12/09/2026 06h46 - Atualizado em 12/09/2026 10h54
Com inadimplência recorde, negar crédito pode ser tão importante quanto concedê-lo
Com quase 84 milhões de brasileiros inadimplentes, discussão sobre concessão de empréstimos passa pelo papel das instituições em prevenção de novas dívidas
O Brasil atravessa um dos períodos mais desafiadores para o crédito ao consumidor. Em julho, 83,9 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, segundo a Serasa, o equivalente a mais de quatro em cada dez adultos. Eram 348 milhões de dívidas em aberto, que somavam R$586,4 bilhões. O número de pessoas com contas atrasadas atingiu o maior patamar da série histórica da empresa.
No entanto, a discussão sobre inadimplência não pode ser reduzida à ideia de falta de planejamento individual. Perda de renda, desemprego, aumento das despesas, juros, uso recorrente do cartão e contratação de novos empréstimos para quitar compromissos antigos fazem parte de um problema com múltiplas causas. Mas até que ponto conceder crédito é, de fato, ajudar o consumidor?
A resposta passa pela capacidade de pagamento. Para quem está com o orçamento comprometido, receber um empréstimo pode significar um alívio imediato, mas também criar uma obrigação que se torna difícil de sustentar nos meses seguintes. Nesse caso, a negativa de crédito, embora possa ser percebida pelo consumidor como uma barreira, funciona também como uma forma de contenção de risco.
“Crédito não é renda extra: é um recurso que antecipa uma capacidade de consumo, mas que precisa ser devolvido no futuro. Se a nova parcela não cabe no orçamento, a negativa pode ser justamente o alerta de que aquele empréstimo não é adequado para aquele momento”, afirma Marco Afonso, especialista de finanças da Simplic, plataforma de empréstimo pessoal 100% online.
A lógica ganha relevância em um momento de maior comprometimento da renda. Segundo dados do Banco Central, o endividamento das famílias estava em 49,8% em junho deste ano, enquanto o comprometimento da renda com o serviço da dívida chegou a 28,9%, o maior número da série histórica. A combinação indica que uma parcela relevante da renda das famílias já está direcionada ao pagamento de compromissos financeiros.
Isso não significa que o crédito seja necessariamente o problema. Em diversas situações, um empréstimo pode substituir uma dívida mais cara, financiar uma despesa emergencial ou ajudar na reorganização do orçamento. O ponto central é a adequação da operação à situação financeira de quem toma o crédito.
“Uma boa decisão de crédito precisa olhar para o depois da contratação. O consumidor não deve pensar apenas em quanto dinheiro vai receber hoje, mas em quanto aquela escolha vai comprometer a renda nos próximos meses. Essa mudança de perspectiva é importante tanto para o consumidor quanto para as instituições que concedem crédito”, diz Afonso.
Por esse motivo, a análise de crédito não pode depender apenas de critérios simples, como a existência de restrições no CPF. Com o desenvolvimento de técnicas mais avançadas de análise, maior disponibilidade de dados que demonstram o comportamento do tomador de crédito e a IA, as instituições financeiras conseguem avaliar aspectos diversos para estimar o risco de uma operação e a capacidade de pagamento de cada cliente. A tecnologia permite, assim, uma avaliação mais individualizada e decisões tomadas em maior velocidade.
“Quanto mais sofisticada a análise, maior a capacidade de diferenciar situações distintas: o consumidor que está temporariamente pressionado, mas tem condições de assumir uma parcela, daquele que já compromete parcela excessiva da renda e poderia aprofundar seu endividamento ao contratar uma nova operação”, explica Afonso.
A responsabilidade, portanto, é distribuída. O consumidor precisa avaliar sua capacidade financeira antes de contratar uma operação, enquanto as instituições têm o desafio de oferecer crédito de maneira compatível com o risco e o perfil de cada cliente. Quando essa equação não fecha, o “não” também pode ser uma decisão financeira responsável.



