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Selic a 12% em xeque: dívida projetada em 86,8% do PIB limita espaço para cortes em 2027


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21/08/2026 12h47

Selic a 12% em xeque: dívida projetada em 86,8% do PIB limita espaço para cortes em 2027

Luiza Torres


"A questão central não é apenas quanto o Banco Central poderá cortar a Selic, mas quanto dessa redução efetivamente chegará ao custo de capital da economia", Cassio Viana de Jesus, Investimentos e Novos Negócios da Pilar Capital

       “O fiscal de 2027 tem uma ligação direta com o funcionamento do mercado de capitais porque influencia a curva de juros, o prêmio de risco e, consequentemente, a estruturação de praticamente todas as operações financeiras. Se o mercado enxergar dificuldade para estabilizar a dívida pública, os juros longos podem permanecer elevados mesmo com cortes da Selic, aumentando a taxa de referência usada para precificar crédito privado, fundos estruturados e operações de longo prazo. Isso tende a tornar mais importante a qualidade da estrutura financeira por trás de FIDCs, FIIs, FIPs, Fiagros e fundos exclusivos, especialmente na definição de garantias, governança, liquidez e risco dos ativos. Em um ambiente de maior volatilidade, a administração fiduciária e a infraestrutura do mercado deixam de ser apenas questões operacionais e passam a ter papel central na segurança das operações. Quanto maior a incerteza macroeconômica, maior a necessidade de estruturas transparentes, controles mais rigorosos e separação adequada de riscos entre gestores, investidores e veículos. Para 2027, o desafio do mercado de capitais será continuar oferecendo alternativas de financiamento e investimento mesmo em um cenário de juros ainda altos, o que exige mais precisão na estruturação e mais disciplina na gestão dos riscos”, CEO da Azumi Investimentos.

      “Mesmo com a atividade econômica perdendo força, o Banco Central pode ter dificuldade para acelerar os cortes da Selic se houver piora na percepção fiscal. Isso ocorre porque um fiscal mais frágil aumenta o prêmio de risco, pressiona os juros longos e o câmbio e pode reabrir pressões sobre a inflação e as expectativas. Na prática, o Copom pode ser obrigado a manter uma postura mais cautelosa justamente quando a economia já estiver desacelerando. Para 2027, o efeito seria um crescimento mais fraco, com crédito ainda caro, maior seletividade dos bancos e pior ambiente para empresas alavancadas e setores mais dependentes de juros baixos”, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

       “O ponto que quase ninguém explica é que fiscal e juro não são dois assuntos, são o mesmo assunto. Quando o mercado duvida da trajetória da dívida, ele cobra prêmio na ponta longa da curva, e é a ponta longa que determina o custo de captação das empresas, não a Selic de amanhã. Por isso cortar 0,25 ponto por reunião muda muito pouco a vida de quem precisa rolar dívida. A própria ata do Copom diz isso, que incerteza sobre a estabilização da dívida tende a elevar o juro neutro, e juro neutro mais alto significa que a mesma Selic aperta mais do que deveria. Existe até um precedente disso funcionando ao contrário, porque em 2016, quando o país criou uma regra fiscal crível, os juros longos caíram rápido e abriram espaço para um ciclo profundo de queda da Selic. Sobre 2027, eu não trabalho com recessão como cenário central, e o mercado também não, já que a projeção de crescimento segue positiva mesmo depois de várias semanas de revisão para baixo. Mas o risco é real e ele é específico, é a economia entrar no ano já desalavancando, com empresa e família endividadas, e ainda precisar de política monetária restritiva porque a inflação não convergiu. E a evidência de que o juro alto já chegou está nas recuperações judiciais e na retração das emissões de dívida corporativa. Um ajuste fiscal crível pesaria na atividade no primeiro momento, mas seria mais do que compensado pelo espaço que abriria para o Banco Central cortar de verdade,” André Matos, CEO da MA7 Capital.

