividade operacional para ocupar espaço estratégico nas áreas jurídica, financeira e de governança corporativa.
“Impacto declarado sem dado que feche a conta não protege ninguém”, afirma o executivo, em um momento em que a gestão de resíduos deixa de ocupar apenas os bastidores operacionais para entrar no centro das #decisões corporativas.
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