       “A política contracionista funciona, mas neste ano dois movimentos atuaram de forma contracíclica e reduziram o seu efeito. No crédito a pessoa física, houve aumento da concessão por causa das mudanças no consignado. No crédito a empresas, o avanço dos FIDCs e a entrada de novos neobancos ampliaram a oferta de recursos e colocaram dinheiro no mercado, o que minimizou o aperto monetário. Somou-se a isso o fator eleitoral. Como acontece em todo ano de eleição, 2026 teve forte injeção de recursos na economia real, com um total de R$ 283,2 bilhões. Esse volume não se repete em 2027, ou seja, deixa de sustentar a atividade no próximo ano. Com o crescimento do consignado, próximo de R$ 100 bilhões, e a expansão dos novos entrantes como FIDCs e neobancos, a consequência natural é o aumento da inadimplência. À medida que a inadimplência sobe, esses entrantes reduzem a oferta de crédito novo. Descontado o dinheiro que não deve entrar em 2027, o cenário aponta para uma leve recessão. Os dados dos últimos três e quatro meses são deflacionários, mesmo com o petróleo em torno de US$ 90 o barril. Não é uma recessão no nível de 2015 e 2016, mas uma retração moderada é plausível. Esse quadro indica que o Banco Central vem agindo de forma correta ao reduzir a Selic de forma gradual, mesmo diante do petróleo alto no cenário externo. Para o empresário, o recado é que planejar aumento de faturamento em 2027 será desafiador. O crescimento no próximo ano virá de ganhar espaço da concorrência e de operar com mais eficiência. Como empresa de crédito, recomendamos o alongamento do passivo e a redução do custo de captação. Quando a economia cresce, a própria expansão puxa a empresa mesmo quando ela não é tão eficiente. No próximo ano, o mercado a ser disputado será menor, e o ganho terá que vir da eficiência e da disputa por participação, não do crescimento geral da economia” Volnei Eyng, CEO da gestora Multiplike

      “Ceteris paribus, a perda de força da atividade econômica amplia o espaço para a continuidade dos cortes da Selic, e o IBC-Br, com queda de 0,6% em junho e avanço de apenas 0,2% no segundo trimestre, reforça essa leitura. O problema é que a política monetária não opera isoladamente: uma piora na percepção fiscal pode elevar o prêmio de risco, pressionar os juros longos e o câmbio e dificultar a reancoragem das expectativas de inflação, reduzindo o espaço para uma flexibilização mais rápida pelo Copom. Nesse cenário, a Selic pode cair sem que o custo de capital recue na mesma intensidade, já que decisões empresariais de investimento, crédito de longo prazo e novos projetos continuam sensíveis à curva longa. Para 2027, isso pode significar menor investimento e crescimento mesmo com juros básicos em queda. O Focus já aponta PIB de 1,50%, inflação de 4,24% e Selic de 12% ao final do ano, antes mesmo de incorporar plenamente riscos ligados à desaceleração dos serviços e do consumo, ao ambiente externo, à geopolítica e ao ciclo eleitoral. Por isso, a questão central não é apenas quanto o Banco Central poderá cortar a Selic, mas quanto dessa redução efetivamente chegará ao custo de capital da economia”, Cassio Viana de Jesus, Investimentos e Novos Negócios da Pilar Capital

      “A transmissão da política monetária para o crédito acontece com atraso, e é justamente por isso que 2027 merece atenção. Uma empresa ou uma família não sente uma Selic de 14% apenas no mês da decisão do Copom; sente quando precisa renovar uma dívida, financiar um investimento ou reorganizar o fluxo de caixa. Se essa necessidade chega depois de vários trimestres de juros elevados, a situação financeira já pode estar mais apertada. O fiscal entra nessa equação porque uma piora das contas públicas mantém elevados os juros de longo prazo e reduz o espaço para o Banco Central acelerar o corte da Selic sem pressionar câmbio e expectativas de inflação. É esse mecanismo que pode fazer o crédito continuar restritivo mesmo com alguma queda da taxa básica. Ao mesmo tempo, não vejo 2027 apenas pela ótica de falta de crédito, mas de mudança na forma de tomá-lo. Em um ambiente de maior seletividade, garantia, prazo, capacidade real de pagamento e estrutura da operação ganham peso. Há uma diferença enorme entre simplesmente buscar dinheiro mais barato e reorganizar passivos com instrumentos adequados ao fluxo de caixa. O próximo ciclo tende a exigir muito mais planejamento financeiro e menos dependência de crédito curto e sem garantia”, Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.  

      “O problema para 2027 não é simplesmente saber quantos pontos o Banco Central conseguirá cortar da Selic. A questão central é qual será o juro de equilíbrio que o mercado aceitará diante de uma dívida pública crescente e de expectativas de inflação ainda acima da meta. Se o fiscal não produzir uma trajetória crível, o prêmio exigido nos títulos públicos tende a permanecer elevado e isso contamina toda a curva de juros, inclusive os prazos que dependem menos da Selic corrente. Nesse ambiente, o BC pode até continuar reduzindo a taxa nominal diante da desaceleração da atividade, mas encontrar dificuldade para produzir um afrouxamento financeiro equivalente na economia. É possível, portanto, ter Selic menor e ainda conviver com custo de capital alto. O cenário externo adiciona outra camada: o Fed mantém juros entre 3,5% e 3,75% e a inflação americana segue acima da meta, enquanto choques de energia e tensões geopolíticas limitam uma flexibilização global rápida. Para o investidor brasileiro, 2027 tende a exigir uma leitura menos binária entre renda fixa e risco. A diferença estará em prazo, qualidade de crédito, liquidez e capacidade de atravessar um período em que juros reais podem permanecer estruturalmente elevados mesmo durante um ciclo de cortes”, Gustavo Assis, CEO da Asset.

       “O sinal mais importante para 2027 talvez não esteja apenas no nível da Selic, mas na redução da abundância de capital. Durante boa parte do ciclo de aperto monetário, diferentes canais conseguiram amortecer a retração bancária. O mercado de capitais cresceu, novas estruturas de crédito ganharam espaço e empresas encontraram maneiras alternativas de financiar clientes, fornecedores e capital de giro. Se o fiscal mantiver o prêmio de risco elevado ao mesmo tempo em que a economia desacelera, esses canais passam a ser mais seletivos. Isso cria uma mudança estrutural interessante: empresas começam a perceber que não precisam ser apenas consumidoras de produtos bancários. Uma companhia com grande base de clientes, fornecedores ou distribuidores possui dados, fluxo financeiro e relacionamento que podem permitir a criação de soluções próprias de crédito e pagamentos, desde que exista governança adequada. O ambiente externo reforça essa necessidade de eficiência. A desinflação global estagnou e os bancos centrais ainda enfrentam choques de energia e incerteza geopolítica, o que reduz a perspectiva de retorno rápido à era do dinheiro muito barato. No Brasil, o desafio de 2027 será transformar gestão financeira em estratégia operacional, olhando capital de giro, pagamentos e crédito de maneira integrada, e não como decisões independentes”, Leticia Moschioni, Sócia da Finscale.

       “O Brasil não define a trajetória dos juros em isolamento. Em 2027, a Selic dependerá das contas públicas brasileiras, mas também de quanto retorno um investidor consegue obter sem assumir risco de emergente. Hoje o Fed mantém os juros entre 3,5% e 3,75%, enquanto a inflação americana ainda está acima da meta de 2%. Se os juros internacionais permanecerem relativamente altos, o Brasil precisa oferecer um prêmio compatível para manter capital e estabilizar o câmbio. É nesse ponto que o fiscal doméstico se torna ainda mais relevante: deterioração das contas públicas e juros americanos altos podem trabalhar na mesma direção, aumentando o prêmio exigido sobre ativos brasileiros. O inverso também é verdadeiro. Uma melhora fiscal crível poderia reduzir parte desse prêmio mesmo antes de uma queda expressiva da Selic. Para o investidor, essa combinação mostra por que diversificação internacional não deve ser tratada apenas como uma aposta no dólar. Brasil e Estados Unidos vivem ciclos de inflação, juros e crescimento diferentes, e essas diferenças permitem construir fontes distintas de retorno. Em um mundo no qual o FMI ainda prevê inflação global de 3,9% em 2027, a diversificação geográfica também funciona como diversificação de regimes econômicos e monetários”, Fábio Murad, Consultor da Wiser Asset.


 

 




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